Opinião

A insustentável leveza das uvas

Basta ter uma conversa com alguns produtores sobre a vindima da colheita 2017, para se perceber que as uvas pesam menos do que em anos anteriores. Em situações normais a água tem um peso que ronda os 85% na composição das uvas, mas a desidratação provocada pela seca provoca percas de água substanciais, daí as uvas pesarem menos em anos de seca. Esta é uma das consequências das alterações climáticas, que provocou na vindima de 2017 decréscimos de produção acentuados em algumas regiões de Portugal e em outros países produtores alvo dos efeitos do mesmo fenómeno.

As alterações climáticas, sabemos, é uma procissão que ainda vai no adro, pois os estudos previsionais baseados em vários modelos climáticos, provenientes de várias entidades credíveis a nível mundial, estimam um aumento dos períodos de seca até 2100, podendo ser mais ou menos prolongadas as secas em termos de tempo e com maior ou menor frequência. O certo é que vai sempre haver sempre mais secas em todos os cenários possíveis, com aumentos de subidas de temperatura médias, no melhor dos cenários de 2,5 graus até 2100. Na precipitação tudo é mais complexo, em Portugal já tivemos uma diminuição da precipitação média nas últimas décadas superior a 40 milímetros, mas segundo os especialistas vamos continuar a ter uma diminuição da precipitação em Portugal, pois estamos mais expostos ao anticiclone dos Açores, que tem um impacto nos factores associados aos valores da precipitação na Europa. É bom lembrar que os últimos anos de seca extrema em Portugal foram em 2005 e em 2012, e que o período de Abril a Novembro de 2017 foi o mais seco desde os anos 30, com valores de precipitação muito baixos, e a gravidade das secas extremas têm sido sempre maiores do que as anteriores.

As alterações climáticas têm um impacto negativo no sector agrícola, e é indiscutível que tem impacto na produção das uvas e consequentemente na vinificação, pois como se costuma dizer: - é possível fazer maus vinhos de boas uvas, mas não se podem fazer bons vinhos de más uvas. Se analisarmos um mapa das regiões vitivinícolas a nível mundial, verificamos que as regiões vitivinícolas se localizam em locais onde as temperaturas médias, na estação de crescimento do ciclo vegetativo da videira, se situam entre os 12 e os 22 graus. Alguns especialistas consideram o clima como o principal elemento diferenciador dos vinhos produzidos nas várias regiões vitivinícolas, para o bom e para o mau, equivalendo o impacto do clima na produção, em termos de peso, à soma dos outros elementos como o solo, práticas culturais e as castas. Assim, o clima tem um forte impacto no estado hídrico das videiras, pois a temperatura, a humidade e as radiações têm um papel determinante na fisiologia e na produção da videira, o que por sua vez tem impacto na composição das uvas.

Segundo os últimos dados a colheita de 2017, a nível mundial em volume é equivalente à produção de 1961, ou seja, nunca se produziu tão pouco vinho em 56 anos no planeta, e como seria expectável são os maiores países produtores os mais afectados com quebras de produção em relação à colheita de 2016; a Espanha 15%, a França 19% e a Itália 23%. A nível mundial a produção de 2017 será menos de cerca de 3 biliões de garrafas do que em 2016, é uma quebra que rondará os 8%. Portugal teve uma quebra de produção de cerca de 20% em 2016 relativamente a 2015, por isso a base de comparação é baixa, daí que o aumento de produção de 2017 relativamente a 2016 ronde os 10%. Mas para além do verão seco e sobretudo quente, convém lembrar que as geadas de Abril e Março de 2017 na Europa afectaram milhares de hectares de vinha, só na Vidigueira no Alentejo foram afetados 550 hectares de vinha na geada de 23 de março, e alguns produtores de vinho da Europa colocaram entre as videiras milhares de velas acesas para evitar a formação de geadas.

Se temos menos produção, temos um menor retorno do investimento, o que acarreta mais problemas para as empresas do sector. Claro que existem soluções para minorar os efeitos das quebras de produção, tal como existem soluções para os problemas criados pelas alterações climáticas no sector vitivinícola, quer na viticultura, quer na enologia, quer no marketing do produto, mas todas essas soluções envolvem investimentos. Sabendo que não há, para tudo solução, sabemos que existem algumas soluções que podem ser aplicadas para reduzir o impacto das alterações climáticas, nomeadamente plantar as vinhas em zonas de maior altitude (onde as temperaturas são mais baixas, com uma selecção adequada das castas e das variedades clonais e dos porta-enxertos mais resistentes a maiores temperaturas e ao tempo mais seco). Assim como é possível apostar na selecção dos porta-enxertos mais resistentes, ou um reforço do investimento em sistemas de rega, reaproveitamento de águas nas adegas, construção de barragens para acumulação de água das chuvas, plantação de árvores ao redor das vinhas cuja copa compense o excesso de exposição solar, pulverização das vinhas com protector solar tal como já acontece em algumas regiões da Austrália. Bem como pode apostar-se em projectar vinhas em locais outrora com temperaturas impróprias para a viticultura (como Inglaterra), mas que agora se apresentam mais temperadas, entre outras medidas que têm vindo a ser amadurecidas pela comunidade.

A OIV (Organização Internacional do Vinho) já adotou várias resoluções ambientais, incluindo os princípios gerais de vitivinicultura Sustentável (Resolução OIV-CST 518-2016), com o objetivo de definir o alcance e aplicação da produção sustentável e fornecer princípios gerais de sustentabilidade aplicáveis a todos os produtos vitivinícolas. Nesta resolução, entre outros aspetos, são claras as recomendações que dizem respeito ao uso da água, como são exemplo a optimização do uso da água considerando a disponibilidade local, o impacto na qualidade da água e os níveis das águas subterrâneas, a irrigação da videira de uma forma razoável.  Devendo ser preferidos os sistemas de irrigação com baixo consumo de água para superar o stress fisiológico das videiras, a prioridade dada aos sistemas que favoreçam o uso eficiente e efetivo, e a reutilização da água (sem excesso ou abuso) em todos os estágios da produção e a monitorização dos níveis de consumo de água. A rega deve ter sempre um suplemento ao fornecimento hídrico com o objectivo de evitar problemas na maturação e paragens na actividade fotossintética, e segundo as regras comunitárias, a rega da vinha em regiões com Denominação de Origem só pode ser efectuada em condições de excepção, apenas em situações extremas de défice hídrico, que têm de ser reconhecidas pelos organismos reguladores competentes.

A vinha é um dos principais motores da economia agrícola, mas também é uma cultura que se faz por paixão, e é preciso saber gerir as paixões com a razão. Se aumentamos os custos inerentes à implantação e manutenção da vinha, temos de aumentar o preço da uva e do vinho para manter a rentabilidade, se tudo aumentou de preço (os rótulos, as garrafas, as rolhas, etc.), e se só não aumentou o preço da uva, então alguma coisa está errada.  Apesar de a vinha ser uma cultura de sequeiro, com os períodos de seca provocados pelas alterações climáticas, para se ser profissional com paixão a rega tem de ser feita de uma forma racional, sendo a rega gota-a-gota indicada para a cultura da vinha, tendo também em consideração os nutrientes. As outras culturas que não são de sequeiro precisam de água, e se os recursos hídricos são escassos e não chegam para todas as necessidades, é fundamental que água seja gerida de uma forma equilibrada, até porque é necessário ter em consideração as questões ambientais, nomeadamente as que se relacionam com a pegada hídrica, isto é, o consumo que cada cultura deve ter do recurso água, que é cada mais escasso, tendo em consideração que para se produzir um litro de vinho numa vinha de regadio, são precisos 900 litros de água, três vezes mais água do que a necessária para se produzirem legumes, batatas ou cerveja. 

Se há mais leveza na uva, os preços não podem ser tão leves (é insustentável termos uvas no mercado a serem pagas a menos de 40 cêntimos por kg), especialistas acham recomendável subir o preço da uva para valores próximos de 1 euro por kg, no entanto alguns produtores defendem que o ideal seria vender na ordem dos 1,5 euros por kg (em algumas regiões de alguns países é esse o preço médio), se assim fosse garantiam a rentabilidade e teriam uma vitivinicultura sempre sustentável.

Há que estudar o mercado com rigor para se chegar a um equilíbrio que permita a sustentabilidade, e para que se chegue a um valor em que a leveza da uva seja sustentável, até porque o peso da uva é menor nos períodos de seca extrema, mas a falta da água pode ser compensada noutros componentes, como nos açúcares, nos minerais ou nas vitaminas, e a qualidade do vinho pode ser de excelência, como é caso dos vinhos da colheita de 2017 em todas as regiões vitivinícolas de Portugal, néctares, verdadeiros frutos de uma paixão.