O trabalho do arquitecto nos bastidores da arquitectura

Matéria-prima: um olhar sobre o arquivo de Álvaro Siza, que antes foi uma exposição, chega agora à edição em livro. A apresentação é esta terça-feira em Serralves.

Fotogaleria
Exposição Matéria-prima: um olhar sobre o arquivo de Álvaro Siza Fernando Veludo/NFACTOS
Fotogaleria
Exposição Matéria-prima: um olhar sobre o arquivo de Álvaro Siza Fernando Veludo/NFactos

No Verão do ano passado, entre Junho e Setembro, Serralves tratou de dar a conhecer grande parte dos 40 projectos que o arquitecto que desenhou o Museu de Arte Contemporânea portuense (MACS) doara à fundação um ano antes, em simultâneo com a entrega de outras partes dos seus arquivos à Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e ao Centro Canadiano de Arquitectura (CCA), em Montréal. Agora, chega a vez de Matéria-prima: um olhar sobre o arquivo de Álvaro Siza se metamorfosear num livro de André Tavares (Porto, 1976), que antes já comissariara a exposição. Apesar disso, “este livro não é o catálogo da exposição”, explica ao PÚBLICO Tavares, que fará a apresentação da nova publicação na companhia do próprio Álvaro Siza esta terça-feira às 18h30.

Se o livro contém a maioria das plantas, dos esquissos, da correspondência e das fotografias que integraram a mostra de 2016, “ele é bem mais detalhado na especificação do que é o arquivo que Siza doou a Serralves”, acrescenta o autor. E faz “uma síntese e um enquadramento da obra de Siza com um texto que só poderia ter sido escrito após a exposição”.

Arquitecto, professor, investigador e curador, André Tavares realça que a realização da exposição confirmou "que há uma maneira de projectar e uma capacidade de produzir documentos que nos podem ajudar a entender o trabalho de Siza para além da história oficial”. É que “para além da obra acabada, que é o grande objectivo do arquitecto e que fala sobre ela própria, há muitas coisas escondidas” que revelam o que é verdadeiramente o trabalho do arquitecto: como tomou as decisões que deram origem às formas do edifício, como escolheu os materiais e as cores, como enfrentou e resolveu os entraves administrativos, como combateu a burocracia e se relacionou com os empreiteiros, etc…

É essa, no fundo, a grande janela de possibilidades que um arquivo abre. E, no caso de Siza, Tavares realça as vantagens de ele ter sido distribuído por diferentes instituições que acordaram já trabalhar em rede na inventariação, investigação e abertura à consulta do acervo do primeiro arquitecto Pritzker português. “É importante que os três arquivos funcionem entre si, e que os documentos não fiquem reféns só de um deles, de uma só visão”, especifica o autor de Matéria-prima: um olhar sobre o arquivo de Álvaro Siza, realçando, por exemplo, a vantagem de no CCA a obra do arquitecto português poder “ser confrontada não com a Escola do Porto, mas com os arquivos do Aldo Rossi [1931-1997, arquitecto italiano], do Cedric Price [1933-2003, britânico], ou do Peter Eisenman [n. 1932, norte-americano]”.

Sobre a descoberta mais relevante com que se deparou no trabalho de preparação da exposição e depois do livro, Tavares diz que foi a relação de Siza com o mundo digital. “Há um pouco essa ideia de que Siza sempre foi um arquitecto de resistência, de jogar à defesa, de defender a tradição. É um mito: ele sempre fez um esforço por estar na linha da frente e pensar com todos os instrumentos e todas as possibilidade que tinha à mão, sem as rejeitar a priori”, diz, referindo-se ao modo como, logo no início da década de 80, o arquitecto integrou nos seus projectos o suporte digital e as tecnologias informáticas de geração geométrica. “Há desenhos incríveis de impressoras de agulhas, aquelas coisas que faziam imenso barulho, ainda do início dos anos 80." “Não serão os instrumentos que determinam o seu pensamento, mas é ele que os utiliza para pensar melhor a arquitectura”, acrescenta o autor-curador, realçando que tal descoberta só é possível a partir “dos materiais incríveis que encontramos nos arquivos para nos interrogarmos sobre esse potencial”. “E poder fazer isso com o material de Siza é uma maravilha, porque é uma figura central da cultura arquitectónica mundial”, conclui.

Antes de Matéria-prima: um olhar sobre o arquivo de Álvaro Siza, André Tavares abordou a pré-história de Serralves noutro livro e noutra exposição – respectivamente Os Fantasmas de Serralves (2007) e Casa de Serralves: o cliente como arquitecto (2015), ambos em volta da figura de Carlos Alberto Cabral (1896-1968), o conde de Vizela e industrial que construiu a casa à imagem das villas francesas da época, com uma contribuição marcante do arquitecto José Marques da Silva (1869-1947). Mas o historiador da arquitectura esclarece que para o trabalho entretanto realizado sobre Siza foi mais importante a investigação que fez junto dos arquivos coleccionados na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) por Manuel Mendes, nomeadamente sobre a obra de Januário Godinho (1910-1990), bem como o acesso aos arquivos da Fundação Marques da Silva sobre a obra deste arquitecto em Guimarães – tendo ambos dado origem a dois outros livros: Marques da Silva em Guimarães (catálogo da exposição homónima, 2006) e Duas Obras de Januário Godinho em Ovar (Dafne, 2012).