Paul Nicklen
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Os muros da apatia

Com a falta de comida no mar, os ursos passam em média mais 30 dias em terra numa busca inglória. A solução para pôr fim a este tormento existe: reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e, assim, arrefecer o planeta

O título deste artigo é roubado do Instagram de Paul Nicklen, biólogo e fotógrafo da National Geographic, que nos últimos anos tem vindo a mostrar com fotos e vídeos os efeitos das alterações climáticas na vida dos ursos polares. Nos últimos dias a imagem de um urso faminto a procurar comida em terra, esquelético, sem energia e com falhas de pelo no corpo, tem corrido mundo. No local onde o vídeo foi feito, na ilha de Baffin, a maior do Árctico do Canadá e a quinta maior do mundo, o gelo do mar escasseia.

Porquê? Porque os invernos são cada vez mais curtos, fazendo com que o gelo do mar derreta antes que os ursos consigam reunir comida suficiente para aguentarem o período de hibernação. Com a falta de comida no mar, os ursos passam em média mais 30 dias em terra numa busca inglória. A solução para pôr fim a este tormento existe: reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e, assim, arrefecer o planeta.

Os gases com efeito de estufa na atmosfera funcionam como um cobertor que mantém a terra quente, tornando o planeta habitável para os animais e para nós, Homo sapiens sapiens. Certo é que nos últimos 200 anos o Homem aumentou, e muito, os níveis de gases com efeito de estufa na atmosfera. Em vez de um cobertor, agora temos dois. As temperaturas aumentaram e o aquecimento global funciona como uma doença.

Os ursos polares são um ícone do Norte do Canadá, mas ultimamente têm simbolizado, de forma involuntária, os efeitos das alterações climáticas. Apesar de o Canadá ser longe de Portugal, as mudanças do clima são globais. As atitudes que tomarmos em Portugal vão, não só, beneficiar o nosso país, como também os ursos polares e o Árctico. Paul Nicklen apela à mudança das nossas atitudes perante as alterações climáticas: “Reduzir a pegada de carbono, parar com o abate de florestas e começar a colocar o mundo — a nossa casa — em primeiro lugar."

A Polar Bears International, organização líder na conservação dos ursos polares selvagens do Árctico, identificou, há muito, o que pode o Homem fazer para combater as alterações climáticas. Na esfera social podemos escolher votar nos políticos que reconhecem que a sociedade baseada no uso exagerado de carbono não é sustentável e participar em iniciativas ambientais das juntas de freguesia e de associações. Adoptar estilos de vida sustentáveis e ser um exemplo junto de família e amigos é outra opção. No que toca ao transporte e deslocações, as preferências passam por andar a pé, de bicicleta, usar transportes públicos, usar combustível mais eficiente no automóvel, manter os pneus dos veículos com pressão apropriada e fazer uma condução eficiente. Em casa e no local de trabalho temos hipótese de informar o fornecedor de energia de que gostaríamos de comprar energia verde, preferir electrodomésticos, equipamentos e aparelhos energeticamente eficientes e desligar os aparelhos quando não estão em uso. Escolher lâmpadas eficientes e usar apenas a água de que necessitamos são mais duas acções a praticar em casa e no trabalho.

Todas estas acções são pacíficas e simples de implementar, mas a pergunta que se coloca é: até que ponto os portugueses dependem do Árctico? Não só Portugal como todo o mundo depende e beneficia do Árctico. O Árctico fornece 10% da captura mundial de peixe e 5,3% de crustáceos. Apesar de em Portugal não comermos renas, o Árctico é o local de pasto para estes animais e a base de uma indústria pecuária de carne e produtos derivados. O Árctico serve o mundo como um destino turístico, especialmente de navios de cruzeiro. É essencial para a purificação da água, controlo das inundações e estabilidade da linha costeira. Diariamente beneficiamos do Árctico e nem nos lembramos disso. Os empregos dos habitantes do Árctico e o bem-estar e subsistência dos diferentes grupos étnicos que nele habitam também dependem de nós.

Acreditemos ou não, estas acções individuais vão acabar por ter grande impacto na vida dos ursos polares e na resiliência do Árctico. A temperatura do planeta arrefece, o gelo do Árctico derrete menos e os ursos conseguem encontrar focas e morsas, os seus alimentos preferidos. Se até aqui as acções do homem foram determinantes para aquecer o planeta também o serão para o arrefecer. O homem pode utilizar a sua energia para reconstruir tudo aquilo que tem andado a destruir.

Ao contrário de muitos dos recursos naturais que estão a escassear, o Homem é um recurso abundante. Somos os únicos animais altamente versáteis, com energia e racionalidade suficientes para avançar no caminho certo. E o caminho certo passa por preservar o habitat dos ursos e o de muitas outras espécies, como o do Homo sapien sapiens. Derrubar os muros da apatia e inverter as consequências das alterações climáticas está na mão de todos.