“Os primeiros dois dias foram difíceis, depois o corpo habitua-se”

Após realizar a etapa entre Lisboa e a Cidade do Cabo a bordo do Turn The Tide On Plastic, Frederico Melo admite alguma ansiedade pela chegada da Volvo Ocean Race ao Oceano Sul.

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Duas semanas depois de o Volvo Ocean 65 da MAPFRE ter demorado 19 dias, uma hora, dez minutos e 33 segundos a percorrer no Oceano Atlântico 7886 milhas náuticas entre Lisboa e a Cidade do Cabo, as sete equipas que competem na Volvo Ocean Race (VOR) 2017-18 partiram ontem da África do Sul rumo à Austrália, onde têm chegada prevista para a véspera ou o dia de Natal. Pela frente, as tripulações terão pela primeira vez os difíceis e frios mares do Índico Sul, e Frederico Melo, que pela segunda etapa consecutiva estará a bordo do Turn The Tide On Plastic (TTOP), equipa com bandeira portuguesa, admitiu em conversa com o PÚBLICO, antes da partida para Melbourne, alguma ansiedade: “Ouve-se sempre falar no Oceano Sul, que é muito frio e onde é preciso cuidado. Vai ser muito duro e um desafio enorme”.

Após uma partida com condições quase perfeitas de Lisboa, a saída da VOR da Cidade do Cabo parecia estar destinada a ser um prenúncio das enormes dificuldades que os sete Volvo Ocean 65 vão encontrar nas próximas semanas nas mais de 6500 milhas náuticas que terão que percorrer. Na véspera de os veleiros zarparem da África do Sul, a Cidade do Cabo foi fustigada por rajadas superiores a 100 km/h do famoso “Cape Doctor”, nome pela qual são conhecidas as correntes de vento forte e persistente de sudoeste, comuns no Cabo nos meses de Verão. Porém, tal como em Lisboa, na partida para a terceira etapa da corrida as condições meteorológicas voltaram a estar perto da perfeição: sol e vento de aproximadamente 20 nós (cerca de 35km/h).

Apesar da bonança antes da partida, Frederico Melo estava consciente das tempestades que iriam surgir no horizonte. Com 30 anos e um currículo na vela construído exclusivamente em regatas costeiras, o velejador olímpico português está a ter na VOR o seu baptismo numa grande competição offshore. O velejador de Cascais, que a par de Bernardo Freitas fará a quarta etapa entre Melbourne e Hong Kong, faz parte da TTOP, equipa que conta com o patrocínio da Fundação Mirpuri, e num primeiro balanço admite que os primeiros dias da segunda etapa após a saída de Lisboa foram “os mais difíceis”. “Dormir no início foi complicado. Eram apenas períodos curtos e eu estava sempre alerta. Mas, depois, o corpo habitua-se e começa a entrar numa rotina, como uma máquina, com horas certas para tudo”, revelou Melo ao PÚBLICO, na véspera da partida para a quarta regata.

Na longa travessia do Atlântico houve, no entanto, “alguns sustos”. Apesar de salientar que “a bordo toda a gente tem sempre muito cuidado” e há um grande espírito de entreajuda, ter “velas que pesam 100 quilos a passar de um lado para o outro” impõe respeito. “Chegámos a ficar debaixo de algumas ondas, com a sensação que era fácil cair borda fora agarrado a uma vela. Tive uma situação assim, mas por ser inexperiente, fico mais alerta.”

Após uma chegada emocionante à Cidade do Cabo, onde a TTOP discutiu ao segundo o sexto lugar com a Scallywag, Frederico Melo diz que a preparação para a etapa seguinte passou por estar “o mais relaxado possível”, mas, ao contrário do que acontece com as equipas de topo, que têm orçamentos mais elevados, na TTOP o trabalho, mesmo quando o barco está atracado, raramente pára: “Temos uma equipa de terra muito boa, mas como o orçamento é mais pequeno, alguns velejadores que não fizeram a última perna, como é o caso do Bernardo, estiveram a trabalhar na equipa de terra. Para além disso, durante a semana que antecede a partida, cada um tem uma área de responsabilidade. Todos temos que ajudar um bocado.”

Com um quinto lugar na In-Port Race no Cabo, à frente da categorizada Team Brunel e da Scallywag – nas duas primeiras regatas costeiras a TTOP foi última classificada –, Frederico Melo diz que o moral da equipa está elevado, deixando elogios a Dee Caffari, a única mulher a liderar um barco na VOR: “É muito positiva, motiva bastante a equipa e tem sempre atenção à segurança. Sentimo-nos seguros. Não podia estar mais contente com esta equipa. A consistência ainda não é alta, mas estamos a aprender rápido para estarmos ao nível dos outros.”

Prevendo o que vai encontrar nos mares do Índico Sul, onde há a possibilidade de os VOR 65 se depararem com icebergues e onde vão encontrar temperaturas da água do mar pouco superiores a zero graus, o velejador português admite uma enorme expectativa. “Ouve-se sempre falar no Oceano Sul, que é muito frio e onde é preciso cuidado. Vai ser muito duro e deixa-nos pensativos. Não faço ideia de como vai ser, vou tentar preparar-me o melhor possível. Será importante manter a roupa quente e o resto logo se vê. Toda esta regata será um enorme desafio.”

O PÚBLICO viajou a convite da Dongfeng Race Team

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