Circo

Um palhaço é um poeta em acção

São poetas e poéticas, são cómicas e lacrimejantes, são críticas e ingénuas, são trapalhonas e acrobatas. São tudo ao mesmo tempo e, nesse mesmo tempo, a essência de tudo. Hoje, no Dia dos Palhaços, vamos falar dessa essência no feminino
Fotogaleria

Com uma voz naïf e terna, de roupão vermelho e enquanto enrola um cigarro, Pepa Plana lembra-se da frase de Henry Miller “um palhaço é um poeta em acção.” A palhaça catalã está nos camarins do Chapitô, no fim do espectáculo que apresentou no 10.º Ciclo de Mulheres-Palhaço. Se definir o que é ser palhaço já é difícil, tão inexacto e delicado como ser-se poeta, perceber como se ergue essa essência no feminino ainda mais desafiante pode ser. Cada uma daquelas mulheres tem uma palhaça dentro delas, que é pessoal e intransmissível. Quem são, de onde vêm e como nascem?

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Para a maioria delas, uma palhaça tem de fazer rir o público, mas nem todas o entendem assim. Mais: para algumas, as palhaças podem fazer um humor local, ancorado em críticas que façam sentido num país ou num tempo; já para outras o patamar é mais universal. Em vez de fórmulas, parece haver espectáculos. Há os que resultam e os que não. E elas sabem distingui-los.

Já aconteceu a todas passar por algum que não teve o efeito imaginado. Um dia, fazem um espectáculo, com ou sem a mais pequena máscara do mundo – o nariz vermelho – e ninguém se ri. “É uma tristeza”, diz Teresa Ricou, fundadora do Chapitô. A ela, e à palhaça que criou, a Teté, já lhe aconteceu muitas vezes. O que se faz? “Tenta-se dar a volta, brincar com a situação”, graceja.

Mas uma palhaça também pode conseguir a proeza contrária: a de enternecer, comover os espectadores. Uma palhaça, seja no feminino ou no masculino, procura a essência das coisas. Os caminhos para lá se chegar é que podem ser muitos e muito diferentes.

“Podemos fazer rir ou chorar. Com o Chaplin, por exemplo, um dos grandes palhaços mundiais, muitos dos temas tocavam numa preocupação social, eram temas muito dramáticos, mas às vezes até o drama faz rir as pessoas. O nosso papel é transformar a miséria em comédia”, continua Teresa Ricou.

Os palhaços e os anjos não têm sexo

Em Portugal, não é segredo o lugar que Teresa Ricou ocupou nas artes circenses. Foi ela, uma mulher, que começou muito do que por cá se faz nestas artes. Sabe que “não é fácil” escolher a profissão de palhaça: “É preciso ser uma escolha muito determinada, muito decidida, é preciso ter uma certa coragem para se viver disso”, explica a criadora da palhaça Teté, que prefere, porém, dizer-se artista de circo.

Teresa Ricou conta que assumiu “rapidamente” que queria enveredar pelas artes circenses – mas se ela assumiu “rapidamente”, a sociedade não. Não lhe reconheceu logo a ousadia, não a valorizou logo (ainda agora a fundadora do Chapitô sente que se desconsidera a profissão de palhaço em Portugal).

“Era uma profissão muito masculina, ou muito sem género; os palhaços e os anjos não têm sexo”, recorda. A certa altura do seu percurso artístico, porém, pensou: “Por que é que hei-de estar de calças?” A questão – bem como a resposta – surgiu durante uma digressão pelo Alentejo, na qual se pôs a reparar nas mulheres e a perceber “a importância” delas. “E eu estava ali a fazer de homem?” Indignou-se, ganhou “uma consciência social mais apurada” e começou “a usar saias como palhaça”. Foi depois da revolução de Abril.

Apesar de não ter, no currículo, formação especificamente pensada para quem quer ser palhaço, o Chapitô vai tendo, por exemplo, workshops: “Formo aqui as pessoas com todos os ingredientes para serem um bom palhaço ou palhaça”, garante Teresa Ricou, que não criou o Ciclo de Mulheres-Palhaço por razões feministas. Quis apenas dar o palco às mulheres por também ser uma, e por “gosto e honraria”.

Ana Luísa Cardoso foi uma das artistas que também passaram por este ciclo que teve a décima edição este ano. Trouxe do Brasil até Portugal a palhaça Margarita, chegou ao palco com a mais pequena máscara do mundo posta, com uns sapatões calçados, umas luvas brancas e um sorriso rasgado: “Oi, coisa boa, Lisboa!”

Num artigo que está publicado na Internet, defende, tal como todas as companheiras deste festival, que “palhaço não é personagem. Palhaço é! Palhaço é único; ninguém faz Carlitos [Charlot], alguém tenta copiar Carlitos. Por isso quando um grande palhaço morre é uma perda terrível, pois seus gags, seus bordões e seu número vão com ele.”

Demorou “muito tempo” para se assumir como palhaça. “No início houve uma resistência, pois o arquétipo é masculino”, descreve. Agora, volta e meia, pega no nariz vermelho e anda pelas ruas do Rio de Janeiro. É um exercício que gosta de fazer.

“A mulher-palhaça quebra com tanta coisa. Porque a mulher tem de ser a comportada, não pode rir muito…”, enumera. Mas Ana Luísa Cardoso faz questão de dizer que é palhaça, e di-lo carregando no “a”, enquanto mostra uma carteira na qual a profissão ainda surge no masculino: “Tem aqui profissão palhaço, mas eu sou palhaça. Foi em 1999 que passou a palhaça, dantes era actriz.”

Fotogaleria

Pode ser tudo, desde que faça rir

Ana Luísa Cardoso tem 56 anos, a Margarita já a habita há 30. Uma palhaça que foi mudando com o tempo: houve uma altura em que “era toda boazinha, depois foi envelhecendo”, começou “a ficar mais raivosa”. No espectáculo ela é uma multiplicidade: é desafiadora, é reivindicativa, é lutadora num ringue, é noiva à espera. E pode ser tudo, desde que faça rir. Para Ana Luísa Cardoso, uma palhaça tem de fazer rir.

E para Pepa Plana, palhaça há 22 anos, também. No espectáculo no Chapitô, usa o nariz, mistura palavrões e tropeções, mas é cheia de ternura e de poesia. Em cena, baralha-se, é trapalhona e bondosa, não sabe distinguir um super-herói de um anjo-da-guarda, quer ajudar toda a gente, mas tem dúvidas, tem medos. Ri-se, chora.

“Sim, uma palhaça, ou palhaço, tem de fazer rir. Mas há muitas formas de rir”, diz, ao mesmo tempo que o ilustra, soltando primeiro uma gargalhada sonora e, depois, um riso tímido. “Há palhaços maravilhosos, que são pura poesia, não há um método”, abrevia.

Mas quem é, afinal, um palhaço, ou uma palhaça? Pepa Plana enrola mais um cigarro, enquanto tenta respostas: não é um actor, não é uma personagem. “É um ser único que não se parece com ninguém.” Mais: “É um ser que és tu”, “cada palhaço tem o seu universo” e há tantos palhaços como pessoas. E muitas histórias que são possíveis, tem é de haver “drama”, diz. O palhaço vive em drama e são as tentativas de resolver essa tragédia aquilo que nos faz rir, explica.

E é mais difícil ser-se palhaça do que palhaço? “Não há tradição de mulher-palhaça, o estereótipo é masculino.” As mulheres tiveram de se inventar, sem “referentes”, sem uma grande “história” por trás, continua. “O humor dos palhaços está escrito no masculino”, acrescenta, não sem ressalvar que isso está a mudar.

Já para Catarina Mota, de 26 anos, ex-aluna do Chapitô, não é obrigatório fazer rir: “Às vezes, até faz chorar.” Depois de se apresentar como palhaça e actriz, explica que ser palhaça é diferente de personagem, porque é um “estado”, é preciso encontrar o palhaço dentro de cada um.

Mas se dúvidas ainda houver sobre um espectáculo no feminino – em que nenhuma das quatro mulheres, em palco, usa sequer o nariz vermelho – é ver, por exemplo, Circo en Feminino Plural, das espanholas Las Expertas, que também estiveram no Chapitô. Intervalando momentos poéticos, de dança, de acrobacia, com comicidade, truques de magia e malabarismos com arcos, elas acabam por questionar os estereótipos femininos e aquilo que pode ser a discriminação das mulheres.

Mesmo que as quatro mulheres da companhia não estejam de acordo sobre se é ou não um espectáculo feminista, o que acontece em cena é que elas decidem desafiar a voz masculina de um programa informático, que lhes dá ordens para se despirem e que quer saber o que estão elas dispostas a fazer para ficarem com um emprego: se têm uma relação, se querem ter filhos. Elas fazem as mais incríveis proezas, mas enfrentam a voz. E, pelo caminho, fazem-nos rir. 

Este artigo encontra-se publicado no P2, caderno de domingo do PÚBLICO