Abbas dá corpo à revolta e recusa receber Pence

Reacção de força após Trump reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Palestinianos querem encontrar um novo mediador para o processo de paz.

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Protesto em Jerusalém contra o Presidente norte-americano AMMAR AWAD/Reuters
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As forças de segurança dispersaram o protesto e detiveram 13 pessoas AMMAR AWAD/Reuters
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Os protestos estenderam-se também à Cisjordânia (na foto) e a Gaza MOHAMAD TOROKMAN/Reuters
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O chefe da diplomacia palestiniana diz que é preciso substituir os EUA como mediador das negociações com Israel MOHAMED ABD EL GHANY/Reuters

A Autoridade Palestiniana confirmou que Mahmoud Abbas não se vai encontrar com o vice-presidente norte-americano, Mike Pence, quando ele visitar a região durante este mês, naquela que é a primeira reacção de força à decisão da Administração norte-americana de reconhecer Jerusalém como capital de Israel.

A recusa já se fazia anunciar desde que, quarta-feira, o Presidente Donald Trump dinamitou décadas de consenso diplomático e prometeu para breve a mudança da embaixada norte-americana para Jerusalém – acções que segundo o líder palestiniano desqualificam os Estados Unidos como mediador das negociações de paz. “Os EUA ultrapassaram todas as linhas vermelhas com estas últimas decisões sobre Jerusalém”, disse Majdi al-Khalidi, conselheiro diplomático de Abbas, no dia em que a liderança palestiniana esteve reunida para decidir como responder a Trump (encontros que terão incluído também representantes do Hamas e da Jihad Islâmica, adiantou o jornal Guardian).

Fontes da Casa Branca disseram a AFP que o vice-presidente, com viagem marcada a Israel, aos territórios palestinianos e ao Egipto, “mantém os planos para se encontrar com Abbas” a 19 de Dezembro e “entende que seria contraproducente ele recusar a reunião”. Além de Abbas, também o imã da mesquita Al-Azhar no Cairo, principal centro de referência do islão sunita, e o líder da igreja copta egípcia, recusaram encontrar-se com Pence.

O périplo surge como parte dos preparativos de um suposto plano de paz que Trump prometeu apresentar no início do próximo ano, e do qual incumbiu o seu genro, Jared Kushner. Mas o cepticismo da Autoridade Palestiniana com esta iniciativa transformou-se em revolta perante a decisão de Trump em alinhar com a posição de Israel, que reclama Jerusalém como sua capital “indivisível”, enquanto os palestinianos ambicionam fazer de Jerusalém oriental a capital do seu futuro Estado.

“Vamos procurar um novo mediador entre os nossos irmãos árabes e a comunidade internacional, um mediador que nos permita concretizar a solução de dois Estados”, disse o chefe da diplomacia da Autoridade Palestiniana, Riyad Al-Maliki, antes de uma reunião de emergência da Liga Árabe, no Cairo.

Apesar da condenação unânime é, porém, pouco provável que os aliados árabes, a começar pela Arábia Saudita, estejam dispostos a um braço de ferro com Washington, num momento em que a sua grande preocupação é enfrentar o que dizem ser a crescente influência regional do Irão, a grande potência xiita.

Dirigentes palestinianos contaram à Reuters que, num encontro em Novembro, o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, terá tentado convencer Abbas a apoiar o plano de paz de Kushner, apesar de este pouco mais prometer do que a criação de uma “entidade palestiniana” que passaria a governar Gaza e partes da Cisjordânia, sem desmantelamento de colonatos ou o regresso de refugiados palestinianos.

Nas ruas, este sábado voltaram a estar os protestos, ainda que menos intensos do que nos dois dias anteriores, incluindo na Cidade Velha de Jerusalém, onde as forças de segurança dispersaram à força e detiveram 13 manifestantes, adianta a estação Al-Jazira. O dia tinha começado com um raide da aviação israelita contra alvos do Hamas em Gaza, em retaliação por três rockets disparados sexta-feira à noite contra território israelita. O movimento islamista confirmou a morte de dois militantes no ataque, que feriu outras 25 pessoas e elevou para quatro o número de mortos naquele território em apenas 48 horas.