Eles querem dizer bom dia ao vizinho, não good morning

Nestes tempos em que o alojamento local impera em Lisboa, a exposição "Alma de Alfama" homenageia residentes históricos, aqueles que ainda são a essência do bairro mas que estão em extinção.

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O retrato de Cândida Casanova
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O retrato de Nelson e Domingos
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Ricardo Lopes
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O Sr. Nelson tem 74 anos e vive em Alfama os mesmíssimos dias que leva de vida. Nascido em casa, jogava à bola no largo da igreja de Santo Estevão e fazia corridas de arco pelos becos do bairro, coisas que já não se fazem, diz. “Era um bairro onde quando era preciso sal ia-se pedir ao vizinho e ele dava”, conta, com saudade. “Toda a gente se conhecia e toda a gente se falava, havia amizade e respeito entre a vizinhança”, acrescenta ainda.

Trabalhou 50 anos ao balcão de uma papelaria e hoje é uma peça crucial na feitura dos arcos das marchas de Alfama, um trabalho em que tem muito orgulho. Mas tem saudades do bairro de antigamente, um bairro com muita “malandrice” e muito fado. Mas sobretudo sente falta de, ao descer as escadas do seu prédio, dizer bom dia ao seu vizinho, em vez de good morning mais que não fosse porque nem consegue ser agradável numa língua que não domina.

“Hoje em dia é totalmente diferente: eu moro aqui, não conheço ninguém e o meu vizinho tão depressa é chinês, coreano ou inglês”, afirma frustrado.

Nelson é um dos residentes que contraria a tendência de saída da zona, devido ao crescente número de alojamento local que aí se instala, e um dos moradores que preserva a autenticidade do bairro.

É este espirito de resiliência que pretende ser homenageado na segunda edição da exposição “Alma de Alfama”, organizada pela Junta de Santa Maria Maior, que irá pontilhar a partir desta quinta-feira o bairro lisboeta com retratos dos seus emblemáticos habitantes.

A queixa que o bairro está a perder a sua aura devido à enorme afluência de turistas é recorrente. Tal como Nelson, Augusto, de 81 anos, recorda os tempos de uma Alfama unida em que, ao regressar do trabalho, os vizinhos chegavam a jantar todos juntos.

“É triste ver que isto morreu muito e que desapareceram as pessoas de idade”, conta, sentado à porta do seu café de eleição, onde foi retirado o seu retrato para exposição. “As pessoas saem porque perdem o direito às casas quando estas passam de pais para filhos e depois os senhorios alugam a estrangeiros, que pagam mais”, acusa.

Foi exactamente por se verificarem este tipo de situações que Miguel Coelho, presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, decidiu avançar com esta iniciativa pela segunda vez. “Começámos a sentir na pele a hostilização por parte de muitos investidores, que tentam encontrar buracos na lei e expulsar os residentes para puderem começar a abrir alojamento local”, denuncia o autarca.

A pressão para despejar habitantes idosos permite que pessoas muito peculiares, que “transmitem a magia do bairro”, sejam retiradas de suas casas. Esta iniciativa pretende alertar para este problema. “O turismo pode trazer coisas boas, não pode é tirar as casas às pessoas”, acrescenta ainda Miguel Coelho.

De facto, há um lado positivo neste afluxo de estrangeiros, como testemunha Cândida Casanova, residente do bairro há 82 anos e que criou o seu negócio de venda de ginjinha face ao sucesso da bebida entre os viajantes.

“Ainda ontem veio aqui uma inglesa comprar ginja quando eu estava a almoçar”, relembra entre risos. “Viu que estava a comer peixe e achou que era sardinhas mas era peixe-espada. Ofereci-lhe e vi o ar de maravilhada ao experimentar. Acho fantástico haver tanta curiosidade” afirma.

O facto de os turistas lhe pedirem para lhe tirar fotografias ao lado da sua placa, que se encontra mesmo na esquina de sua casa, é algo que a enche de orgulho já que, depois de uma vida de trabalho intenso durante 82 anos, gosta de se sentir como “uma celebridade”.

E aqui se espelha o dilema do turismo na cidade - ao contribuir para a expulsão dos residentes, que são a alma da cidade, rouba aos estrangeiros muito do que os atrai em Lisboa. Por outro lado, a taxa turística cresce exponencialmente. Para tentar equilibrar os benefícios económicos com a preservação da essência dos bairros, Miguel Coelho defende que o licenciamento do alojamento local deixe de ser atribuído pela Direcção-Geral de Turismo e passe para as câmaras.

Já Nelson acha que o alojamento local é algo temporário e que não vai durar muito. “Faz-me lembrar um pouco a febre do ouro”, afirma a subir a rua de São Pedro a passo lento. “Aqui há uns anos abria uma casa de venda de ouro por dia, era uma loucura e, do nada, fechou tudo.”

Enquanto Lisboa se debate nesta encruzilhada, importa lembrar e homenagear a história, algo que para Camilla Watson, a fotógrafa responsável, se torna crucial, pois oferece aos visitantes um contacto imediato com a comunidade e preserva a sua memória para gerações futuras.

O projecto de fotografia a preto e branco, gravado em pedra calcária e acompanhado por um breve texto, estará em exposição permanente nas ruas de Alfama a partir das 16h30 de 7 de Dezembro.

Texto editado por Ana Fernandes

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