Gulbenkian arruma a casa na colecção moderna para a "desarrumar" daqui a uns meses

Reorganização do acervo de 1900 até à actualidade criou uma exposição permanente e lá dentro fez nascer núcleos temáticos. O objectivo é que as peças sejam renovadas três vezes por ano, mostrando o que a fundação guarda nas reservas. Ali está, garante a directora, o "museu de arte moderna português".

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Um visitante perante o retrato que Mário Eloy fez do influente arquitecto José Pacheco (1925) Daniel Rocha
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Obra de Cesariny em primeiro plano, ao lade de Salazar a Vomitar a Pátria, pintura icónica de Paula Rego Daniel Rocha
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No, de Rui Toscano Daniel Rocha
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Obra de Gil Heitor Cortesão Daniel Rocha
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Fotografias de Jacques Minassian, francês que registou o Portugal da década de 1970 Daniel Rocha
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Obra de Alberto Carneiro, artista que morreu este ano. Chama-se Árvore Jogo/Lúdico em Sete Imagens Espelhadas (1974-2009) Daniel Rocha
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Obra de Alberto Carneiro, artista que morreu este ano. Chama-se Árvore Jogo/Lúdico em Sete Imagens Espelhadas (1974-2009) Daniel Rocha
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Uma turma de liceu junto a uma obra de Francis Smith (à dta.) e a outra de Emmerico Nunes Daniel Rocha
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Uma visitante entre pinturas do casal Sarah Affonso (à esq.) e Almada Negreiros Daniel Rocha

O projecto piloto que foi a exposição Portugal em Flagrante, dividida em vários “momentos”, desvaneceu-se discretamente para que no seu lugar pudesse ser instalado, a título permanente, um acervo de arte moderna que quer que lhe dêem a importância que merece – a mesma que tem o que fica do outro lado do jardim e que guarda as peças que Calouste Gulbenkian reuniu ao longo da vida e a que hoje se chama Colecção do Fundador.

“Finalmente chegámos ao novo museu”, disse esta manhã a directora do Museu Gulbenkian, a inglesa Penelope Curtis, num pequeno-almoço em que reapresentou aos jornalistas a colecção dos séculos XX e XXI que a Fundação Gulbenkian começou a reunir desde a sua criação, agora organizada de forma a estar sempre exposta, embora o conjunto de obras que se mostram ao público seja significativamente alterado três vezes por ano (a ideia é retirar as peças das reservas e fazê-las circular pelas galerias).

“As pessoas não estavam habituadas a olhar para a colecção moderna porque ela quase nunca cá estava”, acrescenta a historiadora de arte especializada em escultura, lembrando que o espaço do antigo Centro de Arte Moderna era sobretudo ocupado por exposições temporárias, o que vai deixar de acontecer. O que não quer dizer que, com esta reorganização, os visitantes estejam a partir de agora rodeados das mesmas pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos ou instalações. Muito pelo contrário. 

Grosso modo, a cada quatro meses haverá obras novas para ver. Mudar-se-ão artistas e núcleos temáticos, embora os “nomes-chave” do acervo, como Amadeo de Souza-Cardoso, estejam sempre representados para que o visitante tenha acesso a uma “narrativa mais constante” da arte portuguesa dos últimos cem anos. Penelope Curtis e a sua equipa tentarão criar nesta Colecção Moderna um “equilíbrio” entre os autores que todos identificam e os que poucos conhecem ainda para, explicou ao PÚBLICO, “contar uma história mais rica e mais complexa”, contrariando a tendência generalizada – assim a define – para reduzir a criação portuguesa a um punhado de nomes. 

“Queremos fazer tudo o que pudermos com a nossa colecção”, sublinha, tarefa que “não é fácil” se se tiver em conta que a Gulbenkian empresta cerca de 350 obras por ano a outras instituições, dentro e fora do país.

2018 vai ser um ano particularmente desafiante em termos de empréstimos. Só a exposição sobre Fernando Pessoa prevista para o Museu Rainha Sofia, em Madrid, comissariada pelo seu subdirector, o português João Fernandes, vai contar com 50 obras da Gulbenkian, de artistas como Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Eduardo Viana, Leal da Câmara e o casal Sonia e Robert Delaunay.

Oásis moderno

“Temos aqui aquilo a que se pode chamar o museu de arte moderna português e queremos que as pessoas voltem”, explica a directora do Museu Gulbenkian. Para as fazer voltar é preciso comunicar cada vez mais e melhor as transformações por que o museu tem vindo a passar desde que em 2015 Penelope Curtis foi nomeada, com a missão expressa de juntar a colecção moderna à de Sarkis Gulbenkian, criando um só museu.

Dessa estratégia de abertura faz parte o guia agora lançado – o primeiro a unir os dois acervos. O volume, com 200 páginas, não quer apenas orientar a leitura das colecções, quer ser o mapa de “um lugar”. Partindo do princípio de que o facto de as colecções serem mostradas em edifícios separados pode ser uma mais-valia, porque pelo meio há “um jardim maravilhoso”, a directora do museu fala deste novo guia como um instrumento de contextualização. “Tenho trabalhado muito nos arquivos recentemente e é por isso que sei que esta relação entre arte e natureza faz parte do conceito original do museu.”

Como boa parte dos visitantes do Museu Gulbenkian é estrangeira (não se sabe ao certo qual a percentagem porque as estatísticas da fundação deixaram de fazer a distinção entre nacionais e não nacionais), Penelope Curtis quis que o novo guia fosse capaz de fazer o retrato político do século XX português, da Primeira República à revolução de 1974 e à contemporaneidade, passando pelo Estado Novo.

“A maioria dos nossos visitantes [430 mil no ano passado, mais 100 mil do que em 2015] não faz ideia da história de Portugal e é importante situá-los” para que percebam até que ponto é singular a posição do país, acrescenta. E quão singular é, por sua vez, a posição da Gulbenkian, sobretudo até Abril de 1974: “um oásis moderno dentro de uma ditadura”.

Agora que Penelope Curtis conhece melhor esta história e também as colecções do museu que dirige, tem mais consciência das suas lacunas e também dos seus pontos fortes. É por isso que diz que é preciso “melhorar a representação histórica do começo do século, sobretudo da escultura”, e que os anos 1960-80 são os mais recheados: “A arte feita por mulheres no final dos anos 60, começo dos 70, é particularmente forte, provavelmente mais forte do que na maioria das colecções que conheço [noutros países].”

Para colmatar as lacunas, Curtis conta em 2018 com um “generoso” orçamento de aquisições igual ao deste ano – 500 mil euros.

Visita guiada

Este primeiro momento de reorganização da colecção moderna – o próximo será na Primavera e fará mudanças nos núcleos de escultura – introduz 94 novas peças na exposição permanente. Pintura, desenho, aguarela, instalação, vídeo e fotografia, esta última num pequeno módulo em que estão representados, por exemplo, Victor Palla (está lá aquela de uma bailarina sentada entre cadeiras a que é impossível fugir) e António Sena da Silva, que foi objecto de aquisições recentes.

Os núcleos temáticos mostram pintura d’Os Loucos Anos 20 – obras de Eduardo Viana e Lino António para o Bristol Club – ou o já “clássico” Retrato de Pacheko (o influente arquitecto José Pacheco visto por Mário Eloy). Nas obras sobre papel, destaque para os desenhos de Mily Possoz (1888-1967) do módulo Mulher da cidade, mulher do campo, centrado na representação da mulher portuguesa durante o Estado Novo, e para os que atestam as incursões cubistas de Amadeo no dedicado aos instrumentos musicais e que funcionam, muito provavelmente, como estudos para uma das suas pinturas mais celebradas. Nos módulos mais recentes há ainda trabalhos de Rui Toscano, Cecília Costa, Jorge Queiroz, António Charrua, João Louro ou Gil Heitor Cortesão.

Para que todos fiquem a conhecer as mudanças na colecção, o site da Gulbenkian tem agora uma secção chamada Museu em Directo, com muitos detalhes sobre as obras, os temas e as compras mais recentes.

Quem poderá acompanhar de perto todas as novidades são os próprios artistas representados neste acervo de 1900 à actualidade. A fundação acaba de criar para eles um passe grátis – são 430 os que o poderão trazer na carteira.

Foram feitas três correcções nas legendas no dia 12 de Dezembro, às 12h30

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