Crítica

Três homens e um caixão

Um filme a lamber feridas, num fatalismo suave que nem tem muito mais a dar do que a sua própria exposição.

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A âncora são as personalidades distintas dos protagonistas, a reaproximarem-se e a redescobrirem o companheirismo
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Ainda há poucas semanas por cá se estreou Marcas de Guerra, de Jason Hall, um filme sobre o regresso à vida civil de um grupo de veteranos da guerra do Iraque, e chega agora o contributo de Richard Linklater para a exploração do tema, ou para a exploração do “subgénero”, como a recorrência do tema ao longo de décadas de cinema americano acabou por gerar. Recorrência, aliás, directamente incorporada no tecido narrativo do filme de Linklater: os seus protagonistas, o trio formado por Steve Carell, Bryan Cranston e Laurence Fishburne, são três veteranos da guerra do Vietname, ocasionalmente reunidos, muitos anos depois da última vez em que se tinham visto, para acompanhar o funeral do filho de um deles (Carell), que acabou de morrer em Bagdade (a história passa-se em 2003, portanto em plena invasão, e há uma cena em que as personagens vêem, pela televisão, as imagens da captura de Saddam Hussein). Ao enlaçar assim o Vietname e o Iraque, a ideia de Linklater é óbvia e bastante justa — é outra vez a América como país “sempre em guerra”, e onde a guerra é uma paisagem mental que passa de geração em geração.

Cineasta de sensibilidade nada belicosa ou agressiva, e muito pouco “político” pelo menos em primeiro grau, Linklater serve-se destes elementos mais para uma constatação melancólica, bem temperada pela meteorologia invernal (tudo se passa num mês de Dezembro), e servida com os modos de um road movie (ou rain movie) entre as paisagens das imediações de Washington e o estado do Delaware. Dissemos road movie, também podíamos dizer buddy movie, porque a âncora do filme são as personalidades, completamente distintas se não mesmo contrapolares, dos três protagonistas, a reaproximarem-se e a redescobrirem o companheirismo que partilharam nos seus tempos de “boyhood” em guerra (sendo certo, já agora, que o casting de Fishburne não será nada inocente: muito jovem, ele foi um dos tripulantes do barco que levou Martin Sheen rio acima em Apocalypse Now!). Isso, o carisma dos actores, é a força do filme, aquilo que nele dá real prazer, mas também é a sua limitação, porque Linklater extrai deles todo o calor que pode extrair mas nunca dá o reverso — sabemos sempre, como espectadores, que estamos em companhia sui generis mas que é uma boa companhia e que não nos vai apanhar em falso. Aliás, algo que se constata também no modo como Linklater desbarata, aparando-os, os momentos de maior violência simbólica: o confronto de Carell com o caixão do filho (nada a ver com o veneno de Joe Dante quando, em Homecoming, deu a ver essas imagens, as dos caixões vindos do Iraque, que eram então imagens “proibidas”), ou o encontro dos três amigos com a mãe de um quarto elemento do grupo que morreu à frente deles no Vietname e por cuja morte todos transportam ainda um vago sentimento de culpa. Nem catarse nem revolta, Derradeira Viagem é um filme a lamber feridas, num fatalismo suave que nem tem muito mais a dar do que a sua própria exposição.

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