Crítica

Os mecanismos de sobrevivência

Cynan Jones volta a dissecar os mecanismos de sobrevivência para mostrar a anatomia da dor. Desta vez sem memória, ao contrário do que fez em A Cova.

A prosa de Jones é enérgica e poética, as frases são esculpidas de maneira a que nada soe sem propósito
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A prosa de Jones é enérgica e poética, as frases são esculpidas de maneira a que nada soe sem propósito Bernadine Jones

O galês Cynan Jones (n. 1975) começou por publicar pequenas histórias em revistas, entre as quais a Granta. O cenário de todas elas eram as cidades, em especial Glasgow, na Escócia, onde trabalhou durante algum tempo. Mas quando decidiu escrever o primeiro romance, The Long Dry, o ambiente alterou-se — assim acontece também em A Cova (Cavalo de Ferro, 2016) — e a dureza do mundo rural, as suas pessoas e as tradições, conquistaram um espaço. O cenário das suas histórias passa a ser o do campo da costa oeste do País de Gales, na região de Ceredigion, um mundo rural de chuva e de frio, com o mar sempre por perto e as tempestades que invadem as terras, longe daquele ideal bucólico que os habitantes das cidades cultivam; este é um ambiente que se caracteriza pela crueldade e pela dureza dos elementos naturais.

Neste seu curto romance agora traduzido, A Baía — que em tempo de escrita se seguiu ao premiado A Cova — Jones afasta-se das praias e narra-nos uma aventura no mar: em que a costa galesa ora aparece e desaparece, mas nunca deixa de servir como identidade e possibilidade de salvação. Apesar de bastante diferentes, ambos os livros, de certa forma, se tocam nos seus temas, como adiante se verá.

Em A Cova Cynan Jones disseca com precisão cirúrgica os mecanismos de sobrevivência que decorrem de uma perda dolorosa. Numa linguagem sóbria (que por vezes, no texto original, parece querer fazer lembrar versículos bíblicos), pouco adjectivada, em parágrafos breves, o leitor assiste aos movimentos que levam ao isolamento de um dos dois protagonistas, ao ser desenhado uma espécie de mapa cartográfico que apenas serve para deixar à vista a anatomia da sua dor. O mesmo, quanto à luta pela sobrevivência, acontece em A Baía, mas agora a memória do passado está ausente do protagonista (só aparece de maneira esparsa): “A sua memória era como um baralho de cartas espalhadas.” Se no romance anterior havia uma grande ligação à terra, neste há uma procura de saber a que lugar pertence — mas a terra está lá ao fundo, de vez em quando a levantar-se um ou dois centímetros na linha do horizonte que separa o mar do céu. Não podendo socorrer-se do passado, por falta de memória, ele agarra-se ao futuro, a uma criança ainda por nascer, e que talvez espere por ele na praia na barriga da mulher amada. “O que aconteceu? O que é que aconteceu? A sua consciência era um fio arrancado que a mente estava a tentar ligar novamente.”

O espaço de acção de A Baía reduz-se ao interior de um caiaque: um homem que sai para o mar para pescar e é atingido por um raio. Quando acorda está longe da baía, em alto mar. Está ferido, e equipado com pouco mais do que uma garrafa de água, uma de cerveja preta, anzóis, uma frigideira, e algumas peças de roupa (entre as quais um colete de flutuação). Apenas sabe que está num caiaque no meio do oceano. De certa forma, e aos poucos, deixa de lhe interessar ‘quem é’, e pensa antes no ‘que é’. A dor vai actuando como uma espécie de gatilho no mecanismo de sobrevivência. A memória é um “clarão branco” (como o que viu quando o raio o atingiu), interrompido muito de vez em quando pela voz do pai e por lembranças da amada, da infância, e do quarto da criança por nascer. “Levanta-se vento, ar frio a deslocar-se à frente da trovoada. E, a seguir, um estrondo vindo de baixo. O som de um peso grande a cair no chão. O céu a rasgar-se devagar. Agora uma palavra repetida. Não, não, não. Quando o atinge, há um enorme clarão branco.”

Cynan Jones, como aliás já acontecia no romance anterior, não dá muita informação ao leitor sobre a personagem, e não se trata de querer que o leitor a vá construindo com elementos que estejam ‘escondidos’ ou espalhados a esmo ao longo do texto — é mesmo vontade de que o leitor faça o seu trabalho de imaginação na sua relação íntima com a leitura; que em parte seja o leitor a criar a personagem à sua medida.

A prosa de Jones é enérgica e poética, as frases são esculpidas de maneira a que nada soe sem propósito — os parágrafos raramente ultrapassam as três linhas. Neste seu trabalho de despojamento e de minúcia, o autor recorre a descrições pormenorizadas, o que de certa forma lhe alarga o espaço de acção, por si reduzido, dentro do caiaque. Ao mesmo tempo, a narrativa vai-se expandindo e contraindo como se o fizesse ao ritmo das ondas, deixando os pontos de tensão no lugar certo para que o leitor se agarre.

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