Maus resultados nas competências de leitura no 4.º ano: a culpa é dos currículos ou dos professores?

Média dos alunos portugueses do 4.º ano do ensino básico desceu 13 pontos na avaliação internacional de literacia em leitura. Desempenho das raparigas caiu 19 pontos. Ministério, especialistas, professores avançam possíveis explicações.

Os testes PIRLS realizam-se de cinco em cinco anos
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Os testes PIRLS realizam-se de cinco em cinco anos rui farinha

Há muitas causas “conjugadas que dão origem à doença”, sintetiza a investigadora da Universidade do Minho, Fernanda Viana, a propósito da descida de 13 pontos na média dos alunos portugueses do 4.º ano de escolaridade na avaliação internacional da literacia em leitura realizada pelo PIRLS — Progress in International Reading Literacy Study. Os resultados foram conhecidos nesta terça-feira. Em 50 países, Portugal apresenta a segunda maior quebra.

Mas, no entender de Fernanda Viana, é na formação de docentes que está uma das principais falhas. A promoção da leitura é uma das áreas de trabalho desta investigadora. Que lembra que entre 2006 e 2010 foi posto em prática um Plano Nacional para o Ensino de Português do 1.º ciclo, que foi abandonado de repente, apesar de “todos os docentes abrangidos dizerem que esta foi a formação de que precisavam”.

“Esse tipo de formação terminou porque não estava a ter resultados? Que avaliação foi feita?”, questiona também o professor do 1.º ciclo, Rui Candeias, a propósito dos resultados do PIRLS. Fernanda Viana adianta que “a maior parte dos alunos que escolhem ser professores do 1.º ciclo são muitas vezes os primeiros da família a chegar ao ensino superior, apresentando também lacunas no domínio da leitura”. Para além de que este é um tipo de formação que as universidades e politécnicos não privilegiam.

Das medidas enumeradas nesta terça-feira pelo Ministério da Educação para fazer face às dificuldades mostradas pelos alunos fazem parte 400 acções de formação em 2018, que abrangerão cerca de oito mil docentes.

Entre os 50 estados testados na edição de 2016, Portugal ocupa o 30.º lugar. Em 2011, primeiro ano em que o país participou no PIRLS, tinha conseguido ficar na 19.ª posição. Na edição de 2016 participaram nesta avaliação feita pela agência independente International Association for the Evaluation of Educational Achievement (IEA, na sigla em inglês), 319 mil alunos e 11 mil escolas. A amostra portuguesa foi constituída por 4642 alunos e 218 escolas.

Para além da descida da média geral do país (de 541 pontos para 528, numa escala que vai até 700), subsiste esta incógnita: o que aconteceu às raparigas portuguesas que realizaram os testes PIRLS para os seus resultados descerem 19 pontos por comparação a 2011 (a média dos rapazes baixou sete pontos)? O secretário de Estado da Educação, João Costa, admitiu não ter explicações. E o mesmo se passa com especialistas e professores ouvidos pelo PÚBLICO. Apenas Dulce Gonçalves, especialista em dificuldades de aprendizagem, adianta que “cada vez mais as diferenças entre os géneros são menores” e que a nível académico, nas raparigas, “tal como já acontecia com os rapazes, o trabalho de atenção é cada vez mais substituído por outros estímulos”.

Instabilidade emocional

Estes resultados estão em contracorrente com os obtidos nos estudos realizados em 2015. Nesse ano, os portugueses foram os que mais progrediram tanto no que respeita à literacia em matemática, avaliada também no 4.º ano pelo estudo Trends in International Mathematics and Science Study, como na literacia em leitura, matemática e ciência no âmbito do Programme for International Student Assessment, da OCDE, que avalia alunos mais velhos (de 15 anos).

“Estamos a falar de alunos que entraram no 1.º ano de escolaridade em 2012/2013 e que fizeram todo o 1.º ciclo em anos em que ocorreram muitas mudanças”, lembra Fernanda Viana a respeito das crianças testadas pelo PIRLS. Foi, por exemplo, o primeiro grupo a ser abrangido pelas metas curriculares aprovadas pelo ex-ministro Nuno Crato e também pelo fim dos exames nacionais do 4.º ano, aprovado pelo Parlamento no final de 2015.

A investigadora não nomeia estas mudanças, mas diz que “não é verdade a crença de que dominando a técnica da leitura a compreensão vem por acréscimo”. Um dos descritores das metas para o 4.º ano é o de que os alunos têm de saber ler correctamente no mínimo 95 palavras por minuto.

“O excesso de peso do mecanismo de leitura não quer dizer que se compreenda. Ou seja, o aluno pode ler depressa mas isso não significa que a compreensão do texto esteja associada”, corrobora a dirigente da Associação de Professores de Português, Filomena Viegas. Que considera também que o facto de os alunos terem sido restringidos “a leituras impostas” centralmente pode ter “reduzido o prazer de ler” — isto, apesar de portugueses que participaram no PIRLS estarem em primeiro lugar na proporção dos que dizem gostar muito de ler: 72%.

Fernanda Viana aponta ainda para o factor crise como uma das causas para a mudança nos desempenhos. Uma prova: a Universidade do Minho promoveu um programa de fluência em leitura, em que uma das componentes passavam pelas crianças lerem para os pais. Muitas só o puderam fazer via Skype porque os pais tinham emigrado. “Tudo isto provoca instabilidade emocional e esta prejudica as aprendizagens.”

Rui Candeias lembra que houve também, a partir de 2013, um aumento do número de alunos por turma que no 1.º ciclo passou de 24 para 26 estudantes. “No 1.º ciclo os alunos são ainda muito pouco autónomos”, constata. “Que consequências poderá ter tido este aumento, nomeadamente no desenvolvimento das competências associadas à leitura?”

Para o secretário de Estado João Costa, o diagnóstico está feito: a descida dos resultados no PIRLS deve-se “às medidas tomadas entre 2012 e 2015” pelo então ministro Nuno Crato.

Este responde dizendo que os resultados têm de ser estudados “com atenção”, mas acrescentando que “provas realizadas num ambiente de facilitismo, em que as avaliações não servem para nada, em que se propaga que as metas devem ser menos ambiciosas e que o ensino não deve ir tão longe não têm dado bons resultados”.