O western de Soderbergh na terra sem deus

Godless, uma minissérie passada no Velho Oeste, está no Netflix. Tem Jeff Daniels, Jack O'Connell e Michelle Dockery.

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Michelle Dockery em Godless Netflix

Em 2013, Steven Soderbergh assinou aquele que, dizia, iria ser o seu último filme feito para ser visto num cinema, Efeitos Secundários. Este ano, voltou para realizar Sorte à Logan, o que invalidou o que tinha dito anteriormente. Mas, nos quatro anos que se passaram entretanto, Soderbergh virou-se para a televisão, assumindo a produção executiva e a realização em séries como The Knick ou Red Oaks, bem como a expansão da sua longa-metragem The Girlfriend Experience (Confissões de uma Namorada de Serviço).

É no papel de produtor executivo que o realizador estreou recentemente Godless, uma minissérie em modo western inteligente à antiga. A série remete para os filmes de média dimensão que os estúdios de Hollywood raramente fazem nos dias que correm. Faz sentido: a ideia começou a ser desenvolvida há 17 anos, como um filme que nunca chegou a ser feito.

A série de sete episódios, todos de mais de uma hora, está disponível no Netflix desde meados de Novembro. Tem produção executiva de Soderbergh, mas o realizador não esteve envolvido nas rodagens – tem estado ocupado com outros projectos, como Mosaic, a aplicação/série da HBO que tem estreia marcada para Janeiro no TVSéries. Foi escrita e realizada por Scott Frank, que assinou o guião de Relatório Minoritário, de Steven Spielberg e escreveu Romance Arriscado para Soderbergh, uma adaptação de Elmore Leonard – tinha sido responsável, anos antes, por Jogos Quase Perigosos, baseado num livro do mesmo Leonard. Soderbergh funcionou como um conselheiro, espreitando diariamente o resultado das rodagens diariamente e opinando sobre eles, e depois envolvendo-se fortemente no processo de edição, com a expansão dos seis episódios planeados originalmente para os sete que acabou por ter (e já tinha sido ele a aconselhar Frank a transformar o guião numa série).

O resultado são mais de sete horas cheias de sangue – algo que já não faltava a The Knick, passada num hospital nova-iorquino no início do século XX – centradas numa cidade mineira do Novo México em que a maioria dos homens morreu num acidente, deixando as mulheres ao comando de tudo. É por essa cidade que passa a querela entre Frank Griffin, um bandido interpretado por um barbudo Jeff Daniels que é um vilão magnético e completamente fora do comum, e o seu ex-protegido, Roy Goode, o britânico Jack O’Connell, uma das várias pessoas do elenco a fazer, mesmo que não fale muito ao início, o seu melhor sotaque americano (Michelle Dockery, de Downton Abbey, no papel de uma mulher que o alberga e o alvejou na garganta, bate-o aos pontos nesse departamento).

A cidade das mulheres não é ao acaso. Quando começou a pesquisar sobre a época e a ver todos os westerns que conseguiu encontrar, Frank leu sobre várias mulheres que estavam pouco representadas nos filmes e nas histórias contadas sobre esses tempos. Godless dá espaço a mulheres e a pessoas não-brancas de uma forma que é pouco comum no mundo dos westerns. Isso acontece apesar de a série continuar muito centrada em homens. Além disso, Frank disse à revista Rolling Stone que não quer ser visto como um porta-voz do feminismo, sendo ele um homem "com todas as falhas" que isso comporta.

O elenco inclui ainda Merritt Wever, de Nurse Jackie e The Walking Dead, como a viúva do presidente da câmara da cidade que começou a usar as roupas do defunto marido e tem uma relação com uma prostituta, Scoot McNairy, de Halt and Catch Fire, que faz do xerife, Sam Waterston, de Lei & Ordem, como um U.S. Marshal à procura de Griffin, ou Thomas Brodie-Sangster, de A Guerra dos Tronos, como assistente do xerife.

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