A Ibéria e a América Latina: que temos todos em comum?

Existe uma identidade ibero-americana, quando a história fundamental é uma história de oposições, de colonizadores e colonizadores, de opressores e oprimidos? Talvez seja a grande pergunta do ciclo No Escurinho do Cinema – Mostra de Cinemas Ibero-Americanos, que decorre no São Jorge, em Lisboa.

<i>La Obra del Siglo</i>, de Carlos Machado Quintela, singular abordagem da presença soviética em Cuba
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La Obra del Siglo, de Carlos Machado Quintela, singular abordagem da presença soviética em Cuba

No Escurinho do Cinema – Mostra de Cinemas Ibero-Americanos é um ciclo que ocupa o cinema São Jorge durante as duas primeiras semanas de Dezembro (com início na passada segunda-feira, dia 4, e prolongando-se até dia 16) e que, através de um programa bastante extenso, com cerca de quatro dezenas de títulos, faz uma “radiografia” do cinema produzido entre a Ibéria e a América Latina nos últimos três anos. Mas o destaque, pelo menos em termos quantitativos, vai mesmo para o cinema do continente americano, percorrido de leste a oeste e de norte a sul, do México e da América Central ao Chile e à Argentina (e neste caso, mesmo até à ponta sul, porque um dos filmes Argentinos programados, El Invierno, de Emiliano Torres dia 12 às 21h30 , passa-se num rancho da Patagónia).

Em relação a um programa tão extenso optamos, em conversa com um dos programadores do ciclo, Carlos Nogueira, por tentar encontrar alguns fios condutores, algumas “constelações” temáticas ou identitárias, por onde navegar, na certeza de que a homogenia é ilusória e que o cinema latino-americano pode ser apresentado em bloco mas não constitui, em si mesmo, um monólito – como nos diz Carlos Nogueira, foi exactamente por isso “que o título do ciclo passou do singular ao plural, ‘Cinemas Ibero-Americanos’ em vez de ‘Cinema Ibero-Americano’”.

Há, por exemplo, uma diferença que se intui a olho nu entre os filmes dos países do sul, Argentina, Chile, Uruguai, e os filmes dos países do norte do continente. Os filmes incluídos no ciclo (o como o uruguaio El Candidato, de Daniel Hendler, dia 13 às 21h30, ou o argentino Toublanc, de Ivan Fund, dia 8 às 17h) não desmentem, no eixo Santiago/Buenos Aires/Montevideo, a predominância de um ponto de vista “cerebral” sobre classes médias sólidas e “europeizadas”, e um universo marcado, em maior ou menor grau, pela tradição literária. Carlos Nogueira refere que o mergulho feito nestas cinematografias para a selecção do programa lhe permitiu intuir ou confirmar a existência de dois grandes pólos. Um, de facto, a sul, que ele associa mais a Argentina e Uruguai (“os chilenos não se afastam muito, mas estão num anel exterior”), muito marcados pelas tradições literárias e universitárias (como sabemos, bastante fortes naquelas paragens), que “provocam ondas” e “deixam um rasto” que ainda não deixou de ser percorrido. Outro pólo, no topo norte, tem um sustentáculo mais industrial e mais económico: o México.

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O intrigante Minotauro, de Nicolás Pereda, filme que procura uma abstracção “buñueliana”, e o salvadorenho Los Ofendidos, de Marcela Zamora, feito a partir das memórias do pai, preso político durante a ditadura
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Carlos Nogueira diz ter a convicção de que o cinema mexicano (que tem uma história riquíssima desde a época clássica e dispôs sempre de um verdadeiro regime industrial) “pode ter mudado muito ao longo dos anos, mas nunca morreu”. Refere as várias vagas que o têm renovado (“a vaga Reygadas/Escalante a partir dos anos 2000, antes disso, durante os anos 1990, a geração que agora está na maior parte em Hollywood, os Iñarritus e os Cuaróns”), refere a diversidade interna e os vários centros de produção geograficamente dispersos pelo país, para concluir com a ideia de que se trata de um cinema economicamente pujante e com uma grande influência regional: “o México está para a América central como a França para a Europa, é um grande co-produtor, essencial para os pequenos países da zona” (e um bom exemplo é um dos filmes supreendentes do programa, o salvadorenho Los Ofendidos, de Marcela Zamora, feito em co-produção com o México”).

Histórias de violência

O que nos leva também às grandes histórias de violência que percorrem boa parte da América do Sul e Central das últimas décadas. Falamos um pouco dos dois filmes venezuelanos do programa, La Familia, de Gustavo Rondón Córdova, e La Soledad, de Jorge Thielen Armand, que respondem de maneira diferente à violência social do meio ambiente em que se inserem. No primeiro caso temos uma história de miúdos da rua, “olvidados” da Caracas contemporânea, no segundo um olhar mais melancólico sobre uma história de família e de propriedades familiares, num registo entre o documentário e a ficção autobiográfica. “Penso”, diz Carlos, “que o tom de La Soledad é possível porque o realizador, Thielen Armand, vive fora da Venezuela, e pode ter um olhar mais distanciado, mais pacífico, isolar dentro daquele caos uma história pessoal e familiar; ao passo que La Família é o oposto, um filme mergulhado na violência social, fundado na ideia de que essa violência invade tudo, inclusive o tecido familiar”.

Podemos estabelecer, a propósito de sociedades super-violentas, um par semelhante para o caso mexicano, a partir de Tempestad, de Tatiana Huezo (dia 9 às 19h), que evoca os muitos tipos de tráfico que marcam a sociedade mexicana e a cultura de violência que acarretam, e o intrigante Minotauro (dia 14 às 19h), de Nicolás Pereda, um filme que procura uma abstracção quase “buñueliana”, através de um grupo de personagens dados à catalepsia e aos acessos de sono prolongado. “Mas lá está”, diz Carlos, “o Pereda também não vive no México… em todo o caso o que o filme dele nos mostra é uma outra resposta à violência: a sua recusa completa, a queda na maior passividade possível, o sono e o adormecimento”.

Independentemente da “paz social” ao longo do continente, uma coisa que é comum à generalidade dos países latino-americanos é a violência histórica, os períodos continuados ou pontuais de grande violência política e totalitarismo, seja qual for o seu sinal – “a única excepção será o México”, diz Carlos, “mas em vez de uma ditadura há a memória de uma guerra traumática”. Estes passados conturbados são um objecto temático recorrente nos cinemas dos países sul-americanos, como bem conhecemos das cinematografias argentinas e chilenas, cujos exemplos de maior circulação (como a generalidade dos filmes do chileno Pablo Larraín) lidam, por norma, com a questão da memória histórica da ditadura e de um passado não resolvido. Um dos filmes chilenos no programa, El Pacto de Adriana, de Lissette Orozco (dia 16 às 15h), vai ao fulcro dos traumas da época de Pinochet, a partir de uma perspectiva pouco usual: não a das vítimas, mas a dos opressores. È um documentário pessoal, fundado no espanto da realizadora perante o conhecimento de que a sua tia Adriana, pessoa encantadora que ela em criança adorava, tinha sido uma torcionária ao serviço da polícia política de Pinochet. “É um caso que talvez só seja possível pelo muito trabalho que nos últimos anos o cinema chileno tem feito em prol de uma catarse da ditadura”, refere Carlos, como se tivesse chegado “o momento de passar os olhos das vítimas para os culpados”.

Algo que, obviamente, ainda não é o caso num pequeno país como El Salvador, de produção cinematográfica diminuta. Mas é o que faz Marcela Zamora em Los Ofendidos (dia 8, às 15h), a partir das memórias directas do pai, que foi preso político durante a ditadura, encarcerado e torturado sem acusações concretas. É um filme onde a memória ainda aparece incandescente e perplexa, e o confronto com ela (e com os seus lugares cruciais, como as prisões), lembra os gestos de Rithy Panh, no Camboja, com a violência do tempo dos Khmeres Vermelhos. Ou ainda o caso de La Obra del Siglo, de Carlos Machado Quintela (dia 11 às 21h30), uma singular abordagem da presença soviética em Cuba, ambientado numa povoação que foi nos anos 60 e 70  o centro de um projecto de instalações nucleares da URSS, e que se serve, para além da narrativa “em directo”, de uma grande quantidade de imagens de arquivo.

Verão Saturno, de Mónica Lima, e La Reconquista (dia 9 às 21h30), de Jonás Trueba (a que se pode acrescentar Joaquim, de Marcelo Gomes, dia 10 às 21h30, que é uma co-produção luso-brasileira), representam a Ibéria. Que há de comum entre a  Península Ibérica e a América latina, um conjunto de países definido em grande parte contra o domínio dos países ibéricos. “Essa é uma questão”, diz Carlos, “saber se existe uma identidade ibero-americana quando a história fundamental é uma história de oposições, de colonizadores e colonizadores, de opressores e oprimidos”. Talvez a grande pergunta feita pelo ciclo e pelo conjunto dos filmes programados. O melhor cinema não dá respostas, interroga.

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