Crítica

Perturbar a desordem

O trabalho de Jorge Pinheiro implica uma reorganização dos conceitos estabilizados que usamos para pensar e experimentar as obras de arte.

A arte, à semelhança da realidade que se nos impõe, é imprevisível e a sua aparente ordem é só uma forma de perturbar a desordem
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A arte, à semelhança da realidade que se nos impõe, é imprevisível e a sua aparente ordem é só uma forma de perturbar a desordem nelson garrido

Jorge Pinheiro (n. Coimbra, 1931) é um artista notável e é-o na medida em que o conjunto dos seus trabalhos implica uma reorganização das categorias e conceitos, aparentemente estabilizados, que usamos para pensar e experimentar as obras de arte. Esta afirmação não é uma simples adjectivação, mas fundamenta-se em evidências generosamente presentes nas suas obras. E essas evidências são constituídas pelo modo como nos desenhos, pinturas e esculturas as relações entre linha, mancha, figura, narrativa, simbolismo e abstracção conhecem modalidades inteiramente novas. E é este lugar que a exposição no Museu Serralves no Porto (como, já encerrada, a da Fundação Carmona e Costa em Lisboa) permite reconhecer e experimentar.

Podemos considerar que Pinheiro é um pintor, na medida em que a sua aprendizagem começa com a pintura — estudou pintura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto onde foi durante anos professor —, mas essa apresentação é insuficiente porque os seus trabalhos — todos — não radicam numa questão disciplinar — ainda que, de certo ponto de vista, tudo possa ser pintura —, mas são formas de introduzir uma certa ordem — visual, formal, cromática — na visualidade do mundo.

Por um lado, trata-se de uma obra em que a atenção às relações entre abstracção e figuração são essenciais e estruturantes. Numa conversa com Pedro Cabrita Reis publicada no catálogo das exposições o artista afirma: “A maneira como na pintura figurativa me vou aproximando do quadro, com uma quantidade enorme de desenhos e estudos prévios, num processo que, como sabemos, vem desde o Renascimento, aí, nessa fase, estou a trabalhar conscientemente com o mesmo raciocínio com que estou a trabalhar nas coisas abstractas. (p.132)

Por outro lado, aquela tensão não esgota as questões das suas coisas porque está em causa a expressão a uma atenção ao mundo, aos seus haveres e factos. E esta modalidade da atenção torna as obras de Jorge Pinheiro lugares especiais de articulação entre arte, sociedade e política. Se a questão da tensão entre abstracção e figuração se expressa de forma imediata nos desenhos, esculturas e pinturas mais geométricos, a articulação arte, sociedade, política é menos evidente e tem em trabalhos como as pintura Ao Povo Alentejano (1980) ou O guarda, o pão e o camponês (1981) a sua melhor expressão. Obras nas quais se percebe o modo como as relações entre os diferentes elementos da pintura não resultam de nenhum tipo de casualidade, mas são testados, preparados e muitas vezes ensaiados.

Trata-se de uma metodologia e prática artística que torna totalmente irrelevante e impertinente a distinção — tão usada em muitas das aproximações à arte – entre figura e abstracção, vida e geometria. Porque o que se torna manifesto é que a geometria não é a imposição de uma estrutura exterior e estranha aos elementos que compõem o visível do mundo, mas é a condição de possibilidade da visualidade do mundo: e, por isso, a geometria é-nos dada, de forma imediata, na acção quotidiana de ver e habitar o mundo. E é esta geometria terrestre e mundana que alimenta a pulsão geometrizante de bastantes obras deste artista.

No caso de Jorge Pinheiro as múltiplas transições e transformações – de escala, de tom, de traço, de materialidade —  a que submete o seu trabalho artístico são também formas de indisciplina. Uma indisciplina necessária porque, como afirma o artista naquela mesma conversa, nós não somos criadores. O homem não tem capacidade, em termos absolutos, de criar. Tem apenas capacidade de juntar coisas com coisas, para obter um resultado quantas vezes imprevisto.

Uma imprevisibilidade motivada e provocada pelo modo como este artista entende a sua prática artística como recolha e o que ele recolhe — e como tão bem é denunciado por uma parte do título da exposição em Serralves — são as coisas lá fora. Este lá fora é, sobretudo, o fora da arte e das suas relações disciplinarmente construídas e estabilizadas tornando a acção artística numa modalidade do conhecimento e experimentação do mundo. Por isso, a arte, à semelhança da realidade que quotidianamente se nos impõe, é imprevisível e a sua aparente ordem é só uma forma, como tão bem Jorge Pinheiro sugere, de perturbar a desordem naturalmente existente em todas as coisas através da criação de uma aparente ordem artística.

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