O tigre-de-samatra está cada vez mais ameaçado e a culpa (mais uma vez) é nossa

Durante um ano, uma equipa de cientistas esteve nas florestas remotas e tropicais da ilha de Samatra para contar os tigres que só vivem ali. Restam na natureza menos de mil tigres-de-samatra e os habitats para eles são cada vez menos.

Um tigre-de-samatra macho no Parque Nacional de Bukit Barisan Selatan
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Um tigre-de-samatra macho no Parque Nacional de Bukit Barisan Selatan Matthew Scott Luskin

Chegam-nos más notícias dos lados da Indonésia, mais propriamente da ilha de Samatra: entre 2000 e 2012, o número de tigres endémicos dessa ilha desceu de 1090 para 908 (nas estimativas mais favoráveis), tendo assim ocorrido uma redução de 16,7%. Os tigres-de-samatra estão, por isso, cada vez mais ameaçados de extinção e a principal razão é a desflorestação, concluiu um estudo publicado esta terça-feira na revista científica Nature Communications. Além disso, percebeu-se que só existem dois habitats suficientemente grandes na ilha para garantir a sustentabilidade da reprodução da subespécie mais pequena de tigres do mundo.

A história dos tigres tem sido assombrada ao longo do tempo. “Globalmente, a população teve uma descida de cerca de 95% desde 1900 e os tigres ocupam menos de 7% da sua área de distribuição histórica, espalhando-se precariamente em pequenas áreas fragmentadas”, lê-se no artigo científico. Alerta-se ainda que as subespécies de tigres endémicos da ilha de Java e Bali se extinguiram no século XX. Agora, as atenções viram-se para a ilha vizinha de Samatra.

É lá que vive o tigre-de-samatra (de seu nome científico Panthera tigris sumatrae). Tem uma pelagem ocre-alaranjada, com riscas compridas e finas, e pode alcançar os 81 centímetros de altura. E, enquanto a fêmea pode pesar até 110 quilos, o macho pode chegar aos 140 quilos. Gosta de carne, é uma subespécie territorial e solitária, embora pares de macho e fêmea se possam juntar para além da reprodução. Esta subespécie pode ainda acasalar em qualquer altura do ano. “Gosta muito de água e é uma excelente nadadora”, refere o site do Jardim Zoológico de Lisboa. “Durante os dias mais quentes da época seca, passa longos períodos dentro de água.” Afinal, vive em florestas tropicais húmidas.

Contudo, a sua vida não é um paraíso. Actualmente, esta subespécie está classificada como “criticamente em perigo”, pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A principal ameaça tem sido a perda do habitat devido à expansão da produção de óleo de palma ou a caça para comércio ilegal. Mas quantos tigres-de-samatra existem mesmo?

Esta foi a pergunta que cientistas dos Estados Unidos, Singapura e Indonésia fizeram. Então, em 2014, passaram um ano a percorrer as florestas remotas e tropicais de Samatra. Lá montaram centenas de câmaras para tirarem fotografias e filmarem estes tigres. Depois, identificaram cada um deles através do seu padrão único de riscas. No final, juntaram esta informação a outras estimativas mais antigas e já publicadas e calcularam o número de tigres nas duas décadas anteriores.

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Tigre-de-samatra no Parque Nacional de Gunung Leuser Matthew Scott Luskin

Verificou-se assim que houve um decréscimo de 16,7% no número de tigres entre 2000 e 2012 ao longo de Samatra. “A nossa estimativa para toda a ilha é que existem entre 328 e 908 tigres, o que é ligeiramente maior do que a estimativa de 441 a 679 tigres relatada pela IUCN [em 2015]”, refere o artigo.

As principais causas apontadas são as plantações para óleo de palma que têm levado a uma crescente desflorestação. Os próprios cientistas descrevem este cenário, que percorreram, no artigo: “Todos os sítios estão rodeados por uma mistura de plantações pequenas e industriais para óleo de palma, borracha, arroz, café e cacau, em ordem decrescente de importância.”

Nem tudo é mau

No estudo, conclui-se ainda que a densidade de tigres é cerca de 47% mais alta nas florestas primárias (que ainda não sofreram perturbações significativas) do que nas florestas degradadas. E, entre 1990 e 2010, Samatra perdeu 37% da sua floresta primária. “Como resultado, as subpopulações de tigres também se têm tornado significativamente mais fragmentadas, aumentando muito o seu perigo de extinção como espécie em cada floresta”, lê-se num comunicado da Universidade da Califórnia, EUA. Os cientistas perceberam ainda que há só dois habitats suficientemente grandes para acolher mais de 30 fêmeas em idade fértil, que é um indicador para a sustentabilidade das populações a longo prazo.

Mas nem tudo é mau e, nas florestas protegidas, o número de tigres cresceu cerca de 4,9% por ano desde 1996. Questionado sobre o número exacto de tigres que aumentaram nesse período, Matthew Luskin, da Universidade da Califórnia e coordenador do estudo, respondeu ao PÚBLICO: “Não há um número exacto de propósito, porque isso poderia mascarar a incerteza. Por agora, estimámos as alterações quanto ao perigo de extinção baseadas na perda de habitat.” Por isso, os cálculos que fizeram alertam-nos apenas para o risco de extinção da subespécie.

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Parque Nacional de Kerinci Seblat, na ilha de Samatra Matthew Scott Luskin
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O investigador Matthew Luskin no Parque Nacional de Kerinci Seblat DR

“A perda do habitat-chave está a causar desafios de conservação significativos para Samatra – e, em particular, para as espécies criticamente em perigo”, afirma Matthew Luskin, citado no comunicado, acrescentando que o tigre-de-samatra está assim “um passo mais perto da extinção”. “Proteger o que resta das florestas primárias é agora absolutamente crucial para garantir que os tigres possam persistir indefinidamente em Samatra”, afirma Mathias Tobler, da organização Zoo Global de São Diego (EUA) e também autor do trabalho. “Se quisermos salvar os tigres-de-samatra na natureza, o momento para actuar é agora.”

E, caso queiramos ver este tigre em Portugal, podemos visitar os seus aposentos no Jardim Zoológico de Lisboa. É num espaço chamado Vale dos Tigres que encontramos uma família de tigres-de-samatra. É constituída por Pendekar, o pai, que nasceu em 2005 e veio de Inglaterra, e por Sigli, a mãe, que nasceu em 2002 e chegou da Holanda. “Ambos se adaptaram bem e o casal já teve várias crias”, indica o Jardim Zoológico no seu site. Agora, Sigli vive com uma cria, também fêmea, e que ainda não tem nome. Estes são os representantes no país desta subespécie cada vez mais em perigo.  

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