Novo caçador de planetas extra-solares recebeu a sua primeira luz

Construção de instrumento astronómico tem a participação de investigadores portugueses.

A primeira luz captada pelo novo instrumento que procura planetas noutros sistemas solares
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A primeira luz captada pelo novo instrumento que procura planetas noutros sistemas solares ESO/Equipa do Espresso

O instrumento Espresso, concebido para procurar planetas parecidos com a Terra, capazes de suportar vida, fez a sua primeira observação astronómica no final de Novembro, informou esta quarta-feira o Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), que participou na sua construção.

Depois dessa primeira observação – designada em astronomia como “primeira luz” –, o instrumento iniciou uma série de testes, ainda em curso, através dos quais tem demonstrado “resultados muito promissores, apesar de ainda haver alguns ajustes a fazer”, disse à agência Lusa Nuno Cardoso Santos, investigador do IA e da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

A “primeira luz” do Espresso – que está instalado num conjunto de quatro telescópios que podem funcionar como um só, o Very Large Telescope (VLT), no Chile, que pertence ao Observatório Europeu do Sul (ESO), organização de astronomia à qual Portugal pertence – ocorreu na noite de 27 para 28 de Novembro, perto da meia-noite, tendo iniciado de seguida os testes.

Esta fase de testes termina na próxima quinta-feira, estando planeados mais quatro períodos, de aproximadamente dez dias cada um, em finais de Janeiro, finais de Fevereiro, e, provavelmente, em Maio, avançou o investigador.

O consórcio responsável pelo desenvolvimento e construção do Espresso (acrónimo inglês de Espectrógrafo Echelle para Observações de Planetas Rochosos e Espectroscopia de Alta Estabilidade) é constituído por instituições académicas e científicas de Portugal, Itália, Suíça e Espanha, bem como membros do ESO.

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A equipa do instrumento Espresso junto ao telescópio VLT, no Monte Paranal, Chile Giorgio Calderone/INAF Trieste

A equipa portuguesa, liderada pelo IA, é responsável pela construção de uma das componentes do Espresso, um sistema chamado coudé train, composto por nove elementos ópticos, que levam a luz desde o telescópio até ao espectrógrafo, “com o mínimo de aberração ou de perdas”, ao longo de um trajecto com cerca de 60 metros, acrescenta o IA em comunicado.

Para Alexandre Cabral, investigador do IA e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, este momento é o culminar de quase dez anos de planeamento, desenho, construção e teste de um instrumento, para o qual Portugal contribui com uma parte fundamental – o sistema óptico coudé train. O sistema óptico coudé train vai permitir ao espectrógrafo observar com os quatro telescópios ao mesmo tempo, “algo nunca antes realizado”, o que é equivalente a ter um telescópio óptico com uma abertura de 16 metros de diâmetro, ou seja, “o maior do mundo”, salientou. Da equipa portuguesa fizeram parte as Universidades do Porto e de Lisboa e as empresas portuguesas Ernesto São Simão, Tecnogial, Zeugma, Tecnisata e HPS.

Instrumento capaz de decompor a luz nas suas várias cores, ou comprimentos de onda, originando um espectro, considerado o “arco-íris da estrela”, o espectrógrafo Espresso irá então captar o espectro da luz das estrelas para descobrir planetas rochosos. Tem por objectivo procurar e detectar planetas parecidos com a Terra, capazes de suportar vida, assim como testar a estabilidade das constantes fundamentais do Universo, indicou ainda o investigador.

Para tal, utiliza o método das velocidades radiais, que detecta exoplanetas (planetas noutros sistemas solares), medindo pequenas variações na velocidade (radial) da estrela, causadas pelo movimento que a órbita desses planetas imprime na estrela. Através deste método, o Espresso é capaz de detectar variações nessas velocidades de cerca de 0,3 quilómetros por hora, ou seja, a velocidade de uma tartaruga a andar.

“Começa agora uma nova fase, em que vamos testar em detalhe o instrumento e optimizá-lo, para que, em meados de 2018, seja possível começar a fase de exploração científica”, afirmou Nuno Santos.

Segundo este investigador, as mais de 270 noites que foram atribuídas à equipa para usar o Espresso no VLT vão permitir liderar “um grande número de novas descobertas” nas áreas científicas em que o consórcio está mais envolvido, com um foco muito especial no estudo de outros planetas e da variabilidade das constantes fundamentais da física.

O Espresso é o sucessor de um dos “mais bem-sucedidos instrumentos caçadores de planetas até hoje”, o HARPS (um espectrógrafo de alta resolução), que detecta variações de velocidade da estrela a rondar os 3,5 quilómetros por hora, o que é aproximadamente a velocidade de uma pessoa a caminhar, refere ainda a nota informativa.

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