Trump arrisca incendiar o Médio Oriente com mudança de embaixada para Jerusalém

Observadores questionam-se se há um plano de paz atrás da intenção de Trump, ou se o Presidente dos EUA quer apenas ir mais longe do que todos os seus antecessores.

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Polícia israelita impede mulheres palestinianas de entrarem no Nobre Santuário AMMAR AWAD /REUTERS
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Donald Trump ainda não fez um anúncio sobre a embaixada norte-americana em Israel JIM LO SCALZO/EPA
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Abbas anunciou que Trump lhe disse que iria mudar a embaixada para Jerusalém ATEF SAFADI/Epa

É difícil exagerar na importância de Jerusalém no conflito israelo-palestiniano, e na importância da cidade para os muçulmanos. O coro de avisos a Donald Trump para não tomar decisões com implicações no estatuto da cidade vieram de vários países, da Jordânia à Turquia, e em crescendo. Ontem, Ancara avisou que cortaria relações com Israel caso o Presidente americano decidisse mesmo mudar a embaixada de Telavive, onde estão todas as outras representações internacionais, para Jerusalém. É “uma linha vermelha para os muçulmanos”, disse o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

A notícia de que Trump tinha informado já o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, e o rei da Jordânia, Abdullah II, dos seus planos de mover a embaixada caiu com estrondo. O negociador palestiniano, Nabil Shaath, resumiu assim: “Toda a gente enviou a mensagem de que isto destruiria qualquer hipótese de paz”. Depois, deixou outro aviso: “Não queremos violência, mas não podemos impedi-la.”

A preocupação estendeu-se à Europa: a chefe da diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini, disse que a mudança impediria uma solução de dois Estados; o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o chefe da diplomacia alemão, Sigmar Gabriel, sublinharam que o estatuto de Jerusalém tem de ser decidido em negociações.

Apreensão até no Departamento de Estado

E até dentro da Administração americana houve apreensão. Em declarações sob anonimato à agência Reuters, responsáveis do Departamento de Estado manifestaram-se preocupados com as consequências desta decisão para a segurança norte-americana.

Trump fez da mudança da embaixada uma promessa eleitoral. Não é nada de extraordinário na política americana; outros candidatos fizeram antes a mesma promessa, mas sem nunca a cumprir. Mas este Presidente parece querer arriscar uma jogada que terá consequências imprevisíveis. “A última tentação de Trump: incendiar o statu quo na Terra Santa”, titulava o diário espanhol El País.

O Presidente começou por deixar passar, na segunda-feira, o prazo para assinar um documento que mantém a embaixada em Telavive (necessário porque o Congresso aprovou, em 1995, a recolocação da embaixada em Jerusalém, mas deixou à presidência margem de manobra para a suspender por razões de segurança, tendo para isso de assinar um documento de seis em seis meses). Mas era tão difícil de acreditar que realmente iria levar em frente a intenção que a imprensa especulava que assinaria o documento dias mais tarde.

Esta ideia desvaneceu-se quando surgia a notícia de que Trump informou Abbas e Abdullah da sua intenção de mudar mesmo a embaixada norte-americana para Jerusalém – seria a primeira embaixada na cidade (há décadas outros países tiveram embaixadas em Jerusalém, quando se esperava que com alguma brevidade houvesse um Estado palestiniano com a capital ao lado; todas foram saindo).

A política estabelecida dos EUA – que é também, aliás, um consenso internacional na questão israelo-palestinana com sete décadas, nota o diário israelita Ha’aretz – em relação à cidade é de que a questão seria decidida entre israelitas e palestinianos em negociações, já que Jerusalém Oriental, que Israel conquistou e anexou na guerra de 1967, é onde os palestinianos querem ter a sua capital. Uma mudança da embaixada para lá implica que os EUA aceitam a pretensão israelita de que Jerusalém é a sua capital.

Porquê agora?

Há vários pontos de interrogação neste processo. Por que é que Trump, que assinou o documento para adiar a mudança da embaixada há seis meses, escolheu não o fazer justamente agora?

Analistas dizem que uma acção em relação a Jerusalém poderia vir acompanhada de uma tentativa de relançar o processo de paz, sobretudo se tivesse como objectivo conseguir uma concessão da parte do Governo de Benjamin Netanyahu, exemplifica o antigo negociador norte-americano Aaron David Miller, num artigo no site da CNN.

Mas não há sinais de que essa estratégia exista de facto, nem da parte de diplomatas na região, nem da do enviado da Casa Branca para a questão, o conselheiro e genro de Trump, Jared Kushner. Ainda no fim-de-semana, Kushner esteve num acto público e não deu quaisquer respostas concretas sobre as perspectivas de relançamento do processo de paz.

Para Aaron David Miller, “o problema é não sabermos qual é a estratégia de paz da Administração” americana. E na ausência de uma estratégia coerente, continua, esta acção parece ter sido ditada por “uma combinação da frustração de Trump por ter de assinar de novo o documento da embaixada e por não cumprir, de novo, a sua promessa eleitoral de ter a embaixada em Jerusalém, e o seu desejo de fazer algo que nenhum dos seus predecessores fez”.   

Outro ponto difícil de explicar, para Aaron David Miller, é a reacção da Arábia Saudita, que apesar de ter protestado, o fez com menos veemência. Há quem veja aqui um sinal de um potencial aval a uma iniciativa de paz que esteja a ser planeada. Entre os rumores dos últimos dias, havia uma notícia no New York Times referindo um possível plano de paz sem intervenção palestiniana, que teria sido apresentado pelos sauditas a Mahmoud Abbas numa viagem que este fez o mês passado à Arábia Saudita. Um plano tão favorável a Israel que seria, segundo este jornal, impossível de aceitar por um líder palestiniano.  

Já o analista Yousef Munayyer, presidente de um grupo pró-palestiniano nos EUA, vê a conversa do Presidente americano com o líder palestiniano de modo diferente: “Acho que Trump deu um ultimato a Abbas. Está à espera da sua resposta, e está a deixar a decisão sobre Jerusalém como a ameaça em cima da sua cabeça”.  

Esta teoria aparece fortalecida tendo em conta a notícia sobre o acordo alegadamente proposto aos palestinianos, e explicaria porque há divulgação de informação sobre a mudança da embaixada do lado de palestiniano mas não do lado americano.