Associação que se bateu por Bracara Augusta e Tibães faz 40 anos

Ao fim de quatro décadas, a associação retrata histórias de lutas pela salvaguarda de património cultural e natural de Braga e da região, bem sucedidas em casos como os de Bracara Augusta, do Mosteiro de Tibães e das Sete Fontes e infrutíferas em muitos dos edifícios industriais que se ergueram na cidade, numa exposição patente no Museu Nogueira da Silva.

Mosteiro de Tibães
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Mosteiro de Tibães daniel rocha

Algumas das peças que subsistem no cenário patrimonial de Braga e outras cuja memória só pode agora ser evocada em documentos escritos e fotografias e que mereceram a atenção da Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural (ASPA) nos últimos 40 anos estão agora representados na exposição inaugurada ontem. O arquivo fotográfico e documental em exibição mostra o processo na origem da associação, combates e intervenções e ainda pedidos de classificação de imóveis bem-sucedidos como a Capela de Guadalupe, erigida na primeira metade do século XVIII, o edifício dos paços do concelho, do mesmo século, e o Estádio 1.º de Maio, projecto do arquitecto Travassos Valdez, inaugurado em 1950.

As “impressões digitais” da associação, consideram dois dos sócios fundadores, Henrique Barreto Nunes e Eduardo Pires de Oliveira, são, contudo, mais nítidas no “salvamento de Bracara Augusta”, que esteve na génese da ASPA, a 29 de Janeiro de 1977, no “processo que levou à compra do Mosteiro de Tibães pelo Estado” e na “classificação e processo de recuperação das Sete Fontes como parque monumental”.

O risco de urbanização que pairava sobre o alto da Cividade e a colina da Maximinos, onde se encontram as ruínas da cidade fundada no século I a.C. e que se tornou capital da Galécia (província do Império Romano no Noroeste da Península Ibérica), levou um movimento de sete cidadãos a criar a Comissão de Defesa e Estudo do Património (Codep) para defender o “mais valioso legado da época romana” em Braga, conta Henrique Barreto Nunes, então membro desse grupo.

A chave para a salvaguarda do conjunto formado pelas termas e pelo teatro romano, ainda à espera da recuperação total, surgiu com a campanha de escavações iniciada em Abril de 1976, pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, e a posterior autorização da Junta Nacional de Educação para a criação de um campo arqueológico, lembra o bibliotecário, realçando que, doravante, o “movimento de salvamento se tornou imparável” até à classificação como Monumento Nacional, a 3 de Janeiro de 1986.

Adesão total

Outra das memórias ainda gravadas desse período é a do envolvimento da população com esta missão, ora colocando letreiros por sua livre iniciativa, para proteger as escavações, ora pela generosidade com que se entregavam à defesa do seu património.

“Bracara Augusta é muito fruto da carolice de uns tantos, mas de uma cidade que soube aderir”, recorda Eduardo Pires de Oliveira. O historiador de arte lembra que a própria ASPA, criada para substituir a Codep, reunia, nesse período, “gente que ia mais à direita do CDS e mais à esquerda da UDP”, mas, quando o assunto era a defesa do património, todos estavam “sempre em total acordo”, numa fase em que “Braga já era então um campo fértil de atentados e de destruições sem jeito”.

A “batalha” pelo Mosteiro de Tibães, construído pela Ordem Beneditina no século XI e situado em Mire de Tibães, no limite entre os concelhos de Braga e de Vila Verde, assumiu contornos diferentes. Monumento nacional desde 1910, o edifício estava a ser “dilapidado de forma lamentável” no início da década de 80, até pela própria câmara municipal, então presidida por Mesquita Machado, que “adquiriu uma fonte no interior do mosteiro”, recorda Henrique Barreto Nunes.

Para tentar solucionar o problema, a ASPA comprou num antiquário dois retratos de abades retirados do mosteiro e apresentou-os numa conferência de imprensa para denunciar o caso. O sócio número 6 da associação lembra que o impacto na opinião pública foi de tal ordem que levou à compra do imóvel pelo Estado, em 1986, e ao seu posterior restauro.

Já o Parque das Sete Fontes, o sistema de abastecimento de água à cidade construído no início do século XVIII, por ordem do arcebispo José de Bragança, foi classificado como monumento nacional em 2011, depois de um processo de 16 anos, em que, pelo meio, o Plano Director Municipal (PDM) considerou a “zona urbanizável, com índice de urbanização máximo em alguns sítios”, explica Teresa Barbosa, membro da actual direcção, presidida por Armando Malheiro.

O risco que o PDM lançava sobre o complexo monumental levou a associação, em conjunto com a Jovemcoop e a Junta de Freguesia de S. Vítor, a lançar uma petição, que reuniu mais de 4000 assinaturas e foi apresentada na Assembleia da República, recorda.

Depois de o PDM que previa a urbanização ter sido suspenso pela autarquia, já no primeiro mandato de Ricardo Rio como presidente, as Sete Fontes receberam “obras de conservação nas capelas barrocas e na parte interior”, disse a professora, tendo sido, já neste ano, a 13 de Junho, apresentado o plano de execução para o local.

Também houve derrotas

Os sucessos da ASPA, hoje visíveis e palpáveis no território bracarense, consumaram-se lado a lado com o desaparecimento ou a descaracterização de outras marcas da cidade. Entre as “várias derrotas”, considera Henrique Barreto Nunes, incluem-se a destruição do Hospício de S. Bento, a Casa da Orge, um imóvel do século XVII do qual apenas sobrou o pórtico e parte da fachada após a demolição de 2007, a Barbearia Matos e o Palacete Matos Graça, ainda de pé no Largo da Senhora-a-Branca, mas só com a fachada.

Outra “perda gravosa para a memória da cidade”, lembra, foi o património arqueológico industrial, nomeadamente as antigas fábricas de chapelaria, localizadas em S. Vítor, na zona entre o centro histórico e a Universidade do Minho, como a Industrial e a Social Bracarense, e algumas fábricas têxteis. “Eram edifícios de grande qualidade e foram destruídos a partir dos anos 80, irremediavelmente. Só ficaram as fotografias e mais nada”.

Catalisadora de várias das classificações patrimoniais atribuídas à cidade de Braga, a ASPA procura, neste momento, a classificação do Palacete Júlio de Lima, do século XIX, e a Rua de S. Vicente, que, para Teresa Barbosa, não é apenas um conjunto de casas, mas “uma zona de grande sensibilidade patrimonial que reflecte a história”.

Essa rua inclui-se nas aflições do presente, pela descaracterização de “edifícios com carácter, com história e elementos decorativos extremamente importantes”, tal como o Bom Jesus do Monte, por algumas intervenções já realizadas, numa fase em que o processo de candidatura do santuário a Património Mundial da Humanidade está em curso.

Para o futuro, Eduardo Pires de Oliveira reitera que o principal desafio da ASPA é manter “a perseverança, a coragem e a coerência”  nos combates a travar, sejam quais forem os sítios arqueológicos e os locais de interesse ambiental. “Tem de haver alguém que resista, que saiba dizer ‘não’ quando é necessário”, defendeu.     

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