Os podcasts chegam à idade maior

O formato nasceu no início do século, mas só agora se está a impor. O áudio digital está a viver um período de grande criatividade e as opções de escuta são cada vez melhores.

Há cada vez mais produtores de podcasts envolvidos no desenvolvimento de conteúdos de alta qualidade
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Há cada vez mais produtores de podcasts envolvidos no desenvolvimento de conteúdos de alta qualidade Karl Tapales

Os podcasts são conteúdos de áudio prontos a serem partilhados e escutados em formato digital, podendo ser descarregados e ouvidos online ou offline. O podcast junta a intimidade da rádio com a facilidade do digital na distribuição e no consumo. Há dois géneros disponíveis: os programas que são produzidos para a rádio ou televisão e depois disponibilizados em podcast ou os que são produzidos já de forma nativa a pensar no formato digital. 

O sucesso recente do formato tem precisamente que ver com estes novos produtos feitos a pensar no modelo digital. Programas como Serial tornaram-se tão importantes na cultura popular como alguns programas de televisão, e séries de entrevistas como o WTF mereceram exclusivos, como a entrevista mais intimista do presidente Barack Obama em 2015. Há milhares de programas disponíveis para audição, dedicados a todo e qualquer tema concebível, todos gratuitos e disponíveis em dezenas de plataformas. Só é preciso ter uma ligação à Internet. 

Para além do aumento da qualidade, também a facilidade de audição ajuda muito ao sucesso dos podcasts. Nos Estados Unidos tem sido a utilização crescente de formatos digitais nos carros e das plataformas caseiras de voz (como o Google Home e a Amazon Alexa) a ajudar ao crescimento de 15% ao ano. Hoje, 67 milhões de americanos já consomem podcasts de forma regular, o que equivale a um quarto da população com mais de 12 anos. Este crescimento ocorreu também noutros países, atraindo os anunciantes para um formato cada vez mais apelativo.

Em Portugal tem-se verificado também o aumento exponencial da oferta. Existem cada vez mais podcasts, cobrindo maior diversidade de temas, juntando profissionais reconhecidos e amadores talentosos numa comunidade crescente de criadores e consumidores do novo áudio digital. 

História de áudio digital

Pedro Esteves foi um dos pioneiros portugueses. Autor do Lado B, um programa dedicado à música independente disponibilizado na Internet desde 2005, somou centenas de programas na popularização da música independente enquanto era uma das vozes de continuidade na TSF, dividindo a paixão pelo som entre a rádio e o podcast. Honrando as origens menos profissionais do projecto, começou por ser um blogue com um ficheiro mp3 que se podia descarregar; só em Março de 2006 se tornou um podcast de direito próprio. E porquê? “O Lado B foi fruto de duas coisas: do prazer de fazer rádio e da necessidade de partilha. Era naquele tempo a melhor ferramenta de partilha, a maneira mais bonita que eu encontrava para mostrar as músicas que descobria e de que gostava. Aliás, o Lado B começou por ser feito em ‘falso directo’ nos estúdios da Rádio Ocidente, mas não demorou muito até que me tivesse cansado de fazer a viagem. Numa dessas noites, no regresso a casa, passei por um centro comercial e comprei um microfone barato. Na semana seguinte, fiz o programa em casa no GarageBand. Acho que já não voltei ao estúdio.” Pelo meio foi ficando conhecido no mundo da música independente, tendo lançado neste podcast vários exclusivos a nível mundial, como alguns singles dos Wheat.

A história dos podcasts tem que ver com a popularização da Internet como ferramenta de expressão. Depois dos blogues, o áudio era o formato mais fácil divulgar numa Internet que ainda dependia de uma fraca infra-estrutura de telecomunicações. Logo na viragem do século começaram a surgir programas gravados em formatos digitais (nomeadamente o mp3), que depois eram disponibilizados via RSS para quem os quisesse ouvir. A novidade começou por ser conhecida como “audioblogging”, só assumindo o nome podcast em 2004, num artigo do The Guardian. O termo é uma contracção dos termos broadcast e iPod, um aparelho da Apple que tinha revolucionado o áudio portátil. Aliás, a Apple é uma das maiores responsáveis pela popularização do formato, graças à criação de um segmento no software iTunes e de um directório na loja de conteúdos. Foi também a Apple que decidiu cedo que este formato seria sempre gratuito, ao conceber a plataforma de distribuição no sentido de chegar ao maior número possível de pessoas. 

Luís Bonixe é investigador universitário e terá sido o primeiro português a estudar academicamente o tema dos podcasts. Em 2007 o cenário era “muito estimulante, mas também muito amador”. “Havia uma série de pessoas com vontade de se expressar que não encontrava saída no mercado tradicional dos media e que acabou por usar o podcast como forma privilegiada de expressão.”

“[Hoje o enquadramento é] muito mais profissional e por isso estamos a assistir à explosão do formato.” Bonixe não considera relevante que se faça uma diferença entre os podcasts originais para o mundo digital e os que nascem na rádio e depois criam um novo canal de distribuição nas plataformas digitais, porque “o que interessa é a penetração digital do áudio, que deve continuar a crescer, especialmente ao atrair mais conteúdos com temáticas diferentes”. Pedro Esteves, que acabou por abandonar a periodicidade rigorosa do Lado B quando se tornou jornalista multimedia no Observador, também mantém a expectativa sobre a evolução do formato, porque “a maioria das pessoas ainda não sabe o que é um podcast.” “Há muita coisa interessante a acontecer fora da rádio, como, por exemplo, os carros com ligação directa à Internet. É uma questão de tempo.”

O crescimento foi lento mas determinado e hoje o cenário equivale a uma explosão criativa própria de um formato maduro, com audiências a condizer. Há cada vez mais produtores de podcasts envolvidos no desenvolvimento de conteúdos de alta qualidade e em inglês a escolha é quase impossível, dada a variedade de programas de referência. Mesmo em português já há centenas de títulos com muita qualidade (ver caixa), sem sequer ser preciso ir buscar referências a produtos desenvolvidos a pensar nas rádios e só depois transpostos para o áudio digital — mesmo que estes acabem por ser os líderes de mercado, trazendo novos consumidores que chegam graças aos nomes mais conhecidos e depois acabam por explorar outros títulos. Programas como o Governo Sombra, da TSF, ou a Mixórdia de Temáticas, da Rádio Comercial, ou o Café da Manhã da Renascença estão habitualmente no topo da lista. E, para além do PÚBLICO, outros títulos como o Expresso, o Delas e o Observador têm investido em podcasts, acumulando títulos ao lado de muitos produtores independentes que desenvolvem produtos com cada vez maior qualidade. 

Paula Cordeiro tem acompanhado este crescimento com interesse analítico. Professora universitária, blogger e podcaster, tem estado do lado dos produtores, dos consumidores e também influenciado a maturação de ambos. E recorda que os podcasts começaram por se inspirar nos formatos de áudio que já existiam. “Foi assim com a rádio, que foi buscar ideias aos textos da imprensa para os primeiros noticiários ou ao cinema, para criar uma narrativa sonora que é eminentemente visual, apelando à imaginação do ouvinte. A televisão imitou a rádio, copiando as entrevistas, as novelas ou os debates e a Internet é o ponto de encontro de narrativas mediáticas diferentes que se cruzam para criar novas narrativas. Veja-se, por exemplo, o que fazem os youtubers, desvirtuando, para recriar uma nova narrativa visual. No caso dos podcasts há uma questão que por vezes confunde o público: o podcast não é um formato em si mesmo, mas simplesmente um modelo de distribuição dependente de subscrição, ou seja, tecnologia push associada a um feed. Trata-se de uma automatização para receber conteúdos que subscrevemos e que estão disponíveis no nosso smartphone ou computador.”

Cordeiro tem neste momento o Urbanista, um podcast de tendências urbanas. E acredita no sucesso de um meio que ainda está em fase de maturação: “O futuro, espera-se, é o de seguir as tendências e a tendência é de crescimento do investimento publicitário neste formato que nos Estados Unidos da América tem já grande relevância do ponto de vista da produção, publicidade e consumo. Naturalmente que a convergência mediática assente na Internet facilita o acesso aos conteúdos e à distribuição IP, criando um contexto em que se começa a ouvir num aparelho para continuar a ouvir noutro. Já acontece com o Spotify que tem a escuta continuada, passando de um aparelho para outro de forma automática e o mesmo tenderá a acontecer com outros serviços.” 

Como explorar os podcasts  

Se há um problema que se deve referir, é precisamente a dificuldade em se encontrar novos títulos. Os motores de pesquisa próprios (como o Listen Notes) estão longe de ser perfeitos e é possível que existam pérolas por conhecer — a divulgação acaba por ser feita muito na base da partilha, entre amigos e conhecidos, pelo menos até que um título chegue aos tops. Claro que é sempre possível usar os serviços de pesquisa genéricos da Internet para se conhecerem novos títulos, mas isso nem sempre garante que se encontre o que se procura, especialmente numa língua diferente do inglês.  

Ajuda bastante procurar nas plataformas dedicadas, especialmente as da Apple e do Android. Ao mesmo tempo, a atenção aos tops em cada país ajuda a perceber o que é mais popular — e espera-se que a crescente atenção dos meios de comunicação acabe por aumentar a notoriedade dos títulos.

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