Crítica

Vicente Amigo fechou o ano flamenco com chave de ouro

O concerto de Vicente Amigo na Gulbenkian fechou com chave de ouro o ano flamenco em Portugal, numa combinação admirável de mestria e profissionalismo.

Vicente Amigo
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Vicente Amigo DR

O ano português de 2017, sobretudo na segunda metade, foi auspicioso para o flamenco. Depois de Esperanza Fernández, ainda em Maio, a cantar José Saramago em Serpa, no Festival Terras sem Sombra, tivemos ainda Buika (em Setembro, no Coliseu de Lisboa), o Festival Flamenco Heritage (em Novembro, na Aula Magna, com Gerardo Núñez, Miguel e Juan Vargas, La Kaíta, “El Peregrino”, ou os jovens bailaores El Yiyo e El Tete) e, por fim, Miguel Poveda e Vicente Amigo, ambos no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian e com lotações esgotadas. E se Poveda (a 11 de Novembro) arrebatou, de novo, fortes e merecidos aplausos, Vicente Amigo não lhe ficou atrás: o espectáculo que deu em Lisboa, na noite de 1 de Dezembro, foi excelente.

Não deixa de ser gratificante que tenham passado por palcos portugueses este ano, e com curto intervalo, dois dos maiores guitarristas flamencos vivos de Espanha, Gerardo Nuñez e Vicente Amigo (os outros serão Cañizares e Tomatito). E se Nuñez, a fechar o Festival Flamenco, assinou um concerto arrebatador, Vicente Amigo mostrou com simplicidade e nervo toda a sua mestria, num repertório que combinou, maioritariamente, temas dos seus últimos dois discos, Tierra (de 2013) e Memoria de los Sentidos (2017), o mais recente, que lhe valeu um Grammy Latino.

Logo desde o início, num algo extenso mais vibrante solo absoluto, Vicente Amigo exibiu em vários palos o dom que o vai aproximando da lenda e o coloca, em termos internacionais, no patamar mais alto, aquele que já partilhou com Paco de Lucía. Depois, num registo aqui mais ligado às raízes flamencas, estendeu a “lição” por combinações diversas. Com Añil Fernandez (também na guitarra), Ewen Vernal (baixo), Paquito González (percussão) e Rafael de Utrera (voz e palmas), Vicente tocou aproveitando o envolvimento do grupo mas também em duo com apenas um dos músicos, não deixando nunca hiatos por preencher ou a intensidade diminuir.

Para isso muito contribuiu a desenvolta ligação do guitarrista ao grupo, caldeada em inúmeros palcos mas também suada e sentida: cada tema foi, na verdade, uma celebração da arte flamenca, com Vicente Amigo a assinalar esse triunfo erguendo os braços num agradecimento aos parceiros e também ao público. E foi bem visível o prazer com que todos os músicos “dialogavam”, numa fogosa paleta de tons. No repertório, tiveram destaque as bulerías, como Autorretrato (de Tierra) ou Guadamecí, do disco mais recente, a fechar oficialmente o concerto. Aplaudidos de pé, ainda viria mais um tema, instrumental, onde a guitarra de Vicente Amigo soou como se cantasse.

Numa combinação admirável de mestria e profissionalismo, o concerto de Vicente Amigo fechou assim com chave de ouro o ano flamenco em Portugal. No fim do espectáculo, o público pôde trazer para casa um DVD, Patios de Córdoba, que embora lançado com intuito promocional pelo respectivo ayuntamiento e pela Junta da Andaluzia, contém na íntegra um concerto que Vicente Amigo deu em França, no Théatre de Mer, em Sète, em 16 de Julho de 2014, precisamente com os músicos que o acompanharam neste concerto na Gulbenkian e outros mais, e onde ele tocou alguns dos temas que também deu a ouvir agora em Lisboa. Que Vicente Amigo, tal como Miguel Poveda e outros artistas flamencos tenham, de há muito, Portugal na sua agenda, é coisa de que só nos podemos orgulhar. E, pela reacção deles, percebe-se que o prazer é mútuo.

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