Editorial

A oligarquia americana

A suprema ironia é que esta votação tenha ocorrido menos de 24 horas depois de um evento que pode colocar em causa toda a presidência Trump.

É a grande vitória de Trump: o partido republicano rendeu-se a toda a linha aos interesses corporativos. A aprovação do novo plano fiscal americano é uma absoluta capitulação às grandes empresas e aos milionários à custa dos mais pobres. Não há dúvidas sobre as consequências desta lei: ela irá forçar um extraordinário aumento de 1,4 biliões de dólares ao défice americano, que será pago de três formas — com redução de apoios sociais, menores investimentos em serviços públicos como transportes ou educação e com aumentos de impostos para a classe média.

Com esta nova lei tributária confirma-se que os republicanos são um partido unanimemente entregue às forças conservadoras, sem traços de liberalismo nem de modernidade. Que seja um outsider arrivista como Trump a exibir a verdadeira faceta dos republicanos é apenas uma nota que fica para o rodapé da História. Mas todos os que votaram esta lei, entre os quais estão os nomes do passado do partido (como John McCain) e muitos do seu futuro (como Ted Cruz), têm uma dose imensa de co-responsabilidade no que se vive.

Esta lei é também a confirmação da transformação da democracia americana numa oligarquia. As eleições dependem de campanhas que estão montadas no sentido de beneficiar quem mais dinheiro gasta; o dinheiro vem das grandes empresas que sustentam candidatos, na grande maioria republicanos, que dizem representar os interesses dos eleitores; na hora da verdade, os eleitos servem quem mais paga. O que é extraordinário é que tantos americanos ainda acreditem na fábula da democracia representativa que supostamente ocupa os corredores de Washington.

A suprema ironia é que esta votação tenha ocorrido menos de 24 horas depois de um evento que pode colocar em causa toda a presidência Trump. Neste momento, só a justiça americana parece ser capaz de reverter o esquema de poder montado nos Estados Unidos. E é precisamente isso que pode estar em preparação. A investigação que o procurador especial está a conduzir sobre o suposto conluio com a Rússia antes e depois das eleições presidenciais pode ser um escândalo que leve à queda do Presidente — cenário que se tornou um pouco mais real depois do anúncio de que Michael Flynn, ex-conselheiro de segurança nacional, se declarou culpado de mentir ao FBI e estará a colaborar com a investigação para que esta implique as figuras do topo do Estado. Leia-se Mike Pence e Donald Trump. A democracia americana está numa condição tão comatosa que só resta rezar por um Watergate.

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