Crítica

Um canto exemplar

A nova produção de The Rape of Lucretia, de Britten, é um trabalho magnífico que levanta questões importantes e urgentes sobre a sociedade actual. E também sobre a criação artística.

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Miguel Manso
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“Tão passageira que é a beleza”. A frase é da ópera The Rape of Lucretia, que estreou no sábado no Teatro de São Carlos, em Lisboa. E que também irá ao Teatro São João, no Porto, em Janeiro. Tão passageira que é a beleza: não a perca, se puder, que esta ópera com oito cantores e uma dúzia de músicos é uma obra singular. Na produção do São Carlos, com uma encenação de Luis Miguel Cintra, a ópera de câmara de Benjamin Britten abriu uma luz ao fundo do túnel. Há esperança, afinal.

Britten escrevia maravilhosamente para vozes. Mas têm de ser vozes atentas ao que está na música, astutas, vencendo as dificuldades técnicas através da clarificação das palavras do texto e dos ritmos, das melodias e das cores da música. Ora foram vozes assim que pegaram nesta música tão difícil e tão fácil. Um elenco muito equilibrado, unido e rigoroso fez parecer fácil a música de Britten que procurava, no seu tempo, e à sua maneira, novos caminhos para a criação musical.

Uma ópera como esta, fragmentada, por vezes estranha, precisa de segurar-se com força e delicadeza. A direcção musical de João Paulo Santos conseguiu fazê-lo brilhantemente. E que dizer da magnífica pequena orquestra, que trouxe todas as cores que ainda faltavam para pintar este “conto exemplar” de Benjamin Britten? Conto e canto exemplar, mas onde a moral não está pré-formatada. Há perguntas para fazer, até ao fim. E o espectador tem de tomar posição, se quiser entender melhor.

Porque The Rape fo Lucretia (“A violação de Lucrécia”), estreada em 1946, é uma ópera ao mesmo tempo pacifista e violenta, calorosa e distanciada, pessimista e esperançosa. Há ali muito texto, é aparentemente uma ópera-ensaio, palavrosa e complicativa, com reflexões sobre moral e política, sexualidade e guerra, homens e mulheres, violência e esperança, e até questões metafísicas: “Então é só isto? Isto é tudo?”. Mas depois não é nada disso.

A grande qualidade musical desta produção foi ampliada pela encenação “aberta” de Luis Miguel Cintra que fez a música voar. Na ópera, música e cena são irmãs, mesmo que se zanguem de vez em quando. E aqui foram-no duma forma tão simples e tão inteligente que abriram um espaço de escuta e pensamento, ali mesmo, no palco do São Carlos. Ou seja, a encenação fez música enquanto a música fazia drama.

Com ajuda de uma iluminação rigorosa mas interrogativa, quebrou-se a imagem típica da ópera gritante e todo-poderosa. Com a belíssima mas discreta entrada dos técnicos e contrarregras abre-se um palco que tenta, trabalha, experimenta. Não é comum ver isso na ópera. Com um “elemento cenográfico” de Cristina Reis tudo o que é pesado funciona subitamente com uma bela leveza. E, vale a pena repetir, com uma orquestra que sabe que está a fazer teatro e com um elenco que entende o que canta (e constrói personagens que carregam ao mesmo tempo música, vida e ideias), tudo aparece ali como um espaço musical que propõe que interroguemos o mundo, que escutemos com atenção, que pensemos na urgência de travar a violência da sociedade actual, na possibilidade de fazer doutra forma, na responsabilidade que temos. Nós, espectadores, temos de fazer uma parte do trabalho, mas aqui pensar não cansa, pensa-se com todo o prazer. E leva-se trabalho de casa, para a vida.

Benjamin Britten e o libretista Ronald Duncan mantiveram a ideia de um “coro feminino”e um “coro masculino” (que nesta ópera não são dois coros, mas duas personagens) que nos ajudassem a pensar, comentando a acção. Foram dois excelentes cantores, Marco Alves dos Santos e Dora Rodrigues que o fizeram aqui. Perto do final, o coro feminino canta: “A beleza é o casco de uma jovem égua indómita que chegando trovejante a uma sebe de avelãs, salta em direcção ao sol e desaparece”. Aplausos generosos, e pareceu-me ver também um espectador perplexo, ou talvez emocionado.

Então foi tudo perfeito? Ou pode melhorar-se ainda? Pode melhorar-se ainda: na dicção, na articulação tão difícil das partes que se encadeiam e seguram. Não, não foi tudo perfeito. Mas a imperfeição é que é linda.