Ceia de Natal

Uma grande noite para apreciar vinho

Pela solenidade, pela comida ou pela companhia, a noite de Natal é um momento ideal para se celebrarem grandes vinhos. Dos vinhos antes do jantar, aos vinhos para o bacalhau ou para as sobremesas, as escolhas são felizmente imensas. Mas exigem cuidados.

Adriano Miranda
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Adriano Miranda

Para quem gosta de vinho, talvez não haja noite mais exigente, mais exaltante e mais esperada do que a noite da Consoada. O momento exige celebração e não há celebração digna desse nome que não implique vinho à mesa. A reunião da família e de amigos faz com que as escolhas dos vinhos a servir se tornem por isso mais exigentes. Nessa noite é obrigatório comer muito e, ainda mais, comer bem, o que nos obriga a escolher com critério as garrafas que hão-de ser servidas ao longo da ceia.

A ceia de Natal não costuma ocupar as horas do costume. Começa ao final da tarde – ou deve começar. É aí que começam as “hostilidades”, com as iguarias da época. Que recomendam vinhos mais conviviais. Nada melhor do que um espumante para as inaugurar. Ou então vinhos brancos mais leves e frutados. Não precisam ser primores de complexidade. Um Vinho Verde Loureiro ficará, por exemplo, muito bem. Mas há escolhas praticamente em todas as regiões do país. Experimente, por exemplo, um branco com a casta Síria da Beira Interior – os da Quinta do Cardo estão afinadíssimos.

Para o bacalhau, as escolhas tornam-se, felizmente, mais complicadas. Quando cozido e servido com bom azeite, batata e legumes o fiel amigo cria no palato uma camada de gordura e sal que recomenda cuidado. Por tradição, os vinhos tintos ajustam-se bem a esta exigência. Mas evite escolhas de vinhos muito jovens, frutados, alcoólicos e extraídos. O sabor do bacalhau, quando bem demolhado e cozinhado, é intenso mas delicado. O que pede um vinho com alguns anos de garrafa, embora com volume e estrutura para resistir ao embate.

É difícil fazer escolhas num universo tão vasto de vinhos com estas características. Por definição, os tintos do Dão ajustam-se bem ao desafio – são por norma muito sedosos na boca, com boa estrutura e acidez mas apresentam igualmente uma subtileza aromática e uma elegância singulares. No Alentejo, os vinhos que são feitos com lotes dominados pela Alicante Bouschet apresentam um perfil clássico também muito recomendável. Se optar por um Bairrada, saiba que fica muito bem servido, mas neste caso (se for um Baga) preste-se a escolher um vinho aí com uma década de guarda. No Douro, as escolhas são também muitas. Os perfis das grandes casas dão origem a vinhos que, após seis ou sete anos na garrafeira, casarão muito bem com o bacalhau. Tente um Noval de 2007, por exemplo. Ou um Vinhas Velhas do Crasto. Ou um Poeira. Tudo apostas ganhas.

Mas nem só de vinho tinto se faz o jantar de Natal. Como lhe damos nota nesta edição, há Alvarinhos que ficam muito bem de mão dada com o bacalhau. Têm de ser especialmente estruturados, com acidez vincada, fruta contida e mineralidade assegurada. Mas pode igualmente experimentar o bacalhau com espumante. Bruto, evidentemente. É uma experiência diferente, mas nem por isso despicienda.

No capítulo das sobremesas, as soluções são igualmente vastas e variadas. Como estamos a falar de vinhos, deixamos de parte no leque de escolha bebidas espirituosas. Fiquemos por um vinho do Pico, um licoroso injustamente esquecido mas que vale a pena ter em atenção. Consideremos os magníficos moscatéis, sejam de Setúbal ou de Favaios que, quando chegam a uma determinada idade propiciam experiências memoráveis. Não falta por onde escolher. E para uma tábua de queijos há vinhos brancos com madeira (e de preferência alguma idade) que combinam muito bem. Aventure-se nos Encruzados do Dão, por exemplo.

Se a opção for vinho do Porto (uma escolha segura), opte por dois momentos: para as frutas secas, o pão-de-ló ou o leite-creme, escolha vinhos de estilo tawny, tipo 10, ou 20 anos. Ou Colheitas, vinhos igualmente habituados à oxidação mas em geram mais concentrados e com um frescor cítrico muito atraente. Depois, para o final a escolha imperial: um Porto Vintage. Fica bem com alguns queijos (com o Stilton, principalmente) e fica principalmente bem a temperar uma boa e animada conversa com os eleitos para a partilha dessa grande noite. Boas escolhas.

Furtiva lagrima Tinto 2013

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Um tinto potente e tocante do Alentejo. Lote de Alicante Bouschet (90%) e Touriga Nacional (10%), com 18 meses em barrica, tem 14,5% de álcool, mas não é calidez que assoma ao nariz e à boca, é fruta do bosque apimentada com notas balsâmicas e especiadas, é vigor e densidade associados a elegância, é sapidez e vivacidade. Um tinto poderoso mas de grande harmonia. Faz lembrar a fruta quando chega ao ponto certo de sucrosidade (doce mas sem ser em passa e ainda com algum ácido), quando melhor sabe. Vai muito bem com o bacalhau assado ou com o perú (49,50€). P. G.

Quinta da Romaneira Reserva Tinto 2015

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Este último reserva da Quinta da Romaneira, uma das maiores propriedades do Douro, já incorpora algumas uvas de uma replantação feita em 2004, mas o grosso do lote é de uvas de vinhas velhas. É um vinho perfumadíssimo, com deliciosas notas de mirtilos e violetas a predominar no aroma, amplo e vigoroso na boca, suportado por taninos finos e sedosos e por uma frescura de natureza mineral que vem das profundezas do xisto. Novíssimo mas de grande classe. Está mesmo a pedir perú assado no forno (40€). P.G.

Pormenor Tinto 2014

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Um tinto de um novo produtor do Douro, Pedro Coelho, feito a partir de uvas de Soutelo do Douro, São João da Pesqueira, de vinhas situadas a cerca de 500 metros de altitude. Está nos antípodas dos Douro opulentos, volumosos e carnudos que fizeram a imagem da região. É contido de álcool, austero, fresco, vigoroso e muito digestivo. Vale a pena conhecer e experimentar no Natal (16€). 

Marquesa da Alorna Grande Reserva Branco 2015

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Não interessa para o caso se este branco leva ou não castas estrangeiras (o produtor só diz que é feito a partir das melhores castas da propriedade). É um vinho belíssimo e chega. A sua fruta é bem madura, mas nada enjoativa. A madeira também está no ponto certo. Mas o que mais impressiona é a harmonia que apresenta, porque, sendo um vinho encorpado e untuoso, mostra uma elegância e uma frescura magníficas. Pode acompanhar bem os pratos de peixe típicos do Natal ou até algum queijo de pasta mais mole (18€). P.G.

Quinta de Ventozelo, Touriga Franca 2014

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O Ventozelo é uma quinta imensa no Douro que agora faz parte dos domínios da Gran Cruz. As suas condições e a nova aposta da empresa na enologia deixam grandes expectativas para o futuro. E garantem já certezas no presente. que tem imenso para dar. As mudanças de gestão e da equipa enológica mostram que esse caminho será feito em respeito pela identidade da quinta. Prove-se este Touriga Franca para se perceber que o aroma de mosto (fruta jovem), com prevalência para o morango, a sua estrutura marcada mas polida de tanino e a sua irresistível frescura final (mineral e crocante) mostram uma interpretação muito própria da grande casta duriense. Um vinho diferente, muito apelativo e gastronómico. (13 €) M.C.

Quinta do Monte d’Oiro Reserva 2012

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A Quinta do Monte d’Oiro de José Bento dos Santos e do seu filho Francisco produz uma paleta de vinhos cujo denominador comum é a sua feição clássica e a sua vocação gastronómica. Emblema de alguns dos melhores Syrah do país, os Reserva do Monte d’Oiro são sempre sedosos e subtis no primeiro ataque, deixando um rasto no palato que depois de acentua com uma estrutura, volume e frescura final. Os aromas deste Reserva de 2012 são intensos, com a dimensão da madeira e da evolução em garrafa a sobreporem-se já à fruta original, o seu volume é sedutor, a sua elegância é notável e, sob a aparência de um vinho suave, esconde-se uma estrutura que se ajusta muito bem às receitas natalícias. (21.50 M.C.)

Valle de Passos Reserva 2014

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Se há algo de novo a festejar no vinho português é o surgimento de marcas com classe em regiões até agora marcadas pela discrição. Uma dessas marcas vem de Trás-os-Montes, onde uma empresa familiar se associou a uma equipa de vanguarda na viticultura e na enologia (José Manso, Carloto Magalhães e Manuel Vieira) e deu origem a vinhos de muito boa estirpe. O Valle de Passos Reserva é um  tinto de raça, carácter e uma notável harmonia. Aroma de fruta preta, bom volume, tanino vincado, algo vegetal, persistência e vigor no final de prova e uma boa complexidade são os seus principais pergaminhos. (14 €) M.C.

Poças Colheita de 1967

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Este é um daqueles vinhos do Porto aos quais se recorre quando se quer impressionar o mundo. Ao chegar ao meio século de vida, reune todos os grandes atributos que fazem do vinho do Porto um clássico mundial. Porque é extraordinariamente intenso, deixando um rasto de sabores a fruta seca temperados com notas cítricas longo e delicioso. Porque o seu ataque na boca obriga a que o mastiguemos, como se a cada movimento do palato houvesse lugar para novas e sempre surpreendentes revelações. Porque é tão grandioso que enriquece a presença de sobremesas próprias para a estação, como o leite creme, ou frutas secas. Porque é, seguramente, uma experiência da qual poucos se poderão esquecer. E ainda porque, para um vinho desta estirpe, com esta idade e com este potencial para deslumbrar os sentidos, está à venda a um preço muito sensato. (180 €) M.C.

Quinta do Cume Tinto Grande Reserva 2014

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Com uvas da vinha do Fontão, na margem de um pequeno afluente do Pinhão, forte inclinação e exposição sul/poente que potencia a maturação, o vinho é elegante e equilibrado. Um evidente ganho face às colheitas antecedentes, mais concentradas e também com mais evidência das notas de barrica. Mesmo mantendo um grau alcoólico elevado (14,5%), a qualidade da fruta e dos taninos compõem um ambiente de equilíbrio e frescura que lhe moldam a personalidade duriense. É profundo e intenso, mas ao mesmo tempo fresco, equilibrado e com elegância de boca. Uma colheita excepcional, para quem não dispensa os assados (39,50€). J.A.M.

Pôpa VV Tinto 2011

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Na Quinta do Pôpa os vinhos só saem para o mercado no tempo próprio, e essa é uma qualidade diferenciadora neste produtor do Douro. O Vinhas Velhas de 2011 foi lançado no início do ano passado e mostra agora todo o potencial de uma colheita que tem sido olhada como das melhores das últimas décadas. Na vinha, com mais de 80 anos, estão identificadas mais de 20 castas, num blend natural que confere elegância, complexidade e equilíbrio, apesar do álcool elevado (14,5%), que pouco se nota face à acidez fresca. Um vinho de grande finesse, num estilo moderno e sedutor. Para o perú ou o polvo. (25€). J.A.M.

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