Nelson Garrido
Nelson Garrido

Natal

Quando as prendas são boas de beber

Porto, espumante, branco ou tinto? De que região? De um enólogo consagrado ou de uma estrela em ascensão? Procurar vinho para se dar como prenda de Natal pode tornar-se um exercício divertido. Até porque há sempre um vinho associado à pessoa a quem se destina.

Oferecer vinho aos amigos, à família ou a alguém que nos merece gratidão ou reconhecimento é uma boa tradição portuguesa. Oferecemos vinhos nos aniversários, oferecemos vinhos quando há algo de importante ou simbólico a acontecer e oferecemos vinhos no Natal. Antigamente, a nobreza do vinho do Porto tornava-o a principal referência para as ofertas com as quais pretendíamos sublinhar a nossa dedicação ou amizade ou gratidão. Hoje, felizmente, a oferta no mercado dos vinhos de Portugal é muito mais vasta e abrangente. Podemos escolher regiões, podemos escolher marcas de prestígio, brancos ou tintos, sem que deixemos de manter um elevado sentido de exigência. E com a vantagem de termos mais oportunidades de surpreender.

Claro que, entre todos os vinhos portugueses, os vinhos do Porto continuam, e bem, a manter um papel distinto sempre que se fala de prendas de Natal. Até porque em alguns casos são vinhos capazes de serem guardados durante décadas, como que a atestar o sentimento e a reforçar a ligação entre quem oferece e quem é obsequiado. Nestes casos, a proposta de um vintage é sempre uma aposta segura. E no mercado há dezenas de propostas a considerar: vintages já com alguma idade e em condições de poderem começar a ser apreciados e também vintages da fantástica vindima de 2015, a mais recente a chegar às garrafeiras. O ano não foi considerado clássico, mas não se preocupem: nem por isso deixa de ser uma edição fantástica.

Depois há os outros Porto. Os tawnies, sempre mais ajustados à preferência nacional, sejam nos formatos de 10, 20, 30 ou 40 e mais anos, sejam no capítulo dos Colheita, uma categoria que nos últimos anos tem alargado imenso a sua legião de apreciadores. Entre as ofertas à disposição, há vinhos para todos os gostos e todos os preços. E não apenas nas marcas mais consagradas. Há pequenos produtores durienses, como a Quinta do Estanho, que tem bons tawnies a preços bastante mais comedidos. Na mesma vaga, produtores como a Quinta do Vallado ou o Vale Meão têm igualmente boas sugestões que cabem no capítulo do vinho associado a pequena sproduções. E na categoria dos Colheita, casas como a Poças Júnior ou a Andresen têm propostas muito interessantes.

Saídos daqui, entramos no rol dos outros vinhos e na pergunta obrigatória: tintos ou brancos. Claro que, para a percepção da maioria, os tintos são por definição vinhos mais associados à distinção e ao prestígio. Mas também isso está a mudar. Hoje, há grandes brancos em praticamente todos as regiões do país. Oferecer um grande Alvarinho ou um grande Encruzado do Dão é algo que vai cair certamente bem no contemplado. E depois, há sempre a possibilidade de se escolher um espumante – ou um champanhe, que, na categoria, continua a ser um vinho altamente conceituado. Para lá das marcas mais emblemáticas, como a Vértice ou a Murganheira, há excelentes espumantes na Bairrada e nos Vinhos Verdes, principalmente os de Alvarinho, que merecem consideração.

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Na gama dos tintos, as ofertas são labirínticas. O que pretende: uma marca emblemática, estilo Mouchão, Monte d’Oiro, Luís Pato, Casa da Passarella, Niepoort ou Barca Velha? Ou uma surpresa de uma marca que está em crescente processo de afirmação, como a Madre de Água, a Arrepiado Velho o Mapa ou o Monte Xisto? Talvez pretenda jogar pelo seguro e oferecer um vinho associado a um enólogo consagrado e poderá ir pelas criações de Susana Esteban, de Rui Reguinga, de José Maria Soares Franco ou de Luís Sottomayor. Ou prefira um desses enólogos mais outsiders (no sentido elogioso do termo) como António Maçanita, António Madeira, Dirk Niepoort ou Luís Soares Duarte. As escolhas são mais que muitas, portanto.

Até porque depois entre na equação a origem. No primeiro plano das regiões mais prestigiadas, e de onde vêm os vinhos mais caros, considere o Douro e o Alentejo. Mas se abdicar do conservadorismo, pode encontrar grandes revelações na Bairrada e, cada vez mais, no Dão, onde se fazem vinhos com uma afinação e uma elegância raras, e que dispõem uma boa capacidade de evolução.

Onde comprar? Os hipermercados dispõem já hoje de uma oferta de gamas que vão muito para lá dos vinhos correntes. Mas se estiver indeciso, ou se não dispuser de todas as informações que julga necessárias para fazer uma boa escolha, procure uma garrafeira. Aí, para lá de encontrar os vinhos que escapam aos circuitos da grande distribuição, encontrará também o conselho ou a sugestão que podem fazer toda a diferença.

Stone Terraces Graham’s Vintage 2015

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Os vintage Stone Terraces da Graham’s são um acontecimento recente. Mas um acontecimento sério, muito sério. Este vinho produzido a partir de vinhas velhas de três parcelas da Quinta dos Malvedos, junto à Foz do Tua, é um prodígio de subtileza e de sofisticação. É um vinho claramente feminino, de seda pura. Mesmo agora, ainda na sua primeira juventude, oferece uma textura cheia de delicadeza que acaricia a boca. Reunindo nos aromas todas as expressões do Douro (notas florais, chá preto, sugestões de tabaco, ameixa preta) , é um vintage que inebria os sentidos pelo seu impacte, pela sua originalidade e, principalmente, pela sua extraordinária sofisticação. Um vintage para a posteridade. (170 €) M.C.

Quinta do Infantado Vintage 1997 (magnum)

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A Quinta do Infantado colocou no mercado exemplares do seu Porto Vintage de 2007 em formato magnum. E que vintage. Oriundo de um ano clássico, este vinho atingiu um grau de aprimoramento que já nos permite aceder aos principais atributos de um grande vintage. A fruta original ainda está presente (o envelhecimento em magnum retarda a perda dos aromas primários), as notas da garrafa, com especiaria, sugestões de aromas de bosque, acentuam-lhe a complexidade e o seu músculo torna-o especialmente recomendado para acompanhar sobremesas – destaque para os queijos. Um belíssimo vintage pronto a beber. (99 €) M.C.

Feuerheerd’s Porto Colheita 1977

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Qual orquestra celestial, os vinhos do Porto da casa Barão de Vilar descansam nas vestutas caves de Gaia sob a batuta de Alvaro van Zeller. Um sono de deuses no remanso de velhos toneis, no caso dos Colheita, aqui e ali parcialmente acordados para a vida com engarrafamentos à medida da condução do maestro. De um desses engarrafamentos recentes, o Colheita de 1977, com a marca Feuerheerd’s pintada na garrafa bem atesta essa aura celestial que só alguns vinhos atingem. Cor âmbar brilhante, riqueza de aromas, complexidade e uma envolvência de veludo que delicia e enche a boca. Às típicas notas de frutos secos, associa também sensações de figos em calda e um sabor fresco a casca de tangerina que lhe marca a diferença. Final longo e sempre fresco. Irresistível (84€). J.A.M.

Villa Oliveira, Touriga Nacional, 2011

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Se por acaso tiver um amigo com dúvidas sobre a real valia da casta que serve de emblema aos tintos portugueses, tenha esta escolha em consideração. Porque este vinho da Casa da Passarella é um prodígio de elegância, de equilíbrio e uma fonte de sensações intensas e intermináveis. Com uma magnífica expressão floral nos aromas, uma estrutura de taninos pujante mas sedosa, uma acidez fina e tensa que lhe dá garra e lhe acentua o carácter, este Touriga Nacional do Dão Dão é um vinho de classe superior. (39 €) M.C.

Antónia Adelaide Ferreira 2013

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O legado de D. Antónia Adelaide Ferreira continua bem vivo nos grandes vinhos da Casa Ferreirinha. Ao contrário do que é norma nos tintos da Ferreirinha, este D. Antónia não é proveniente de uma quinta específica do Douro, como o quinta da Lêda, nem dos lotes combinados em duas ou três propriedades, como o Esteva. Pelo conceito, pelo preço e pelo perfil, este D. Antónia é um vinho especial, um vinho de colecção – até porque só se produziram 4000 garrafas. A Touriga Franca domina o lote e a garantir um carácter austero e o trabalho com a madeira a conferir complexidade sem diluir as notas de fruta vermelha, especiaria (gengibre) e vagas notas fumadas que marcam o nariz. Intenso, com uma estrutura poderosa e ainda adstringente (este é claramente um vinho para deslumbrar daqui a uma década), fruta saborosa na boca, acidez propiciam uma prova de boca longa e deliciosa. Soberbo. (80 €) M.C.

Kompassus Alvarinho Reserva 2015

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A Alvarinho é provavelmente a nossa melhor casta branca: Tem tudo: grande aroma, boa fruta, amplitude e excelente acidez. Não admira, por isso, que esteja a ser plantada um pouco por todo o país. Este tem origem na Bairrada, em vinhos de solo calcário, e é muito bom. Fermentou e estagiou em barricas usadas de 400 litros. No aroma, sobressaem as notas mais cítricas da casta, a par de alguns fumados. Na boca, é caloroso, espevitado e suculento, com muita fruta doce e ácida ao mesmo tempo (que é a mais saborosa) e uma belíssima expressão mineral. Um branco para surpreender algum familiar ou amigo (20€).P.G.

Casa de Santar Vinha dos Amores Espumante Touriga Nacional 2014

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Gostava de oferecer um champanhe mas não quer gastar muito dinheiro? Pense antes num bom espumante português. Os champanhes realmente bons são caros e os mais baratos não valem a pena. Por menor dinheiro do que pagaria por um champanhe banal, pode comprar o novo Casa de Santar Vinha dos Amores Espumante Touriga Nacional 2014, um extra-bruto do Dão. Uma das melhores surpresas dos últimos tempos. É muito perfumado, fino, harmonioso e fresquíssimo (20€) P.G.

Bacalhôa Moscatel de Setúbal Superior 20 Anos (1996)

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Um bom Moscatel é sempre uma boa escolha para oferecer como prenda no Natal. Este, de Setúbal, é um vinho de grande complexidade aromática, muito vivo e picante e de uma exaltante dualidade sensorial, juntando de forma bem proporcionada sabores doces e amargos, salgados e ácidos. Possui enorme profundidade e comprimento, deixando uma grande impressão na memória. Fabuloso (49,90€). P.G.

Quinta do Piloto Colecção da família Tinto 2013

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A casta Castelão tem vindo a perder terreno em Portugal, mas é uma pena, porque, se plantada no solo certo (arenoso e seco) e no clima certo (mais quente), dá vinhos extraordinários e actuais. Tintos muito aromáticos e saborosos, como é o caso deste Castelão de Palmela. Nesta fase, as notas de madeira, resultado de um longo estágio em barrica, ainda estão um pouco presentes, mas não ao ponto de ofuscar a essência da casta, com os seus aromas muito vivos a frutos silvestres (mirtilos e groselhas). Sensações que se prolongam na boca, onde a fruta ganha um carácter mais agridoce. Depois de um ataque mais largo e envolvente, o vinho vai afunilando de forma subtil em direcção ao centro da boca e ganhando amplitude, amparado por taninos elegantíssimos e por uma bela acidez, que compensa bem os 14,5% de álcool. Só foram cheias apenas 950 garrafas (35€). P.G. 

Carcavelos Vila Oeiras

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Embora a tradição do vinho de Carcavelos remonte ao Séc. XIV, a sua produção esteve quase extinta e sobrevive quase só graças a Câmara de Oeiras, que assumiu a obrigação o e o proteger e se tornou no único município produtor de vinho em Portugal. É um vinho fortificado (com aguardente da Lourinhã) e com base nas castas brancas Galego Dourado, Arinto e Ratinho, que são vinificadas em separado. O estágio prolongado em madeira confere-lhe uma cor dourada e notas de frutos secos como amêndoa, mel e especiarias. Grande volume de boca, paladar rico e final persistente. A doçura é bem equilibrada com excelente acidez e notas de raspa de laranja. Excelente para acompanhar sobremesas doces e uma raridade que cumpre preservar (25€). J.A.M.

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