Ana, Catarina e Paulo mudaram de vida

Há um ano, o ioga foi elevado a património da Unesco e Portugal teve uma palavra a dizer. Por ele, há quem tenha até trocado o emprego. Não é exercício físico, uma terapia ou uma religião. “É uma filosofia de vida.”

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Catarina, Paulo e Ana dirigem centros de ioga Nélson Garrido
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No Áshrama Porto — Centro do Ioga reúnem-se professores ?de alguns dos 50 centros do género que existem no país Nélson Garrido
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Jorge Veiga e Castro é o presidente da Confederação Portuguesa do Ioga e da Confederação Europeia do Ioga Nuno Ferreira Santos

Sentados de pernas cruzadas e costas direitas, os alunos ouvem a voz de Catarina Santos Ferreira, que se sobrepõe à música de fundo. “Respiramos lentamente, abstraindo-nos do dia-a-dia e, com as mãos em concha no colo, fechamos os olhos e sorrimos”, norteia. Em silêncio, praticam ioga da Índia que, nesta sexta-feira, 1 de Dezembro, comemorou o primeiro ano de elevação a Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela Unesco. Portugal teve uma palavra a dizer sobre essa distinção.

Catarina Santos Ferreira é directora do Áshrama Porto – Centro do Ioga e a aula a que o PÚBLICO assiste é especial, uma vez que reúne professores de alguns dos 50 centros (áshrama) que existem no país, como é o caso de Ana Martins, 41 anos, e Paulo Pontes, 43, directores dos centros de Vila do Conde e da Póvoa de Varzim, respectivamente, que, tal como Catarina, 48, deixaram as suas profissões para se dedicarem ao ensino desta filosofia de vida que nasceu há 9000 anos na Índia.

O ioga é muito mais do que exercício físico, dizem Ana e Paulo, que estão naquela aula como alunos. “É um darshana, uma filosofia de vida. O iogue [praticante de ioga] tem um emocional sempre positivo, utilizando igualmente técnicas de descontracção e de combate ao stress, fundamentais na nossa sociedade moderna”, descreve o mestre Jorge Veiga e Castro, presidente da Confederação Portuguesa do Ioga e da Confederação Europeia do Ioga, e que foi um dos impulsionadores da elevação do ioga a património pela Unesco. “Para ser verdadeiro ioga tem de ser o da Índia, que se esforça por preservar a pureza e potência”, justifica. 

“Em 2015, propusemos ao governo da Índia, ao primeiro-ministro Shrí Narendra Modi, e também ao Governo português que o ioga fosse colocado na grande biblioteca do património da Unesco”, lembra, emocionado, Jorge Veiga e Castro. O passo foi dado há um ano, com a aprovação da proposta, em Adis Abeba, na Etiópia, por todos os países. Importante foi também a oficialização do Dia Internacional do Ioga no solstício de Junho, dia 21, “o chamado Dia da Luz”, pela Assembleia Geral da ONU, em Dezembro de 2014, acrescenta.

Catarina Santos Ferreira, que também lidera a Federação Regional do Ioga Norte, Centro e Grande Lisboa, “tinha uma profissão muito bem paga” como engenheira electromecânica, na capital. Ana Martins era responsável pela comunicação corporativa da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e o marido, Paulo Pontes, era solicitador havia mais de uma década, na Póvoa de Varzim. Catarina foi a primeira dos três a dar aulas e nem sequer conhecia o casal até aquele frequentar as suas aulas na escola onde Ana trabalhava.

Então, o casal percebeu os benefícios da prática desta filosofia de vida e a curiosidade levou-o a ingressar no curso superior do ioga da Confederação Portuguesa do Ioga, em Lisboa. Catarina estudou 14 anos e é mestre. Ana e Paulo estão prestes a entrar no 10.º ano de formação para o grau de professor, o último. “Foi a melhor decisão da minha vida”, conta Ana, que precisou de seis anos para ser instrutora. 

Havia já alguns anos que Catarina tinha deixado, “de um dia para o outro”, a engenharia e morava no Porto. Olhando para trás, a professora lembra-se de ir à sua primeira aula como aluna, em Lisboa, “com uma ideia errada do que era o ioga". "Pensava que era algo muito estranho." Mas não, “o ioga não tinha nada de místico ou religioso” e isso sossegou-a. Também Jorge Veiga e Castro elucida que “o ioga nada tem a ver com uma religião”. É praticado por ateus e pessoas de várias religiões. Também não é uma terapia, porque “se alguém está doente é enviado para o médico”.

Ser mais positivo na vida

Com uma vida acelerada e sob grande stress profissional como engenheira electromecânica, Catarina já estava rendida, ao fim da primeira aula. “Senti-me muito bem, conseguia relaxar, dormir melhor, tinha maior capacidade de concentração e lidava melhor com as equipas que geria.”

Também Ana e Paulo sentiram algo semelhante. “Precisava de ter ferramentas para gerir melhor o dia-a-dia”, lembra Ana que, muitas vezes, começava o dia já cansada com a correria matinal entre levar os filhos ao infantário e ir trabalhar noutra cidade. “Senti uma surpreendente leveza, logo na primeira aula. Em poucos meses, já conseguia dormir bem, com um sono realmente reparador, algo que não me acontecia havia anos”, recorda. O marido deixou de se queixar das muitas tensões musculares que tinha. Depois de Ana o ter convencido, ia de propósito ao Porto, à hora do almoço, para praticar e voltava para a Póvoa de Varzim.

Então, Paulo chegava ao escritório e aquela pilha de processos diminuía logo de tão produtivo e concentrado que se sentia. “Através da conjugação das 14 disciplinas técnicas do ioga, também conseguimos ter equilíbrio emocional, com emoções mais equilibradas e positivas, e uma mente mais cristalina”, diz. Por exemplo, descreve, “aprendemos a relaxar em tensão e, mesmo em esforço físico, aprendemos a respirar serenamente e a mantermo-nos mais focados”. O que depois se traduz no exterior quando, exemplifica, “num momento de stress ficamos serenos e a mente não bloqueia, encontrando rapidamente a melhor solução”.

Ana não quer outra coisa. “Hoje, aos 41 anos, tenho uma vitalidade física, energia e sensação de bem-estar que não tinha antes. Aprendemos a abrandar, passamos a ter mais oxigénio no nosso cérebro e isso dá-nos uma energia e uma clareza mental extraordinárias. E a capacidade de sermos mais positivos na vida”, acrescenta.

O que mudou realmente? “Como mãe passei a ter mais serenidade. Como chefe de equipa a ter a capacidade de ser mais produtiva e tomar decisões mais inspiradas e eficazes.” E continua: “Comecei a sentir-me muito mais saudável, equilibrada e focada."

O casal não mudou de vida de um dia para o outro. Primeiro abriram, em 2009, o Áshrama Vila do Conde e, em 2013, o da Póvoa de Varzim. “As turmas cresceram tanto que tive de decidir. Não conseguia ser um bom solicitador e um bom professor de ioga ao mesmo tempo”, lembra Paulo.

Nenhum dos três está arrependido pela volta de 180 graus que deram nas suas vidas. “Foi a melhor decisão que poderia ter tomado”, garante Catarina. E as mudanças estão bem à vista: “Sou uma pessoa mais positiva, segura de mim, com mais capacidade de me focar nas soluções em vez de nos problemas”, conta, evidenciando que “o ioga trabalha muito o plano emocional”.

Catarina leva o ioga às empresas e às escolas do 1.º ciclo do Porto, no âmbito do Projecto Porto de Crianças da câmara municipal. Também Ana e Paulo levam esta prática às escolas e a empresas. “É muito bom ajudar as pessoas a sentirem-se mais saudáveis e felizes. É algo que me completa e que deu todo um novo significado à minha vida, que passou a ser menos centrada em mim e mais nos outros”, explica Ana. “É uma profissão que gera bem-estar”, conclui.

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