Reportagem

Zé Pedro, "uma generosidade sem par"

Centenas de pessoas prestaram nesta sexta-feira em Lisboa a última homenagem ao guitarrista dos Xutos & Pontapés. Estava lá Marcelo, mas sobretudo muitos músicos e gente anónima de vários pontos do país.

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Era longa a fila junto ao antigo Museu dos Coches, onde centenas se juntaram na homenagem ao guitarrista dos Xutos Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Algures a meio da tarde desta sexta-feira, um anónimo comenta com outro: "É o velório do Zé Pedro. O Zé Pedro era o vocalista dos Xutos." É feriado e estamos em Belém, do outro lado da rua do antigo Museu dos Coches. O velório de Zé Pedro, guitarrista dos Xutos & Pontapés, que morreu ontem, está a decorrer desde as 16h. Dez minutos antes do início do velório, já se viam dezenas de pessoas à espera. Ora agrupadas numa fila que se manteve longa durante o decorrer da tarde, a dar a volta à esquina e a subir pela Calçada da Ajuda, ora em cima do passeio, desorganizadas, com a polícia a pedir para se juntarem mais ao edifício para não parecer que a fila é aquela. Tudo pessoas que queriam vir prestar a última homenagem a José Pedro Amaro dos Santos Reis.

Às 14h tinha havido uma cerimónia privada só para a família. Ao longo da tarde, sejam populares ou figuras públicas do mundo da música e outras artes, são inúmeros os que vão passando por aquele local, com um papel à porta a dizer “Hoje encerrado”. Do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa — que prometeu "uma homenagem em grande" a Zé Pedro a realizar no próximo ano —, ao músico Gimba, que em 1979 deu aos Xutos & Pontapés o seu nome definitivo, passando pela actriz Carla Bolito, o editor David Ferreira, o agente de bandas e empresário da noite Hernâni Miguel, músicos como Manuel João Vieira, Fred Pinto Ferreira — filho de Kalú, baterista dos Xutos & Pontapés —, Ramón Galarza, Samuel Úria, Pedro Gonçalves, Luís Varatojo ou Fernando Tordo.

Este último, em declarações ao PÚBLICO, explica que o pouco que contactou com Zé Pedro foi “um relacionamento de profundidade, de conversa sobre as coisas aquém e além da música”. Recorda o músico como “um personagem especial, como agora tem sido muito falado”. Refere o sorriso de Zé Pedro “como a correia de transmissão de uma profundidade grande, a de um indivíduo que estava muito para além do músico de uma banda tão famosa e importante no nosso país”.

“Se não fosse o Zé Pedro…”

Com Samuel Úria vêm Jónatas Pires e Silas Ferreira, que tocam frequentemente com o músico e eram membros d’Os Pontos Negros, banda que Zé Pedro apadrinhou. Hoje acabada, voltou a reunir-se no ano passado na festa dos 60 anos do músico na discoteca Lux-Frágil, em Lisboa. “Na realidade, se não fosse o Zé Pedro, o nosso percurso teria sido muito diferente”, conta Silas, que fala da forma como a banda trabalhou, a convite do guitarrista, com uma agência que este tinha aberto e, posteriormente, este os ajudou após terem saído da editora Universal.

“Disse para marcarmos um café, contou-nos histórias sobre como ele e os Xutos tiveram alturas complicadas, encorajou-nos. Ele não tinha de o fazer, mas estava nos genes dele ser assim. As nossas palavras não acrescentam muito àquilo que ele foi", conta Jónatas, que insiste na generosidade "sem par" do guitarrista. “O que ele deu eram sempre coisas que ele não tinha de dar. Quem somos hoje beneficiou da maneira como ele era." Lembra "a pessoa que ele foi, mais do que a personagem, mais do que o mito", acrescentado que "ele não precisa de ser humanizado, porque é das poucas pessoas públicas que nunca perdeu o lado humano e nunca foi conhecido por outra coisa.”

Os músicos vão trocando histórias sobre essa generosidade e simpatia de Zé Pedro. Paulo Ribeiro, um roadie que nunca chegou a trabalhar directamente com os Xutos & Pontapés, recorda como conheceu Zé Pedro: “Às 3h ou 4h da manhã, penso que foi em Coimbra, na Queima [das Fitas], com o palco a ser desmontado, e ele não saiu de lá enquanto não cumprimentou toda a gente com um sorriso na cara.” “Essa cena é impagável, no meio, ninguém é obrigado a fazer tal coisa. Falava com toda a gente, com um sorriso na cara, quer conhecesse ou não. Era um miúdo a cumprir o seu sonho, nada de estrelato ou de ego.” Ainda o encontrou várias vezes ao longo dos anos, iam falando sobre “bandas punk, a cena mais antiga”. “Há uma banda chamada Zé Pedro dos Xutos, isso diz tanto sobre o que é uma pessoa”, remata, a realçar a popularidade do guitarrista. Jónatas Pires conta ainda a história de como, uma vez, a sua avó recebeu um autógrafo de Zé Pedro numa Bíblia.

Um grupo de membros do Moto Clube de Faro, em cuja concentração anual os Xutos & Pontapés actuaram várias vezes ao longo dos anos, fez questão de vir, porque, dizem, a banda ficou amiga do clube. Há, aliás, várias outras pessoas com blusões, além de algumas pessoas com lenços vermelhos como os imortalizados por Tim, vocalista dos Xutos, sejam ao pescoço ou, num caso, na zona do joelho por cima de umas calças de cabedal pretas, t-shirts e camisolas dos Xutos & Pontapés. Uma fã na frente da fila traz nas mãos uma t-shirt que exibe perante as câmaras e as objectivas de máquinas fotográficas: na parte de trás diz “Zé Pedro, Paredes de Coura está contigo”, enquanto à frente tem uma fotografia da própria com o músico, o tal que não era vocalista, mas gozava de uma popularidade raras vezes atingida por alguém que não está no centro de uma banda a cantar.