Sida, arte e política

Nas suas manifestações mais radicais, a luta contra a sida foi um momento de efervescência cultural e política que acabou em ressaca.

Podemos ver no filme como se justifica a ideia da sida como epidemia política, no sentido em que foi preciso integrá-la na luta política e não apenas inscrevê-la no discurso médico-científico
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Podemos ver no filme como se justifica a ideia da sida como epidemia política, no sentido em que foi preciso integrá-la na luta política e não apenas inscrevê-la no discurso médico-científico Celine Nieszawer

Segundo o testemunho de Hervé Guibert, um escritor francês que morreu de sida em 1991 (tinha 36 anos), quando se começou a falar publicamente, no princípio dos anos 80, de uma doença desconhecida que estava a atacar os homossexuais, apenas eles, e por isso tinha sido baptizada como “cancro gay”, Michel Foucault reagiu com ironia: “Um cancro que atacasse exclusivamente os homossexuais, não, seria demasiado belo para ser verdade, é de morrer de riso”. Em Junho de 1984, Foucault morreu, vítima do vírus. Na lista funesta de nomes que deram rosto e peso a uma devastação no campo da cultura, das artes e da literatura, nas duas últimas décadas do século XX, os homossexuais têm uma representação tão maioritária que a equação homossexualidade-arte se tornou um tópico recorrente. No filme de Robin Campillo, 120 Batimendos por Minuto, a questão da arte não está afastada da acção reivindicativa do Act Up Paris (com origem nos Estados Unidos), uma associação de luta contra a sida que emergiu da comunidade homossexual, mas é sobretudo a representação política que ganha uma enorme importância. Podemos ver neste filme como se justifica a ideia da sida como uma epidemia política, no sentido em que foi preciso integrá-la na luta política e não apenas inscrevê-la no discurso médico-científico. E isso significou reclamar das instituições políticas uma visão e uma acção que estavam ausentes.

O Act Up definiu-se a si próprio como uma associação contra a sida para soltar as amarras do poder. O seu activismo foi exercido com cólera e violência, inspirado muito explicitamente a das vanguardas artísticas. A imagem do Act Up é o triângulo côr-de-rosa imposto pelos nazis, nos campos de concentração, aos homossexuais, acompanhado por um slogan que diz “Silêncio=Morte”. Esta imagem foi criada em Nova Iorque, em 1986, por um grupo de artistas que tinha ligações com figuras cimeiras do panorama artístico nova-iorquino, tais como Barbara Kruger, Jenny Holzer e Cindy Sherman. A estratégia do Act Up Paris consistiu em escandalizar e inverter o estigma da doença, associada que ela estava à promiscuidade, à culpa, à ideia de punição. A reivindicação pública da seropositividade e da homossexualidade constituíram então um elemento essencial para tornar pública a luta contra a epidemia. E a eficácia dessa luta, pensada em termos de guerra, como nos mostra o filme de Campillo, necessita do recurso à violência e a meios considerados brutais. O objectivo era tornar visível a violência institucional da administração, dos responsáveis políticos e científicos, dos laboratórios farmacêuticos. Houve várias formas de violência: simbólica (através do outing, isto é, da revelação da seropositividade e da homossexualidade de figuras públicas), verbal e física. Mas o activismo vanguardista do Act Up foi muito mais do que isso, foi também um momento de criatividade política e cultural. De certo modo, ele ecoava ainda de maneira melancólica o Maio de 68. O filósofo e linguista Jean-Claude Milner, maoísta nos seus tempos de formação e juventude, escreveu que a sida, “na sua forma obscura e ao mesmo tempo transparente, é o cadáver de ’68”.

Susan Sontag analisou a sida como metáfora. Uma análise pertinente, já que tais metáforas proliferaram (um exemplo é a “sida mental”) e serviram para criar em torno da doença um imaginário terrível, que condenava os doentes a uma rejeição e isolamento totais. Mas ela foi também uma metáfora para a época e uma metáfora da época. Uma das provas da aceleração da história é o esquecimento a que esses tempos tão próximos foram votados. O filme de Campillo não é um filme histórico, é um exercício da memória, com as sua questões éticas e estéticas.

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O “efeito sida” no campo das artes não foi apenas o do luto pelos artistas e escritores que morreram. A par da representação política, houve de facto uma representação artística e cultural da sida, de tal modo que ela pode ser integrada numa história cultural. E isso foi percebido desde muito cedo. No seu número 43 (Inverno de 1987), a October, uma importante revista americana de crítica de arte publicada pelo MIT Press, era inteiramente dedicada à sida. Na capa, podia ler-se este título: “AIDS – Cultural Analysis, Cultural Activism”. O artigo de apresentação do número era assinado por Douglas Crimp, que mais recentemente publicou um livro sobre a representação da sida na fotografia. Mas talvez o seu livro mais conhecido, neste domínio, seja Melancholia and Moralism: Essays on AIDS and Queer Politics. É um livro de 2002 cujo objecto é o conservadorismo da política gay que se seguiu a esses anos de activismo, e uma verificação de que nada resta dessa efervescência artística e política. A ressaca desses anos de convulsão e de luta significou o regresso a um moralismo que tinha sofrido uma forte derrota. Antes do activismo de associações como o Act Up, era possível fazer de conta que os homossexuais eram pessoas desconhecidas. A partir desse momento, tal deixou de ser possível. Até porque a doença originou a confissão pessoal, o testemunho na primeira pessoa, a auto-reflexão e a chamada auto-ficção. Em 1987, teve um enorme impacto público, não apenas em França, o testemunho do historiador francês Jean-Paul Aron, com o título Mon sida. Era a época em que trazer consigo o vírus era como ter-se transformado num mutante, como escreveu uma vez Hervé Guibert: “Por vezes, tenho o sentimento de que somos dezenas de milhares de mutantes no meio da multidão, aqui em Paris”. E o artista americano, nascido em Cuba, Felix González-Torres (que morreu de sida em 1996, com 38 anos), disse uma vez que queria ser “um vírus no interior da instituição”.

Foi já no final dos anos 80 que a sida deixou de ser vista publicamente como a doença dos homossexuais. Mas, para estes, ela teve um efeito de longe muito mais forte. Um efeito que não foi apenas negativo e não se mede apenas pelo número das vítimas: a sida acabou por ser, paradoxalmente, e graças a uma luta pela representação política, um grande integrador dos gays na sociedade. 

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