“Queríamos ser soldados das ruas e usar o nosso corpo até morrer. Foi incrível.”

120 Batimentos por Minuto é uma visão épica dos activistas da luta contra a sida. Cheios de energia, de desejo, intencionalmente sensuais, ainda que a morrer. O filme de Robin Campillo, com estreia a 7 de Dezembro, é a geração dos seropositivos a falar dela e de uma época gloriosa, ainda que rodeada por doença e morte. Falámos com alguns desses activistas. O que diz este filme sobre o presente?

Aparentavam ser membros de uma banda pop, abertos no assumir da doença, autores de slogans que mostravam uma visão irónica da realidade, provocadora, criativa, desesperada
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Aparentavam ser membros de uma banda pop, abertos no assumir da doença, autores de slogans que mostravam uma visão irónica da realidade, provocadora, criativa, desesperada Celine Nieszawer

Interromperam o serviço religioso com gritos e palavras de ordem, em volta deles máquinas fotográficas e câmaras de televisão, crentes ultrajados e enfurecidos, e assim acabaram expulsos da catedral, arrastados pela polícia, depois de exibirem cartazes com o slogan que os tornou célebres: “silêncio = morte”.

Era o Dia de Todos os Santos, na Catedral de Notre-Dame em Paris. Estava lá Philippe Mangeot, mais uma dúzia de activistas, naquela ira contra João Paulo II e outros líderes católicos que rejeitavam o uso preservativo no combate à sida. “Foi a primeira das nossas acções que apareceu em todos os média”, recorda o activista. E tanto pior, porque quando a seguir tentaram almoçar na zona gay da capital francesa já estavam desacreditados pelas imagens que a televisão tinha exibido da Notre-Dame profanada. “Quisemos entrar num restaurante do Marais e simplesmente não nos deixaram”, recorda Mangeot, 52 anos. “Diziam que éramos uma vergonha para a comunidade gay. Para ser sincero, muitas pessoas odiavam-nos, por causa dos nossos métodos. Na imprensa, e mesmo dentro da comunidade gay, houve quem me chamasse fascista, o que obviamente não correspondia à verdade.” Estávamos em 1991.

Filho de um administrador da Glaxo-Wellcome – laboratório que produzia o AZT, primeiro medicamento para o vírus da imunodeficiência humana (VIH) –, Philippe Mangeot entrou para a Act Up Paris em 1990, quatro anos depois de lhe diagnosticarem o vírus. Tinha estudado literatura na École Normale Supérieure de Paris e a primeira tarefa que lhe coube foi a de escrever textos e cartazes para a associação. “Fazíamos de tudo um pouco. A Act Up era muito pequena, não ultrapassava as duas dezenas de pessoas. Só em 1996, quando tivemos o maior número de sempre, é que passámos a ser duzentos.”

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Paris, 1995, intervenção do Act Up francês, organização fundada em 1989 inspirada na Act Up Nova Iorque, criada em 1987 por activistas descontentes com a passividade de políticos e cientistas na resposta à “doença do século” Daniel Giry/Sygma via Getty Images

Haveria de ser presidente de 1997 a 1999, até ao afastamento total em 2003. Hoje é professor no ensino superior e enche-se de melancolia quando fala de 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo, cujo argumento ajudou a escrever. O filme recria uma parte da história da Act Up Paris e chega a Portugal a 7 de Dezembro, depois de uma fulgurante performance no mercado francês – e de Cannes trouxe o Grande Prémio do Júri, segunda distinção mais importante do festival.

“O filme é a acção mais estranha de sempre da Act Up: feita em 2017 por uma Act Up que existiu nos anos 90. É uma obra de ficção, mas também um documento histórico, apesar de todas as personagens juntarem características de várias pessoas. É tudo verdade e nada é real”, resume Mangeot. “Simbolicamente, o filme é ainda uma das performances da Act Up Paris.”

Performance é a palavra. O grupo inspirou-se num modelo americano: a Act Up Nova Iorque, AIDS Coalition to Unleash Power, criada em 1987 por activistas descontentes com a passividade dos políticos e cientistas, e de outras associações gay, na resposta à “doença do século”. Apresentavam a síndrome da imunodeficiência adquirida como uma “crise política” e censuravam os lucros da farmacêutica que produzia o AZT. Os alvos principais foram a administração Reagan, imóvel no combate à doença, e a autoridade americana do medicamento, FDA, que não queria acelerar a aprovação de novos medicamentos anti-retrovirais mais eficazes que o AZT. “Act Up, Fight Back, Fight Aids”, gritavam nas ruas, em acções de choque e pavor, com uma carga performativa nunca vista. Um desses activistas era o mítico Larry Kramer, que no início dos anos 80 tinha ajudado a criar uma linha telefónica para ajudar os primeiros infectados, a Gay Men’s Health Crisis.

“Tínhamos contactos com a Act Up Nova Iorque, mas não havia ligação oficial”, explica Mangeot. “Naquela altura, qualquer pessoa no mundo podia criar uma Act Up sem precisar de pedir autorização. Não havia uma federação, não havia direitos de autor.”

Assim foi que apareceu em Paris, em 1989. Primeiro presidente: Didier Lestrade, mais tarde responsável pela revista Têtu, financiada pelo magnata Pierre Bergé e fundamental na construção do novo homossexual, consumista e emancipado. “Como jornalista, fui enviado para Nova Iorque em 1987, ano em que surge a Act Up, e fui o primeiro gay francês a assistir às reuniões deles e a escrever sobre isso em França”, lembra Lestrade, 59 anos, então ao serviço da revista Le Gai Pied. “Conheci Larry Kramer e outros destacados líderes da Act Up Nova Iorque, sobretudo mulheres lésbicas. Esperei que alguém criasse um grupo semelhante no meu país. Como nada surgiu em dois anos, avancei eu. Nunca na vida tinha sido activista. Mas era seropositivo desde 1986 e lia tudo o que podia sobre a doença.”

As revindicações do original americano e da célula francesa eram idênticas. O logótipo também: um triângulo cor-de-rosa, reinterpretação orgulhosa do símbolo aplicado pelo nazismo às fardas dos homossexuais deportados para campos de concertação. Porém, na dimensão, houve grandes diferenças entre os dois grupos.

“Eles tiveram 300 pessoas na primeira reunião, nós tivemos 15”, conta Lestrade, que se juntou a Pascal Loubet e Luc Coulavin para fazer a arrancar o projecto. Além disso, o grupo nova-iorquino era “bastante informal, sem líderes oficiais”, segundo Lestrade, enquanto o de Paris foi “piramidal desde o início, com direcção, presidente, secretário e alguém que controlava as contas”.

Portugal à margem

Várias Act Up vão surgir no início da década em toda a Europa: Bélgica, Holanda, Suécia, Polónia, Áustria, Alemanha, Inglaterra. Nenhuma com a força das estruturas americana e francesa, mesmo se ambas existem hoje com pouca energia, em parte esvaziadas desde o notável acontecimento de 1996 que foi o início da venda dos inibidores de protease, medicação anti-retroviral que parece ter terminado com a escala exterminação até aí conhecida no Ocidente.

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As sequências de reunião recriadas em 120 Batimentos por Minuto, memória do próprio realizador, Robin Campillo, que foi membro do Act Up nos anos 90

Da transgressão Act Up em fins de 80 Portugal ficou à margem. A sida chega aqui em 1983, primeiro caso documentado, torna-se epidemia em meados de 90, atinge o pico nos inícios de 2000. Mas por falta de autonomia política e independência financeira o nosso activismo-sida nunca se tornou Act Up, e dificilmente o teria sido hoje, em reivindicações como a da muito mediática “profilaxia pré-exposição”, ou PrEP, terapêutica que alguns comparam a uma vacina temporária contra o VIH.

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Sophie Bassouls/Sygma/Sygma via Getty Images

“A Act Up nasceu das comunidades gay que estavam estruturadas e organizadas, primeiro nos EUA, depois em França”, contextualiza Pedro Silvério Marques, 70 anos, um dos poucos portugueses que assumem em público a condição seropositiva. Lembra-se de ter conhecido membros do grupo francês por volta de 1992, ano em que ajudou a fundar a Abraço, associação lisboeta de apoio a pessoas com VIH – na qual se destacaram por muito tempo Margarida Martins, hoje presidente da Junta de Freguesia de Arroios, em Lisboa, e a médica Maria José Campos, até há poucos meses ligada ao Grupo de Activistas em Tratamentos (GAT).

Formado em economia, Silvério Marques foi director financeiro de um grupo empresarial inglês, depois tornou-se quadro do grupo Espírito Santo, até à reforma, em 2003, e nunca esteve a tempo inteiro na Abraço. Conta que se descobriu portador do vírus em Dezembro de 1987, depois de ter pedido análises a um médico do Instituto Português de Oncologia, em Lisboa. “Durante um check-up pedi-lhe a análise. Não desconfiava de nada, embora não tivesse tomado precauções de forma consistente, e sabia quais eram. Não tinha qualquer sintomatologia. Ia iniciar uma relação nova e achei que era importante fazer a análise”, relembra. “Estava preparado para qualquer resultado, não foi um choque.”

Quando entrou para a Abraço, desconhecia os meandros do activismo, por isso passou algumas semanas em Paris e Londres a fazer estágios noutras associações. “Foi assim que tive contactos com o grupo Traitements-5, uma federação de associações francesas de luta contra a sida, onde se incluía a Act Up Paris. Ainda hoje acho fantástico o trabalho que fizeram. Conseguiram que os medicamentos para o VIH fossem aprovados mais depressa e levaram os governos a investir mais nesta área”, avalia, acrescentando uma nota. “A imagem que temos da Act Up, com manifestantes amarrados ou deitados no chão, não foi a única forma de actuação que tiveram. Lembro-me de que no grupo Traitements-5 a postura dos representantes da Act Up Paris não tinha nada a ver com gente aos gritos. Eram muito incisivos no que diziam, sabiam o que estava em causa em termos do conhecimento científico sobre a sida e os tratamentos. Sabiam analisar e discutir com enorme complexidade. A dimensão de protesto público foi apenas a face visível da Act Up.”

A energia dos desesperados

É nisso que investe 120 Batimentos Por Minuto. Nas cenas de contestação intrusiva, caótica. E talvez violenta, mas o adjectivo não é unânime. Entravam na sede de laboratórios farmacêuticos e atiravam contra a parede sacos de plástico com líquido vermelho, a imitar sangue. Interrompiam conferências e intervenções de políticos. Uma vez, algemaram o director da agência francesa contra a sida, Dominique Charvet (1942-2009). Noutra ocasião, mandaram um ministro à merda em directo na TV. Porta-vozes de homossexuais, hemofílicos, migrantes e toxicodependentes, contestados por todos os lados, tinham a energia dos desesperados e acreditavam que a resposta teria de vir da ciência e dos dirigentes políticos. Pelo contrário, grupos designados como dissidentes ou negacionistas da sida, caso da efémera Act Up São Francisco, mas não apenas, defendiam que a doença não é causada pelo VIH e que a medicação anti-retroviral destrói o sistema imunitário, preconizando regimes alimentares de matriz vegetariana, o que lhes granjeou descrédito público, mesmo se essas dúvidas saltaram e se mantêm na academia, nomeadamente nos estudos sociais da ciência.

Philippe Mangeot não tem dúvidas: a Act Up “mudou o activismo em França”. Até então os movimentos sociais eram “trabalhistas, obreiristas, situavam-se na extrema esquerda ou vinham dos sindicatos”. A reivindicação central era o trabalho. De repente, a Act Up pôs na agenda a saúde e as políticas de identidade. “Foi uma novidade no contexto francês, não existia na Europa, tinha vindo quase tudo da América. Tínhamos métodos novos. Fazíamos happenings, era um activismo artístico, uma forma nova de estar na rua. Além disso, falávamos em nome próprio. ‘Eu sou gay, eu sou seropositivo’.”

Aparentavam ser membros de uma banda pop, cabelo curto como skinheads, alegremente abertos no assumir da doença, autores de slogans que mostravam uma visão irónica da realidade, provocadora, criativa, desesperada, caso da muito citada frase “des molécules pour qu'on s'encule” (medicamentos para os que levam no cu).

“Convertemos a vergonha em orgulho”, comenta Mangeot. “Éramos jovens urbanos, muitos de nós tinham uma formação académica acima da média. É quase um discurso preconceituoso, mas era assim mesmo. Foi isso que ajudou a tornar o grupo aquilo que ele foi: cheio de energia, cheio de desejo, um grupo intencionalmente sensual.”

A Act Up Nova Iorque sempre justificou os seus métodos com os conceitos de desobediência civil e de resistência pela não-violência. Outros, por eles, teorizaram sobre “apropriação do espaço público” e performance de rua radical”. Ou “activismo dandy”, como disse no Libération o realizador Robin Campillo, que foi também membro da Act Up Paris.

A intimidade era por fim política, à maneira dos movimentos americanos de contracultura nos anos 60 e 70. “Tudo em nós era transparente: sair do armário, assumir a condição de seropositivo, registar tudo por escrito, para que qualquer um pudesse saber o que fazíamos. Uma atitude rara, comparada com a de outros grupos LGBT e partidos políticos”, afirma Didier Lestrade. “Foi uma época gloriosa, ainda que estivéssemos rodeados por doença e morte.”

Mangeot – que, além co-argumentista em 120 Batimentos por Minuto, ajudou a escrever, há três anos, Les Nuits d'été, de Mario Fanfini, seu companheiro por uma década – romantiza agora a época. “Foi um grupo esplêndido e vivo, em todas as dimensões. Sabíamos que tínhamos de ser sexy para nos tornarmos um grupo da moda. Era gente inteligente, enérgica, forte. E, no entanto, estávamos doentes. Éramos desejáveis e novos e elegantes. Queríamos ser soldados das ruas e usar o nosso corpo até morrer. Foi incrível.”

Em Portugal, por contraste, “não tínhamos nada”, descreve Pedro Silvério Marques. “Nos EUA ou em França os homossexuais tinham experiência de associativismo. Nós tivemos uma organização criada pelo António Serzedelo, logo em Maio de 1974, que foi o Movimento de Acção Homossexual Revolucionária, uma estrutura fechada e com pouco impacto público. Os homossexuais em Portugal não se assumiam, tinham guetos em que conviviam uns com os outros. Não havia espaço para que pudessem debater ou tomar algum tipo de iniciativa ao estilo Act Up.”

Além disso, o grupo mais afectado pela sida em Portugal, depois dos homossexuais, foi o dos toxicodependentes (ou utilizadores de drogas, na designação actual). “Por razões óbvias, é uma comunidade desestabilizada, desestruturada, marginalizada e perseguida criminalmente, portanto, sem capacidade de se organizar e tomar posição”, sublinha Silvério Marques.

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Mangeot acha a explicação incompleta, já quem em Espanha os homossexuais também não tinham tradição militante e mesmo assim houve um assomo de Act Up, através da associação La Radical Gay, que operava no bairro de Lavapiés. “Foi fundada por um ex-namorado meu, que era espanhol”, precisa Mangeot. “Por outro lado, em Inglaterra a comunidade gay estava muito organizada e a Act Up nunca teve ali muita expressão. Porque é que eclodiu em França com tanta força, não sei. O país foi brutalmente afectado pela epidemia, por causa de decisões políticas, e isso talvez tenha sido determinante. E também teve que ver com as pessoas. Se cinco pessoas quiserem que as coisas funcionem, funcionam mesmo.”

Activismo por elites

Facto é que até ao fim de 1987, ano da criação da Act Up Nova Iorque, se registavam em Portugal 81 casos acumulados de VIH. Em Espanha, 624. Em França, 2.525, de longe o número mais alto entre os países que haviam reportado à Organização Mundial de Saúde. Quanto aos EUA, um cenário devastador: mais de 50 mil infectados até aquele ano, dos quais cerca de 48 mil já tinham morrido. De acordo com o investigador Fernando Cascais, em artigo de 2006 na “Revista Crítica de Ciências Sociais”, da Universidade de Coimbra, o movimento associativo gay e lésbico – ou, de forma mais abrangente, lésbico, gay, bissexual e transgénero, LGBT – só foi possível em Portugal depois do 25 de Abril de 1974, mas a instauração da democracia não foi condição suficiente. Quando esse associativismo se impõe, já na década de 90, está ligado ao “património emancipatório das esquerdas” e “ganha impulso no seio de um processo mais vasto de combate à epidemia de sida”. Pedro Silvério Marques diz o mesmo por outras palavras: “O activismo gay em Portugal nasceu do activismo em torno do VIH. Nos EUA e em França foi ao contrário.”

Primeiro, o brevíssimo Colectivo de Homossexuais Revolucionários, em 1980. A seguir, o Grupo de Trabalho Homossexual do Partido Socialista Revolucionário, em 1991 – até à integração do PSR no Bloco de Esquerda, transformando-se o GTH no colectivo Panteras Rosa. A primeira associação LGBT formalizada será a ILGA Portugal, em 1996, “criada por pessoas que estavam na Abraço, como o Gonçalo Diniz, que continuou a ser activista da Abraço mesmo depois de fundar a ILGA”, como explica Pedro Silvério Marques. “No início, a ILGA foi fortemente apoiada pela Abraço do ponto de vista logístico”, acrescenta.

Acontece que, no dizer de Fernando Cascais, o activismo-sida português se constituiu, “grosso modo”, por “elites de técnicos e profissionais de saúde, psicólogos e uma ou outra figura pública”, o que diminui hipóteses de radicalização. Por outro lado, segundo a investigadora Ana Delicado, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, “o surgimento dos primeiros casos de sida em Portugal não foi seguido pela emergência de organizações não-governamentais, mas sim por uma resposta por parte do Estado”. Num capítulo do ensaio colectivo VIH/Sida e Ciências Sociais: Diversidade e Percurso de Investigação (2014), Ana Delicado regista que as organizações portuguesas da área do VIH tinham três tipos de actividades principais: prevenção, prestação de serviços a seropositivos e reivindicação, mas naquela época, como hoje, estavam “em larga medida dependentes do Estado, sobretudo em matéria de financiamento, acabando por se integrar na lógica de subcontratação dos serviços sociais, típica da retracção do Estado-providência”.

Desde sempre, a maior fatia do financiamento saía da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida (CNLCS), na dependência do Ministério da Saúde. A comissão teve origem em 1985 no Grupo de Trabalho da Sida, liderado pela médica Laura Ayres.  

Compare-se com a realidade francesa. Pelo menos no início, a Act Up Paris foi totalmente independente, segundo Didier Lestrade. “Fomos intransigentes na viabilidade financeira da associação e criámos vários grupos só com o objectivo de angariar dinheiro com a venda de t-shirts, organização de eventos e parcerias com bares e discotecas. A minha grande preocupação era a de não ver repetido o que já tinha visto noutras estruturas: alguém fugir com o dinheiro. Tínhamos uma vigilância apertada da nossa situação financeira.”

Isso haveria de mudar, prossegue o activista, que entretanto voltou costas à Act Up. “Só em meados dos anos 90, depois de longo debate, é que aceitámos receber fundos de empresas farmacêuticas, fundos esses que se destinavam a actividades da Act Up que iam contra essas mesmas empresas farmacêuticas. Não recebíamos dinheiro do Estado e essa foi a nossa força, em comparação com outras associações francesas contra sida.”

Ora, em Portugal, palavras de Pedro Silvério Marques, “o dinheiro público serviu para satisfazer uma boa parte das organizações contra a sida”, retirando-lhes voz como contra-poder. “As que não ficaram satisfeitas, tendencialmente aumentaram a componente de prestação de serviços, o que conduziu a uma cisão entre a direcção e os fundadores, porque a vertente de intervenção política estava a desaparecer.” Foi assim na Abraço, no início dos anos 2000.

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Manifestação no dia 1 de Dezembro de 1994, Campos Elíseos, Paris Alexis DUCLOS/Gamma-Rapho via Getty Images

“Ao início, sugeriu-se nas reuniões da Abraço adoptar métodos semelhantes aos da Act Up, mas isso não tinha grande receptividade por parte dos militantes”, diz Pedro Silvério Marques. “Tomámos muitas vezes posições frontais contra decisões políticas, mas nunca com impacto público, mais ao nível do gabinete, dos comunicados, das reuniões ou conferências sobre o tema.”

Odette Ferreira, rosto do Estado nesta área, dirigiu a CNLCS entre 1992 e 2000. Tem agora 92 anos e refere que só aceitou o cargo “para salvar vidas, mais nada”. Teve conflitos com a Abraço - “do primeiro ao último dia, devido à desonestidade deles” - mas diz que nunca tentou controlar o activismo, apenas impunha o cumprimento de obrigações legais. “Não tenho medo de falar, sou determinada, e talvez a Abraço não gostasse disso. Agora, nunca houve divergências políticas, eram divergências de gestão. A não ser que considerassem divergência política eu vigiar os projectos que a Comissão financiava. A Abraço não fazia uma boa gestão dos dinheiros públicos e entendia que eu não tinha de vigiar e exigir justificação dos gastos, achavam que eram atitudes do tempo do Salazar.”

Professora catedrática de microbiologia na Faculdade de Farmácia de Lisboa, que chegou a dirigir, tinha-se tornado conhecida em meados de 80 ao ser responsável pela descoberta do VIH tipo II, uma segunda estirpe do vírus da sida, com anúncio público em 1986 na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. A patente, porém, nunca lhe pertenceu, por a descoberta ter ocorrido no Instituto Pasteur, em Paris, quando a investigadora integrava a equipa do virologista Luc Montaigner, que ficou com os créditos.

“A importância desta descoberta foi um terramoto”, comenta Odette Ferreira. “De repente, todos os laboratórios que fabricavam testes para o VIH, e que davam negativo, tiveram de deitar os testes para o lixo. Pensava-se que a África Ocidental era imune, que ainda não tinha lá chegado o vírus da sida, e então percebeu-se que tinham 25% da população infectada com o VIH II. Esta descoberta salvou milhões de vidas.”

A CNLCS está hoje transformada em Programa Nacional para a Infecção VIH, Sida e Tuberculose, integrado na Direcção Geral da Saúde (DGS), e no ano passado financiou 28 projectos de organizações da sociedade civil, num total de 2,6 milhões de euros. Abraço, Associação Positivo e GAT foram alguns dos destinatários.

Além do dinheiro público, as organizações recebem financiamento da indústria farmacêutica, o que por vezes é descrito como um conflito de interesses. Em muitos países, desde logo nos EUA, estas estruturas deixaram há muito de ter base comunitária, profissionalizaram-se e abandonaram a intervenção política pura. Recorrem quase todas a financiamento da indústria dos medicamentos. Podem ser vistas como organizações que recrutam doentes, através de rastreios, e os remetem para o consumo de produtos dos seus próprios financiadores, imagem sugerida em reportagem recente do New York Times, intitulada The CEO of HIV.

Para Silvério Marques, “a decisão política de fornecer medicamentos logo em 1989 moderou as reacções e fez com que o confronto não precisasse de surgir em Portugal”. “Houve o desarmadilhar do problema”, afirma. “Aceitou-se a tese que o poder político tinha: dar medicamentos, que representavam a esperança. Essa medida foi correcta, mas depois o Estado, através dos vários ministros da Saúde, não fez nada na prevenção, nada digno desse nome. Nós, que estávamos envolvidos, dizíamos que a prevenção era, e é, vital, mas isso não é um tema que dê protestos visíveis e mediáticos.”

Numa reedição do velho braço de ferro, Odette Ferreira contradiz com vigor esta opinião. “Não é verdade que não apostássemos na prevenção. Eu tinha quatro campanhas por ano: para o público em geral, para toxicodependentes, para homossexuais e uma campanha no Verão só dirigida à juventude. Cada uma com uma linguagem diferente. Também fui a primeira a ir às escolas. As melhores campanhas de prevenção fui eu que as fiz”, garante.

Temos de inventar alguma coisa nova

Mas voltemos ao presemte. 120 Batimentos por Minuto parece apontar para o presente. Será que a agitação Act Up sobrevive? “Em grupos feministas, como as Femen, e até em movimentos de extrema-direita e anti-imigração”, analisa Mangeot. E será que essa agitação pode agora ocorrer em Portugal em torno da reivindicação da PrEP? “O GAT mantém essa ideia no papel, mas não creio que vá levantar muito a voz, porque na prática tem sido completamente atento, venerador e obrigado em relação a este governo, e já ao anterior. É quase uma DGS para o VIH, em versão dois”, lamenta Pedro Silvério Marques, que colaborou com aquela associação nos últimos anos e saiu desiludido (e que falou ao Ípsilon antes de 28 de Novembro, dia em que a DGS publicou um conjunto de regras que abrem a porta à utilização da PrEP em Portugal).

A medida preventiva mais discutida agora é, precisamente, a da PrEP, uma medicação que alegadamente protege do VIH quem a toma regularmente. É recomendada pela OMS e pela Comissão Europeia e por cá tem sido reivindicada por activistas em nome pessoal ou ligados ao GAT. Aguarda-se que chegue a Portugal a qualquer momento.

A sida é hoje uma doença crónica, mas ainda uma grave inquietação. Entre 1983 e 2016, morreram 11 mil pessoas com a doença em Portugal e foram notificados cerca de 56 mil casos, segundo a DGS. Só de Janeiro de 2016 a Abril de 2017 apareceram 841 novos casos, número acima da média europeia – e é público e notório que os números oficiais estão aquém da realidade. Estima-se que em 2018 o Serviço Nacional de Saúde tenha gastos de 186 milhões de euros em medicamentos anti-retrovirais, comparticipados por inteiro.

A medida principal em termos de prevenção, sustenta Pedro Silvério Marques, é a educação sexual. “Mas andamos com pinças a tratar os temas. Os médicos não falam sobre sexualidade com os seus doentes. As raparigas, nas consultas de planeamento familiar, têm alguma coisa, mas os homens não. As escolas ou as associações de pais não autorizam a distribuição de preservativos. O sexo é um tabu”, argumenta.

Adianta que tem estado a desenvolver um estudo junto de 150 médicos e enfermeiros de três Agrupamentos de Centros de Saúde de Lisboa, com inquéritos sobre o VIH, e que tem obtido “resultados assustadores”. “São profissionais de saúde e pensam que o VIH se transmite pela saliva, pelo beijo e talvez pelo leite materno.”

Philippe Mangeot, vendo de fora, pede mais batimentos por minuto: “Um movimento destes não poderia existir da mesma maneira hoje e ainda não inventámos um activismo adequado à realidade actual. Hoje, provavelmente, faríamos encontros uma vez por mês e tudo se passaria na internet. Não haveria um sentimento de comunidade e os conflitos seriam mais ásperas, porque uma discussão por escrito, na net, é muito mais áspera do que quando se discute na mesma sala. Se o filme diz alguma coisa sobre o agora é que temos de inventar alguma coisa nova.”

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