Monserrate: A casa de um milionário inglês que competia com o rei de Portugal

Eram praticamente da mesma idade (quatro meses de diferença) e os dois apaixonados por Sintra e por arte. Um casou com a rainha de Portugal e construiu o Palácio da Pena. O outro era um comerciante inglês que fez de Monserrate a sua Downton Abbey. Estavam sempre a competir.

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Francis Cook (de chapéu escuro, sentado) e amigos em Monserrate Banco de Imagens Carlos Relvas
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Retrato de Francis Cook (c. 1890) Robin Briault | National Gallery of Art de Washington
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Carlos Relvas, Francis Cook e seus convidados num baile de máscaras Banco de Imagens Carlos Relvas
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A biblioteca em 1902 David Knights-Whittome
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A sala de jantar em 1902 David Knights-Whittome

Olhando as fotografias que dele se conhecem em Monserrate, não é difícil imaginá-lo a percorrer a quinta de burro com os amigos para apreciar os jardins cheios de espécies exóticas, cascatas e ruínas aos gosto da época. A Sintra romântica dos escritores e poetas britânicos, sobretudo a de Lord Byron e de William Beckford, que chegou a arrendar o palacete que ali existia antes da chegada de Francis Cook, fascinava este homem de negócios que fez fortuna pegando na empresa do pai, que negociava em tecidos, e viajando pela Europa e pelo Médio Oriente. Os jardins eram também o cenário ideal para as festas em que os donos desta  casa de Verão e os seus convidados se mascaravam, retirando para o interior do palacete quando a noite se aproximava, para jantar e passar o serão nas salas do bilhar ou da música, onde hoje já está montada a árvore de Natal, junto ao piano.

É para celebrar os 200 anos do nascimento de Francis Cook (1817-1901), o inglês que comprou a quinta de Monserrate em 1856 e reformou o palacete onde Beckford tinha vivido, que abre hoje a exposição Monserrate Revisitado – A Colecção Cook em Portugal (até 31 de Maio). Reúne no pequeno palácio mais de 50 obras de arte (pintura, escultura, mobiliário, porcelana, têxteis ou ourivesaria) que pertenceram ao seu valioso recheio, disperso por uma série de colecções públicas e privadas na sequência de um grande leilão ali realizado em 1946.

Peças vindas de colecções particulares, do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), da Casa-Museu Medeiros e Almeida e da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, entre outros, ajudam a recriar o ambiente que ali se vivia nos quase cem anos em que o palácio pertenceu à família Cook, e que antecederam décadas de abandono (de 1949 ao início dos anos 2000), até que em 2005 a Parques de Sintra – Monte da Lua, a empresa criada para gerir o património do Estado na paisagem cultural de Sintra classificada como Património Mundial, começou a restaurá-lo.

“A nossa ideia é reconstituir, tanto quanto possível, o interior da casa quando os Cook aqui passavam férias. Queremos fazer deste palácio um museu, à imagem da Pena”, diz ao PÚBLICO António Nunes Pereira, que acumula a direcção de Monserrate com a do palácio sonhado pelo rei D. Fernando II, marido de D. Maria II.

Para isso, e com a orientação de Maria João Neto, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que desde 2010 estuda o palácio e os Cook, a Parques de Sintra está a levar a cabo um projecto de investigação que tem nesta primeira exposição e no volumoso catálogo que a acompanha dois importantes marcos.

A exposição e esta edição, que inclui estudos individuais das peças expostas e textos que contextualizam a evolução da quinta de Monserrate ou traçam o perfil de Francis Cook, são “pontos de partida” para um “trabalho ainda mais ambicioso” que, garante o director, quer devolver às salas do andar nobre do palácio (o rés-do-chão), já inteiramente restauradas, um “ar habitável”.

Até aqui, explica António Nunes Pereira, os visitantes de Monserrate (121 mil em 2016) têm visto um palácio vazio, com as suas paredes cobertas de estuques decorativos e a magnífica porta esculpida da biblioteca, que apetece ver sempre fechada para que não passe despercebida a ninguém. A partir de 31 de Maio poderão começar a ver objectos nas salas e, progressivamente - graças a novas aquisições, empréstimos, depósitos ou réplicas de pinturas, tapetes e mobiliário -, sentir que passeiam por uma casa romântica de gosto inglês.

“É preciso dizer que Francis Cook segue o manual de criação de uma grande propriedade senhorial britânica. Uma propriedade agrícola que é auto-suficiente, com centenas de pessoas a trabalhar, com uma casa que responde, embora mais pequena do que o habitual, a todos os requisitos de uma família riquíssima da época, com espaços separados para mulheres e homens, com grande inovações tecnológicas.”

Em Monserrate, garante, há uma transposição do modelo inglês da casa senhorial, por oposição ao Palácio da Pena, “marcada por símbolos nacionalistas”, como convém à casa dos reis.  

“Francis Cook e D. Fernando estão sempre a competir, como se dissessem 'a minha colecção é melhor que a tua, o meu palácio é melhor que o teu…'. Quando Francis Cook compra o Convento dos Capuchos – compra também umas 15 outras quintinhas para fazer crescer a de Monserrate –, o rei compra logo o terreno do lado [hoje a Tapada de D. Fernando] para que o inglês não consiga ligar as duas propriedades”, lembra Nunes Pereira, acrescentando que, se em tamanho, a Pena supera Monserrate, em conforto, passa-se o oposto. “Aqui havia ‘águas correntes’, como se dizia, aquecimentos nas salas e até luz eléctrica", graças a um gerador instalado no parque. "A Pena, que se saiba, não teve electricidade no tempo de D. Fernando, e o telefone que lá está chegou com D. Carlos [o neto].”

Há até um elevador para ligar a cozinha à copa da sala de jantar e o mesmo sistema para chamar os criados aos quartos que vimos recentemente na famosa série Downton Abbey. “Também em Monserrate temos um ‘upstairs/downstairs’, aquele ambiente que separa senhores e criados.”

Uma madona de mármore

Esta exposição que Maria João Neto comissaria tem num relevo de mármore do Renascimento florentino, representando a Virgem com o Menino e esculpido por Gregorio di Lorenzo (conhecido como o mestre das madonas de mármore), comprado recentemente pela Parques de Sintra, uma das suas estrelas.

“Seria óptimo que pudéssemos localizar e aceder a outras peças como esta, de elevadíssima qualidade, que por aqui passaram”, diz a historiadora, lembrando que Francis Cook, que chegou a ser o terceiro homem mais rico do Reino Unido, tinha uma das melhores colecções privadas de arte do mundo, exposta numa galeria que mandou acrescentar à propriedade onde vivia a maior parte do ano, Doughty House, e que funcionava como um pequeno museu, visitável mediante o pagamento de bilhete.

Em Sintra, garante Maria João Neto, o multimilionário do têxtil fez o mesmo: “À boa maneira inglesa, Francis Cook quis que a sua colecção e o seu palácio pudessem ser visitados. A receita dos bilhetes que vendia aqui era depois entregue à Misericórdia de Sintra, de que foi um grande benfeitor.”

Esta professora da Faculdade de Letras está há sete anos a estudar o palacete no tempo da família Cook, encabeçada por um homem de negócios “recatado, pacato”, que só em 1886 recebeu um título no Reino Unido, o de baronete (D. Luís I deu-lhe o de visconde de Monserrate).

“Sabemos ainda pouco sobre as peças que Cook traz de Inglaterra ou compra em Portugal para pôr em Monserrate, em parte porque o leilão de 1946, que se saiba, não teve catálogo. Mas o que tinha em Doughty House é muito conhecido e percebe-se, pelas colecções a que as peças foram parar, a qualidade excepcional do que comprava. Tinha vários Rembrandts de grande qualidade, obras de Rubens, Murillo, Velázquez, El Greco, um Turner muito conhecido [A Quinta Praga do Egipto], um Antonello da Messina incrível…”

O peso da pintura espanhola na sua colecção deve-se ao facto de ter tido como consultor de aquisições um coleccionador que era um grande conhecedor da pintura italiana e ibérica – John Charles Robinson. É precisamente sob sugestão de Robinson, a quem compra dezenas e dezenas de obras, que Cook se interessa por Grão Vasco (Vasco Fernandes), autor do chamado Tríptico Cook (1510-1530) e pelo Pentecostes originalmente feito para o Convento da Madre de Deus, em Lisboa, cujo paradeiro é hoje desconhecido, explica Maria João Neto. Esta obra, reproduzida no catálogo graças a uma fotografia antiga, é agora, segundo o texto nele escrito por Vera Mariz, atribuído pelo historiador de arte Vítor Serrão à oficina de Vicente Gil e do seu filho Manuel Vicente, pintores régios.

“Estamos agora à procura desta obra do Convento da Madre de Deus e de outras que aqui estiveram e esperamos que esta exposição alerte as pessoas que eventualmente as terão sem saber de onde vieram. Cada peça que encontramos põe-nos mais perto do Monserrate dos Cook, desta casa de Verão de um grande, grande coleccionador.” A relação de Francis Cook com a quinta de Sintra está, na opinião de Neto, intimamente ligada a este seu hobby, que consome recursos astronómicos: “Eu costumo dizer que é Monserrate que impulsiona o seu gosto coleccionista. É por isso que o vejo como a primeira peça da colecção de Francis Cook.”

Uma colecção que tem, pode ler-se no catálogo num texto do consultor de arte John Somerville, obras como Cabeça de Cristo, de Antonello da Messina (hoje no Museu do Louvre); As Três Marias no Sepulcro, de Jan van Eyck (Museu Boijmans van Beuningen); A Adoração dos Magos, começada por Fra Angelico e terminada por Fra Filippi (National Gallery de Washington), Velha Fritando Ovos, de Velázquez (National Gallery da Escócia), A Virgem e o Menino Entronizada, com um Doador, de Crivelli (National Gallery de Washington), e o Salvator Mundi de Leonardo da Vinci que foi recentemente vendido em leilão pela soma recorde de 382 milhões de euros, sem que se saiba ainda a quem pertence (a sua atribuição ao pintor de Mona Lisa, ainda hoje contestada por alguns, não era conhecida à época em que estava em Doughty House, para onde Robinson a comprou pensado tratar-se de um dos seus seguidores, Bernardino Luini).

Ainda que tenha reunido um impressionante acervo com mais de 500 pinturas, cuja unidade procurou manter em testamento, a sua memória como amante da arte perdeu-se um pouco, diz a comissária, em parte porque a sua colecção se dispersou em vendas sucessivas no pós-Segunda Guerra Mundial, quando os negócios da família, entretanto nas mãos de um bisneto que não gozava de grande reputação, dado que tinha casado sete vezes, entraram em derrocada.

“Em Monserrate, Francis Cook tem obras de gosto muito mais exótico, e é por isso que aqui reuniria uma mistura muito interessante de arte europeia, com escultura clássica e obras do Renascimento, por exemplo, e de arte oriental.” Nesta casa de Verão misturava-se, por isso, uma mesa indo-portuguesa com uma Vénus e Meleagro italianos do século XVII, ou uma armadura indiana do século XIX com um relevo flamengo em alabastro, do século XVI, “que durante muito tempo se pensou ser italiano por causa da sua linguagem, mas que é uma obra de enorme qualidade”, diz Anísio Franco, conservador do museu de Arte Antiga, ao qu a peça pertence, apontando para os lugares na parede da escadaria nobre de acesso ao primeiro andar onde ficariam pendurados tapeçarias orientais e relevos semelhantes aos do mestre das madonas de mármore.

“Os Cook andavam com as peças de um lado para o outro na casa. Este relevo de alabastro nem sempre esteve aqui [junto às escadas]. O Estado veio a comprá-lo a Medeiros e Almeida, exercendo o direito de preferência. Isto porque em 1946 o Estado está presentado no leilão, aqui em Monserrate, mas não compra nada.” Explica Anísio Franco que já antes os Cook tinham proposto ao governo de António de Oliveira Salazar que comprasse o palacete com todo o recheio e que o Estado opta por não o fazer, adquirindo a quinta três anos mais tarde, sem nada lá dentro, por um preço superior.

A personalidade de Francis Cook é outro dos temas em que a investigação deve apostar de futuro, defende Neto, para que se possa dar um verdadeiro rosto a este coleccionador que, muitas vezes, se vê “eclipsado” pela personalidade exuberante da sua segunda mulher,  a norte-americana Tennessee (Tennie) Claflin, 28 anos mais nova do que ele.

Tennie, com quem o empresário casa menos de um ano depois da morte da sua primeira mulher, vinha de uma família insólita – o pai arrastava a mulher e os filhos pelo país em espectáculos que envolviam espiritismo e chegou a ser acusado de gerir um bordel – e era uma feroz sufragista, tal como a irmã Victoria Woodhull. Juntas abriram, em Nova Iorque, a primeira agência de corretagem dirigida por mulheres, com sucesso, chegando a candidatar-se a primeira a um lugar no Congresso e a segunda à Presidência dos Estados Unidos.

“É graças a esta mulher algo indomável que Francis Cook se dedica muitíssimo a obras sociais em Sintra. Fundam duas escolas para os filhos dos seus trabalhadores, apoiam a Misericórdia com generosas doações e fazem festas para as crianças que viviam nas sua propriedades, dando tecidos às mães para que as vestissem condignamente.” Mas nem assim Tennie se livrou de ser acusada, pelos filhos de Francis Cook, de ter envenenado o marido.

“Gostava de saber mais sobre ela e sobretudo sobre o que fez em Monserrate. Há ainda tanto que não sabemos.”

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