“Era uma figura icónica deste país e merecia-o”

O músico capaz de momentos de genialidade, a "bandeira do que é o rock em Portugal", o homem de "uma imensa generosidade. Assim é recordado Zé Pedro.

Foto
LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO

Zé Pedro era transversal. Transversal a gerações, as suas contemporâneas e as que vieram depois. Transversal no apreço que lhe manifestam, no momento da sua morte, todos aqueles que com ele se cruzaram. “Sempre admirei a sua capacidade de fazer pontes e entrecruzar pessoas, gostos, grupos, gerações, bem como o seu talento e inesgotável aptidão para unir pela música e pelo som”. Assim reagiu à morte do guitarrista, o ex-Presidente da República que agraciou os Xutos & Pontapés com o grau de comendadores da Nação, em 2004.

Jorge Sampaio conheceu os Xutos & Pontapés nos bastidores de um concerto, dava a banda os seus primeiros passos. Nos anos seguintes, tornar-se-iam, como diz ao PÚBLICO Adolfo Luxúria Canibal, “na bandeira do que é o rock em Portugal”. Nessa bandeira, Zé Pedro ganhou lugar de destaque: “Era uma figura icónica deste país e merecia-o”, assinala o vocalista dos Mão Morta. “É uma geração toda”, diz Rui Reininho. “Eu costumava dizer em brincadeira que ele era o melhor de nós, e continua a ser”, destaca a voz dos GNR. A afirmação pode ser complementada com outra de Luxúria Canibal. Zé Pedro era “uma figura icónica”, “o melhor de nós”, mas “manteve-se sempre simples e próximo das pessoas, apesar de toda a sua celebridade e de todos os holofotes sobre ele e sobre os Xutos. Tudo isso tornou-o um caso único”.

É aquela singularidade que sobressai, testemunho após testemunho. Tó Trips, dos Dead Combo, confessa que se tornou músico “à conta de pessoas como ele”, recordando como nos anos 1980 fugiu de casa com uma “perna ligada” para ver os Xutos & Pontapés no Rock Rendez Vous. Os pais tinham-no proibido, mas nada a fazer. Tratava-se, afinal, dos Xutos e de Zé Pedro, que “era uma estrela e uma referência”.

Paulo Furtado, Legendary Tigerman, lembra “a generosidade em relação a toda a música portuguesa” e o “amor muito grande pela música e pelos músicos”, enquanto Cláudia Guerreiro, baixista dos Linda Martini, assinala que 88, o quarto álbum dos Xutos, “foi o chutar de muitos putos para o rock”. Hoje, aponta que “era um disco dos Xutos, mas Zé Pedro era muito além disso, como se evidenciou nos últimos anos”. Refere-se, por exemplo, ao que acentua o radialista Henrique Amaro. “Aproveitando o seu bom gosto e sabedoria, foi um quebra-gelo que trazia sempre uma frota atrás. Foi assim com os Lulu Blind, com os Braindead, com os Pontos Negros ou com os Capitão Fausto”, elenca o radialista.

Segundo Amaro, “estamos, infelizmente, a viver um momento único": “É a primeira vez que nos morre alguém tão determinante na música eléctrica em Portugal. Já fizemos o luto de músicos muito importantes, mas o Zé Pedro é o pilar da nossa igreja. A ideia de rock em Portugal é muito recente e ele ajudou a edificar esse edifício”. Fê-lo de uma forma única, consequência da sua postura, da generosidade que todos destacam. O que torna a dor da sua morte “tão forte”, acentua Henrique Amaro, é a capacidade que Zé Pedro teve de “aniquilar por completo a distância entre a linha da frente da plateia e o seu amplificador”.

O homem que o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, classificou em comunicado como “um guerreiro da alegria, da vontade de viver, de superar dificuldades, de nunca desistir”, é também o músico que Luís Varatojo, d’A Naifa e ex Peste & Sida, recorda como capaz de momentos de genialidade. “Tinha uma atitude muito forte, que é o mais importante, mais do que a técnica”. Compara-o, nesse sentido, a Keith Richards, dos Rolling Stones, ou Malcolm Young, dos AC/DC. “Os guitarra ritmo nem sempre são os que dão mais nas vistas, mas suportam a banda e às vezes saem-lhes laivos geniais”.

No início e no fim de tudo, estava um facto simples: Zé Pedro “adorava música com uma imensa generosidade, uma coisa forma do normal”. Di-lo Fred Ferreira, dos Orelha Negra, entre muitos outros, filho de Kalú, baterista dos Xutos & Pontapés. Alguém que cresceu tendo Zé Pedro como parte da família. Fred recorda o entusiamo como aquele lhe mostrava novas bandas, recorda-o como “a pessoa mais unânime” que conheceu – “não conheço ninguém que tenha alguma coisa contra ele”. Recorda, acima de tudo, “a alegria de estar a tocar em cima de um palco”. Assim foi no primeiro concerto dos Xutos & Pontapés, em 1979. Assim foi a 4 de Novembro último quando, já muito fragilizado, subiu a palco para o seu último concerto, no Coliseu dos Recreios. Ali esteve, “a tocar e a sorrir”, recorda Fred. Como sempre o vimos. Como o recordaremos.