Música

São sons de mundos e tempos distintos, mas que "vivem e devem viver juntos"

Para Michales Loukovikas, músico e compositor grego, a música deve fugir da monotonia - dos sons que conhecemos e associamos ao quotidiano - levando o público a viajar e a desvendar "lugares e paisagens" nunca antes vistos. Para isso, é preciso juntar várias artes - sons e palavras por vezes de mundos e tempos diferentes, cuja harmonização, apesar de arriscada, funciona. "Há certas pessoas que se consideram especialistas na área e dizem que a música que eu faço é difícil, complicada. A mim não me soa difícil", ri, sentado em cima do palco no Teatro São Luiz, após o ensaio de ARCHiPELAGOS - Passagens, a sua nova aventura musical ao lado da música e compositora Amélia Muge. Este novo projecto luso-grego liga rebético e fado, Hélia Correia e Beethoven, Eurípides e Lopes-Graça, Thomas More e Violeta Parra. "Juntámos aquilo que adoramos", diz Loukovikas. "A nossa música acaba por não ter um só género mas ser multigénero".

Foram dois anos de trabalho, com idas portuguesas à Grécia e com uma residência artística de músicos gregos em Portugal, que deram origem a uma viagem musical que engloba várias referências reais ou mitológicas, sons como fado, rebético, morna, músicas de tradição ancestral ou peças clássicas, e palavras de criação recente ou vindas de referências literárias ou poéticas. "Ao contrário de PERIPLUS, o nosso trabalho anterior, onde criámos um território comum, aqui senti que tive de saltar do abismo porque não havia pontes possíveis. Nunca imaginei cantar a marcha fúnebre de Beethoven com palavras de Hélia Correia. Como fazer isso como se fosse uma canção tradicional?", diz Amélia Muge. "Foi mesmo preciso levar um empurrão. Mas as coincidências aconteciam, os materiais davam-se bem juntos e fomos atrás deles".

ARCHiPELAGOS - Passagens está à venda em disco e estreia esta quarta-feira às 21h no Teatro São Luiz.