No novo Hospital de Lisboa Oriental 80% dos quartos serão individuais

Concurso público internacional é lançado esta quarta-feira. A Parceria Público-Privada (PPP) é relativa apenas à construção e manutenção dos edifícios e terá um custo de 415 milhões, sublinha presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, Rosa Matos.

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Rosa Matos, presidente da Administração regional de Lisboa e Vale do Tejo Daniel Rocha

Aguardado há uma década, o novo Hospital de Lisboa Oriental vai finalmente sair do papel. O concurso público Internacional da parceria público-privada (PPP) para a construção é lançado esta quarta-feira. A presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), Rosa Matos, explica que este será um hospital "organizado em prol dos doentes". Cerca de 80% das camas serão em quartos individuais e terá serviços, como medicina nuclear, que o Centro Hospitalar Lisboa Central, unidade que vai substituir, não tem. Num balanço de quase dois anos à frente da ARSLVT, Rosa Matos fala ainda das transformações previstas para a região com a construção de novos centros de saúde e de dois hospitais de proximidade.

Como é que o novo hospital de Lisboa vai mudar a organização e a capacidade de resposta aos utentes?
Vai ser um hospital moderno, focado nas pessoas e organizado em prol dos doentes e não de serviços. A grande maioria dos quartos, cerca de 80%, vão ser individuais, mas em caso de necessidade alguns podem ter duas camas. Vamos ter uma capacidade para 875 camas, podendo ser alargada com mais 270 camas. Será um hospital onde as famílias possam estar junto das pessoas, os quartos individuais permitirão melhorar o controlo das infecções hospitalares.

Que nova forma de organização é esta?
Com circuitos muito bem delineados, onde os meios complementares de diagnóstico poderão estar agrupados de maneira a dar uma resposta mais eficiente às necessidades dos serviços. Vai ter uma grande área de ambulatório. As pessoas focam-se muito no número de camas, mas devemos ter o número de camas suficientes para responder às necessidades das pessoas. Se perguntarmos, cada vez mais dizem que querem estar no hospital enquanto necessário e, se possível, querem ser tratados em casa, perto da minha família. A filosofia de internar tem de ser revista. Temos de começar a trabalhar muito na prevenção, tanto no idoso como nos jovens. Temos de falar mais numa filosofia de integração de cuidados, de chamar à mesma mesa saúde, educação, segurança social, IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social] e o utente.

Lança o concurso público internacional para o novo Hospital de Lisboa Oriental esta quarta-feira. O que é fundamental estar no caderno de encargos?
O valor do contrato é de 415 milhões, repartido ao longo de 30 anos. É a primeira vez que no continente se faz uma PPP só para a construção, porque a gestão clínica vai ser pública. O caderno de encargos tem de ter o que é fundamental para a prestação de cuidados. Desde o número de camas, de blocos operatórios - estão previstos pelo menos 26 -, vai ter outras especialidades que neste momento o Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC) não tem, como a medicina nuclear, psiquiatria, radioterapia, que neste momento o centro hospitalar tem de externalizar. Com este novo hospital pretende-se que as pessoas tenham tudo dentro do centro hospitalar. Esta dispersão em seis hospitais leva a custos muito elevados. Está previsto que o novo hospital esteja a funcionar no primeiro trimestre de 2023.

A estimativa de poupança é de 68 milhões.
Pode até ser mais.

O que vai acontecer aos seis hospitais do CHLC? O ministro referiu que o S. José poderia ficar como hospital de proximidade e o D. Estefânia uma instituição ligada às crianças.
A actividade clínica destes seis hospitais vai passar para o novo hospital e depois há um espaço de cinco anos para repensar o que fazer àquelas instalações. É preciso perceber o que a cidade de Lisboa precisa para nos podermos reorganizar em torno daqueles seis edifícios. Vai ser criado um grupo de trabalho, que tem de ser com pessoas da Câmara de Lisboa, das associações que se preocupam com o futuro dessas instituições, com o Ministério da Saúde. Penso que tem lógica, e o senhor ministro também já falou nisso, o D. Estefânia ser um espaço dedicado à criança. Porque não um parque de saúde dedicado à criança? Vamos construir lá um centro de saúde que vai estar muito vocacionado para esta área. No S. José já ouviu que está previsto um hospital de proximidade com 200 a 250 camas. Tudo isto está em cima da mesa e deve ser planeado envolvendo as pessoas.

Seria lógico que neste hospital de proximidade funcionasse uma urgência básica?
Não vejo impedimento a que isso possa ser feito. Temos realmente uma população muito idosa, com muita doença crónica. Pode ser no S. José ou noutro sítio.

Mantendo estes hospitais antigos e tendo eles sido vendidos, como funcionarão? 

Nem todos os edifícios foram vendidos [foram vendidos o S. José, Capuchos, Santa Marta e uma parte do Curry Cabral], mas esse grupo de trabalho vai ter também de ter em linha de conta essa questão.

Mais mudanças são esperadas para Lisboa, nomeadamente com a construção de novos 14 centros de saúde.
Esta é uma parceria com a Câmara de Lisboa. A maior parte destes centros de saúde funciona actualmente em prédios de habitação, o que traz entraves. Pretendemos criar novos serviços dentro do centro saúde, como ambulatório para saúde mental, psiquiatria, pedopsiquiatria, juntar a parte dos comportamentos aditivos, alguns com meios complementares de diagnóstico. Com isto pretendo retirar a pressão dos hospitais.

Como é que os hospitais de proximidade de Sintra e Seixal vão ajudar a aliviar os hospitais Amadora-Sintra e Garcia de Orta?
O hospital de Sintra nasce de uma parceria da câmara de Sintra, dos ministérios da Saúde e das Finanças. É um investimento de cerca de 50 milhões de euros. É um hospital de proximidade onde teremos muitos gabinetes de consulta externa, meios complementares de diagnóstico, 60 camas de convalescença, um serviço de fisioterapia e uma urgência básica. Pretendemos que seja um hospital muito resolutivo, em que se entre, faça diagnóstico e se saia, se possível, com um tratamento. E a lógica será a mesma para o hospital de Seixal.

O hospital de Sintra vai efectivamente aliviar a pressão sobre o Amadora-Sintra, que responde a uma população de 600 mil pessoas?
Pretendemos que assim seja. Por isso este novo hospital vai estar sob a gestão do Amadora-Sintra para que esse trabalho seja feito.

Espera-se que este novo hospital abra no primeiro trimestre de 2021. Na mesma altura irá abrir uma unidade privada. Teme que possa criar entraves neste plano ao levar muitos profissionais de saúde?
Acho que não. O sector privado na área da saúde tem um papel que pode ser de complementaridade e não tanto de competição. Cabe também ao SNS [Serviço Nacional de Saúde] ter capacidade de cativar e manter os profissionais de saúde. Não estou a dizer que não existam profissionais que não vão para o sector privado, obviamente que vão, mas neste momento também acontece que estão a sair do privado para o sector público.