Editorial

A geringonça não é "renovável"

Este episódio das renováveis é revelador de como está o Governo e de como a geringonça foi subitamente posta em ponto morto.

Facto 1. O compromisso para a legislatura que António Costa assinou com o Bloco de Esquerda não tinha uma só linha sobre a revisão da tributação das renováveis. Incluía, isso sim, uma alínea sobre a criação de um grupo de trabalho, que analisaria “os custos energéticos com incidência sobre as famílias”. Tão genérico quanto isto.

Facto 2. Mais de um ano passado, o dito grupo de trabalho acabou os seus trabalhos, coordenados pelo actual secretário de Estado da Energia. E, sobre as renováveis, concordou em discordar: o Bloco pediu para ficar em acta que queria uma tributação sobre este tipo de produção de energia; os socialistas registaram também que discordavam desta tese - e fizeram questão de explicar porquê.

Facto 3. No OE 2018, o Bloco voltou a insistir, propondo primeiro que o assunto voltasse a ser estudado para que algo mudasse em 2019 (o que seria lógico e racional). Depois, trocou de proposta e levou a votos uma taxa que tiraria 250 milhões de euros no próximo ano às empresas do sector.

Facto 4. Por razões incompreensíveis, o Governo e o PS chegaram a dar o sim a esta última proposta. Incompreensíveis porque esse “sim” teve que passar, pelo menos, pelo secretário de Estado da Energia - que há um ano a recusou liminarmente.

Facto 5. António Costa bloqueou a cedência na última hora. E deixou o Bloco irritado: “Palavra dada não foi palavra honrada”. A conclusão, lidos os factos de enfiada, é que depende de que palavra estamos a falar. Se da de sexta-feira passada, se a do Governo e PS de há um e dois anos.

Este episódio é, no entanto, revelador de como está o Governo e de como a geringonça foi subitamente posta em ponto morto. Revelador da confissão de Costa, que nos diz estar “momentaneamente cansado” (a condução continua difícil, a viagem já vai longa e a conversa com os passageiros de trás já está a acabar). Revelador, também, das ”ganas” que nos diz manter (porque Costa sabe as consequências da guinada ao centro, antes de bater no separador da esquerda).

Sim, o chefe deste Governo sabe que tudo tem consequências, mesmo que seja feito em coerência. Quando Jerónimo e Catarina avisam que não haverá novo acordo escrito em 2019, Costa decide segurar o volante e seguir em frente. Em 2015, ele só precisou da geringonça porque ficou atrás do PSD. Agora, acredita que lhe bastará ganhar as eleições e manter uma maioria de esquerda para ficar com as cartas na mão.

Lido o episódio das renováveis, o que quer dizer é que a geringonça não é renovável. O Bloco sabe-o bem, o PCP também - pelo que os dois próximos anos prometem ser animados. Já leu o que escreve hoje Francisco Louçã?

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