Tysfjord, a pequena comunidade da Lapónia com uma longa história de abusos sexuais

Polícia da Noruega descobre 151 casos de abusos sexuais, a maioria cometidos por familiares e amigos das famílias. Há registo de 43 violações, uma delas de uma criança de quatro anos.

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Tysfjord tem 1960 habitantes, espalhados por quase 1500 quilómetros quadrados DR

A polícia da Noruega descobriu 151 casos de abusos sexuais, incluindo violações de crianças, num município com menos de dois mil habitantes junto à fronteira com a zona Norte da Suécia.

A polícia começou a investigar os casos no ano passado, depois de 11 habitantes do município de Tysfjord terem dado a cara como vítimas de abusos sexuais. Agora, depois da primeira fase da investigação, a polícia descobriu que os abusos aconteciam há pelo menos 64 anos – o primeiro caso remonta a 1953.

Em conferência de imprensa, a porta-voz Tone Vangen admitiu que "o trabalho da polícia até Junho de 2016 não foi suficientemente bom". A mesma responsável disse que a maioria dos casos descobertos durante o último ano (106 de 151) já prescreveu.

Dos 1960 habitantes de Tysfjord, 92 foram acusados de terem cometido abusos sexuais, incluindo 43 casos de violação – três deles de crianças, a mais pequena com quatro anos de idade.

A maioria das vítimas são raparigas com 15 ou 16 anos, quase sempre abusadas por familiares ou amigos das famílias – Tysfjord é um município com uma extensa área (quase 1500 quilómetros quadrados) mas com apenas 1,4 habitantes por quilómetro quadrado.

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Ao todo, a polícia identificou 82 vítimas, entre os quatro e os 75 anos de idade, e 92 suspeitos – entre estes há pelo menos três mulheres, e alguns deles são simultaneamente abusadores e vítimas.

A maioria da população de Tysfjord faz parte do povo indígena sami (tradicionalmente conhecidos como lapões) – uma comunidade com cerca de 140 mil pessoas dispersa pela região cultural Sápmi (ou Lapónia), que inclui áreas da Noruega, da Suécia, da Finlândia e da Rússia.

Apesar de 70% dos suspeitos de abusos sexuais fazerem parte dessa comunidade, a porta-voz da polícia disse que "não há razões para se acreditar que a etnia ou os factores religiosos são uma explicação para os abusos que ocorreram".

Ainda assim, Tone Vangen disse que a comunidade sami tem "certos mecanismos" que "dificultaram a denúncia dos casos" – a porta-voz da polícia disse que um dos suspeitos justifica os seus actos com o facto de ser xamã, e outros dizem ter procurado a penitência na religião e não junto das autoridades judiciais. A porta-voz salientou ainda que a maioria dos casos descobertos durante o último ano "seriam considerados hoje em dia abusos sexuais", dando a entender que podem ter sido vistos como comuns entre aquela comunidade em décadas passadas.

Salientando a discriminação de que os lapões são alvo na Noruega, a mesma responsável disse que "há uma forte necessidade de cerrar fileiras no seio das famílias porque a sociedade norueguesa olha para eles com desprezo".