Príncipe herdeiro saudita não desiste, mas o Irão está a vencer do Líbano ao Iémen

O confronto lançado contra os iranianos trava-se essencialmente no Iraque, Líbano, Síria e Iémen.

MBS numa conferência sobre desenvolvimento em Riad
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MBS numa conferência sobre desenvolvimento em Riad Hamad I Mohammed/Reuters
Crianças iemenitas protestam contra operações sauditas em Sanaa
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Crianças iemenitas protestam contra operações sauditas em Sanaa Khaled Abdullah/Reuters

Entre factos e uma grande dose de paranóia, a Arábia Saudita iniciou há quase três anos uma campanha para atacar a influência iraniana no Médio Oriente e aumentar a sua, através de guerras por procuração, sem afastar a possibilidade de conflitos directos. O primeiro passo sem recuo foi a abertura da frente iemenita, em Março de 2015, a pretexto de defender o que restava do Governo reconhecido, atacado por rebeldes huthis, supostas “marionetas do Irão”. O último, a tentativa de fazer cair o executivo de coligação libanês.

Desde que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MBS) tomou as rédeas da Defesa e Política Externa, o belicismo passou a ser o tom dominante. E se a guerra no Iémen era, como comentou na altura o colunista saudita Jamal Khashoggi, uma tentativa de “puxar o tapete aos iranianos na região”, tudo o que tem sido feito por MBS deve ser lido no contexto do desinvestimento americano na zona. Uma atitude iniciada com Barack Obama que pôs em causa o acordo dos velhos aliados: petróleo em troca de protecção (ao mesmo tempo que fechava o pacto sobre o nuclear com o Irão).

O confronto lançado pelos sauditas contra os iranianos passa por outros países, mas trava-se essencialmente em dois estados que deixaram parcialmente de funcionar – Iraque e Líbano – e outros dois que entraram mesmo em colapso – Síria e Iémen. Até agora, a vantagem é claramente iraniana.

Manobras extremas no Líbano

MBS não parece ter grandes problemas com manobras bruscas: no mesmo dia em que deteve dezenas de membros da família real e empresários (soube-se entretanto que o fez para os obrigar a pagar milhões em troca da liberdade, por alegados actos de corrupção), recebia em Riad o primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, desde sempre patrocinado pelo reino. Ora, Hariri chegou a demitir-se em directo num canal de televisão saudita culpando o Hezbollah e o Irão por isso.

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O primeiro-ministro Hariri de regresso ao Líbano WAEL HAMZEH/EPA

Entretanto, com uma passagem por França, está de regresso a Beirute e à chefia do Governo. Antes, já o reino retirara o financiamento às Forças Armadas do Líbano, em resposta à formação do executivo dominado pelo Hezbollah e à nomeação do aliado do partido/ milícia financiada pelo Irão de Michel Aoun para a presidência. A tentativa de forçar a demissão de Hariri “representou o reconhecimento da Casa de Saud da nova realidade”, com o peso de Teerão reforçado no país, escreve o analista Jonathan Spyer na revista Foreign Policy.

Perdidos no Iraque

Depois da intervenção dos curdos, os únicos que reagiram à entrada do Daesh pelas cidades do Iraque, o Exército iraquiano precisou de ser reformado. Entretanto, grande parte do esforço de guerra anti-Daesh foi realizado por membros de milícias xiitas reunidas nas Unidades de Mobilização Populares (UMP), um corpo independente e organizado pelos Guardas Revolucionários do Irão, com uns 120 mil combatentes. É verdade que nem todas as UMP são pró-iranianas, mas os três principais grupos armados xiitas do Iraque respondem directamente aos Guardas Revolucionários, Kataeb Hezollah, Organização Badr e Asaib Ahl al-Haq. Como a Badr controla o Ministério do Interior, as fronteiras entre Forças Armadas e milícias são difusas, o que faz com que alguns dos homens das UMP beneficiem de treino e equipamento americano. O braço iraniano é tão longo que chegou para conseguir que os curdos retirassem de Kirkuk em Outubro (depois do referendo sobre a independência), abrindo assim caminho para que os seus aliados ocupassem a cidade e as reservas de petróleo em redor. Bastou usara a rivalidade histórica entre as duas famílias de poder dos curdos do Iraque, os Barzani e os Talabani, convencendo as forças leais aos últimos a recuar.

Entretanto, os sauditas parecem perdidos. O primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi esteve em Riad o mês passado, uma visita que não acontecia há mais de 25 anos, e foi lançado o Conselho de Coordenação Saudita-Iraquiano, um canal para os sauditas tentarem ganhar peso financiando projectos específicos.

Apostas erradas na Síria

Desde o início da revolução síria que os sauditas se apressaram a escolher os seus aliados – avessos a quaisquer revoltas pró-democráticas, também não morriam de amores por um líder alauita (ramo do xiismo) como Bashar al-Assad – e assim que a guerra rebentou não deixaram de armar e financiar grupos que pensavam poder controlar. Enquanto isso, o Irão garantia a Assad financiamento, combatentes (iranianos, libaneses e até iraquianos xiitas ou afegãos da mesma confissão islâmica) e estrategas militares em número suficiente para impedir a destruição do regime (para começar a ganhar teve de vir a Rússia). Já os sunitas em que os sauditas apostaram, em conjunto com outros países árabes sunitas, acabaram afundados no caos sírio e muitos criaram ou integraram grupos salafistas radicais. Riad também teve sempre os seus aliados entre os líderes da oposição no exílio, mas esta nunca obteve a proeminência desejada e, no fim de contas, pouco haverá a ganhar com esta relação.

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Milhões num Iémen a morrer

Apoiados pelo Irão, muito menos do que os sauditas garantiam quando conseguiram formar uma coligação para os atacar, os huthis e os seus aliados no terreno não conseguiram conquistar o território do Iémen que lhes faltava quando Riad iniciou os bombardeamentos. Mas a verdade é que também não foram as bombas sauditas a expulsá-los de onde estavam, incluindo a capital e uma parte considerável da fronteira com a Arábia Saudita. Entretanto, o país que já era o mais pobre da Península Arábica, está literalmente a morrer, de fome e sede. E enquanto o apoio iraniano aos rebeldes da tribo huthi é modesto, os sauditas gastam milhões num conflito sem fim à vista.

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