A Quinta Alma conjuga os quatro elementos, mas a seca está-lhe a tirar a água

O projecto ambientalmente sustentável sofreu com a seca que tirou a água dos solos nos últimos meses. Agora, há duas campanhas para que a herdade florestal continue em funcionamento.

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No sopé da Serra de Monchique, quase a chegar a Aljezur, no Algarve, há um segredo. A vegetação rodeia-o num abraço pincelado com tons de terra, onde o verde abunda nas árvores que se amontoam na encosta, fazendo deste um local onde se comunga com a natureza. A banda sonora são as folhas a abanar com o vento e os pássaros a chilrear. Lá ao fundo, a pouco mais de dez minutos, o mar que alonga pela Costa Vicentina. O sol ilumina e aloura os prados, ao mesmo tempo que providencia energia.

A Quinta Alma é uma herdade florestal que se estende ao longo de quase 50 hectares, o projecto de “turismo sustentável” de Joana Gorjão e Mário Silva, um casal que, há dois anos, decidiu abandonar o frenesim citadino de Lisboa e rumar à calmaria das serras algarvias. Ali, a presença humana adapta-se aos quatro elementos.

O “retiro natural e ecológico” arrancou em Maio passado. Este Verão, a vertente ecológica chamou turistas interessados à Quinta Alma, onde, para além das vistas onde as árvores ondulam, há uma quinta orgânica que está em contínuo crescimento. Falamos com Mário ao telefone e o proprietário do espaço conta-nos que, de onde está, consegue ver “alguns conjuntos de árvores secas”, quase como manchas naquele tecido natural. Consequência da seca severa que, desde há seis meses, tem assolado Portugal e secado cursos de água que também nascem no país vizinho. Naquela herdade florestal, desde Maio, um dos ribeiros está seco; ainda que corra água pelas minas que por lá se espalham, Mário conta que “não se sabe até quando é que será assim”. “Isto leva a uma total transformação da paisagem e é um cenário assustador”, acrescenta.

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A solução do casal para “minimizar este problema” passa pela reconstrução do grande lago da herdade. O objectivo é alimentar as fontes e as minas que se encontram a jusante, passando pela terra e regando-a, “potenciando a biodiversidade”. Joana e Mário acrescentam que o lago também terá a função de reservatório, no caso do surgimento de algum incêndio na montanha.

Para o fazerem, os proprietários da Quinta Alma lançaram duas campanhas que visam a captação de donativos. Primeiro, através do PPL Portugal, uma plataforma de crowdfunding. Na página, o casal explica que precisa de 7500 euros, metade do valor necessário para a total recuperação do lago. A esse valor acrescem os custos de campanha, que perfazem o total de 8250 euros a alcançar. Quem fizer donativos através da PPL terá direito a descontos em estadias e a produtos orgânicos feitos de batata-doce ou do medronho de Aljezur, típicos da região.

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Mas esse não é o único investimento da Quinta Alma para melhorar o espaço. Sendo esta uma herdade que procura “minimizar a pegada ecológica”, a energia provém de painéis solares, que alimentam e fazem com que as instalações funcionem da maneira mais verde o possível. O aumento da capacidade fotovoltaica da quinta, outro dos objectivos dos proprietários, acompanha outra das apostas: o crescimento do número dos abrigos de montanha (o casal quer construir mais três), para que mais gente fique a conhecer o sopé da serra naqueles hectares onde impera a quietude. Este é um investimento de 45 mil euros, dos quais 30 mil já foram assegurados através da plataforma Go Parity. O prazo para o fim de ambas as campanhas é de mais duas semanas.  

Agora, falta o montante restante para que Joana e Mário possam materializar estes objectivos, sempre com a premissa de “melhorar as instalações da quinta e continuar a desenvolvê-la de forma sustentável”, explica Mário. Nos quase 50 hectares, não há blocos de cimento a estorvar o horizonte. As amplas tendas – ou abrigos –, seguras por estacas de madeira proveniente da herdade ou da serra, são envolvidas num tecido impermeável que encobre e protege o conforto das camas. O mesmo material é utilizado na construção dos espaços comuns, onde se toma o pequeno-almoço, com produtos que crescem na horta orgânica. As casas-de-banho funcionam de forma natural, a partir dos painéis solares, sendo o composto aproveitado para adubar os terrenos de cultivo, também regado pelas águas dos chuveiros. Tudo se interliga num sistema ecológico para que o impacto na natureza “seja mínimo” e sustentável, praticando-se os princípios e as bases da permacultura.

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A Quinta Alma encontra-se em funcionamento durante o Verão, e, este ano, esteve aberta até Outubro passado. Contudo, este “é um trabalho em full-time”, como diz Mário. Com Joana, desenhou e construiu os pequenos edifícios que se espalham pelo sopé, num esforço “com grande cunho pessoal”. “A manutenção do espaço obriga a que não paremos. Não temos férias”, refere. No entanto, “a qualidade de vida” que advém da quietude da serra é um passaporte para o descanso de dois empreendedores que, ao longo de 20 anos, trabalharam na área dos negócios, da gestão e da produção de eventos.

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