O pacto de Belmiro de Azevedo com o PÚBLICO

A 5 de Março de 1990, com o lançamento deste jornal, era publicado o “Pacto do Público”, reflectindo o acordo a que chegaram a direcção editorial, liderada por Vicente Jorge Silva, e a administração do jornal, encabeçada por Belmiro de Azevedo. Vinte e sete anos depois, no dia da morte do seu fundador, ele permanece plenamente actual.

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Há precisamente um ano, o grupo de jornalistas fundadores do PÚBLICO estabeleceu um pacto com o grupo económico, a Sonae, que decidira financiar e apoiar, com meios tecnológicos e de gestão empresarial, um projecto de características inovadoras na imprensa portuguesa. Foi a primeira iniciativa formal de uma associação inédita de vontades que se encontravam para erguer este jornal. Quisemos que o testemunho de confiança mútua num projecto jornalístico independente e moderno fosse transparente e público. Ei-lo.

PÚBLICO é o lugar de encontro entre um grupo de jornalistas e um grupo empresarial, a Sonae, tendo em vista um objectivo comum: a criação em Portugal de um jornal diário que, através de uma aposta inovadora no plano editorial e tecnológico, reúna as energias necessárias para responder ao desafio de uma informação moderna e de qualidade no espaço europeu.

PÚBLICO não existiria sem o projecto editorial dos jornalistas que o conceberam e sem os meios financeiros, tecnológicos e de gestão empresarial com que a Sonae nele participa. Por isso, os protagonistas deste encontro reconhecem-se mutuamente como parceiros complementares e indissociáveis num projecto de renovação dos media portugueses, para o qual é essencial a existência de um jornal diário de efectiva expansão nacional, ultrapassando as fronteiras geográficas e os bloqueios culturais que têm separado o país de si mesmo, afastando-o de um diálogo fecundo e quotidiano com as grandes transformações que atravessam o mundo contemporâneo.

Os media são hoje, nas modernas sociedades democráticas, uma área em expansão crescente, um sector extremamente dinâmico em que se configuram as novas realidades culturais e empresariais desta época de viragem. A integração activa nesse movimento global não podia, por isso, deixar de colocar-se à Sonae. Mas, também por isso, a Sonae não confunde o seu interesse estratégico nesta área com o equívoco fatal de encarar os media como instrumentos de propaganda de outras actividades ou interesses do grupo. Um projecto jornalístico que não se afirme por si mesmo, em condições de indiscutível independência, não reúne os factores de credibilidade e prestígio públicos indispensáveis ao seu sucesso editorial e empresarial. Pelo contrário, constituiria um empreendimento condenado à partida, sujeito à rejeição da opinião pública e arrastando para o descrédito quer a imagem do grupo empresarial, quer a reputação dos profissionais da imprensa, convertidos em “yes men” e “vozes do dono”. Disso estão definitivamente conscientes a Sonae e os jornalistas que conceberam este projecto.

De qualquer modo, não é fortuito nem ocasional que os jornalistas que animaram a criação de PÚBLICO tenham encontrado na Sonae o interlocutor mais receptivo, decidido e empenhado em apoiar o projecto. Do mesmo modo, se a Sonae aceitou como interlocutores este grupo de jornalistas foi exactamente porque reconheceu neles, para além da capacidade de gerar um produto de sucesso, a identificação com um código deontológico de independência e escrúpulo profissional que, tal como têm demonstrado ao longo das suas carreiras, não se compadece com qualquer espécie de servilismo.

São simétricas as opções que nos conduziram a este encontro e ao pacto que hoje celebramos. Entre nós, as razões de associação são claras e as regras do jogo perfeitamente transparentes. Esta situação reflecte-se, nomeadamente, na participação do grupo de jornalistas responsáveis pela concepção de PÚBLICO no capital social da empresa editora do jornal. Entretanto, a nossa associação ultrapassa as fronteiras de um jornal diário: ela estende-se à reflexão conjunta sobre a estratégia multimedia da Sonae, assegurando assim critérios básicos de harmonia e coerência entre as diferentes actividades desse sector.

Mas, para nós, não basta ser. No universo das aparências em que frequentemente se movem os media, é também preciso parecer. A preocupação mútua em eliminar qualquer foco de suspeição que minasse a confiança do público e suscitasse perigosas ambiguidades levou-nos a criar uma estrutura empresarial que garante, desde logo, a autonomia da gestão face a quaisquer interesses pontuais dos accionistas. A empresa editora do PÚBLICO adoptará um modelo institucional inédito na nossa imprensa e que se traduz na existência de um conselho geral e de uma direcção.

Entre os dois modelos de órgãos sociais previstos na lei portuguesa, é este o que melhor garante a independência jornalística, além de atribuir à direcção, composta por três elementos da direcção editorial e dois da direcção administrativa e comercial, uma responsabilização permanente pela resolução de todo o tipo de problemas perante o mercado e os accionistas. Estamos conscientes, porém, de que este modelo é contranatura, se a propriedade da empresa estiver largamente concentrada num único accionista. Por outro lado, quer o risco financeiro do projecto, quer a sensibilidade de um jornal detido essencialmente por um grupo económico da dimensão da Sonae aconselham, por princípio, a distribuição do capital por mais accionistas.

Mas a conveniência objectiva da abertura do capital de PÚBLICO a outros accionistas contempla também um dos princípios essenciais que definem o espírito deste projecto jornalístico e as linhas mestras da sua concepção. Esse princípio é o de responder positivamente às estratégias multimedia que se afirmam na Europa, tendo em vista o horizonte de 1993, e ao processo actualmente em curso de aproximação entre órgãos de imprensa de vários países europeus que partilhem de uma filosofia idêntica de informação. Para nós, todas as relações e contributos enriquecedores para a criação de um grande jornal diário de referência e expansão nacional em Portugal projectam-se, desde já, numa escala e numa vocação europeias, em sintonia dinâmica com a própria condição portuguesa numa Europa sem fronteiras.