Editorial

Fazer-lhe justiça

Belmiro de Azevedo não foi apenas o fundador do PÚBLICO. Foi um dos maiores empresários portugueses da democracia - para não arriscar o qualificativo “maior”.

Sou director do PÚBLICO há mais de um ano. Nunca conheci Belmiro de Azevedo. Também nunca conheci o seu filho, Paulo Azevedo, o actual presidente executivo da Sonae, o grupo a que pertence este jornal desde o seu dia 1. 

Escrevo isto no dia da morte de Belmiro de Azevedo e não é uma declaração de interesses. É em homenagem ao homem que percebeu que o país precisava de um novo órgão de comunicação social, quando muitos ainda eram do Estado, e que esse jornal (este jornal) não podia ser um órgão de defesa dos interesses dele, mas um órgão que defende o interesse de todos. Acredite: tudo isto é muito fácil de dizer e muito difícil de aplicar. Em Portugal é um caso raríssimo.

Esse compromisso ficou registado, por escrito, no dia do nascimento do PÚBLICO, ao lado do primeiro editorial. Chamaram-lhe um pacto, selado entre a administração e a sua primeira direcção editorial, que determinava as linhas gerais de um relacionamento. Esse pacto, que hoje decidimos republicar, falava de um projecto independente e transparente; de informação moderna e de qualidade; de uma “parceria” para a renovação dos media; de uma empresa que “não confunde o seu interesse estratégico nesta área com o equívoco fatal de encarar os media como instrumentos de propaganda”.

Esse pacto é tão actual hoje como era em 1990. Apesar do tempo que passou, apesar das crises que surgiram. Seguramente criou muitos problemas ao seu fundador, em alguns casos prejudicando os seus negócios. Connosco, criou desentendimentos, desacordos, choques, tensões. Belmiro soube resistir a todos - como testemunha hoje o Nuno Pacheco, que é entre nós quem sabe melhor. A liberdade tem um preço e esse é provavelmente o maior.

A independência de um jornalista tem que ser plena. E para ser plena tem que ser livre também para o elogio. Hoje é imperioso fazê-lo, porque Belmiro de Azevedo não foi apenas o fundador do PÚBLICO. Foi um dos maiores empresários portugueses da democracia - para não arriscar o qualificativo “maior”. 

Quem o conheceu bem garante que era determinado, frontal, desassombrado, contundente e pouco cerimonioso. Isso valeu-lhe muitas lutas, algumas que perdeu. E algumas inimizades. Belmiro nunca teve medo delas, das derrotas e das incompreensões. Tão pouco teve medo dos erros. Nisto, infelizmente para o país, teve poucos pares na sua geração - seríamos maiores se mais lhe tivessem feito companhia nessa ousadia.

Em 50 anos de carreira, Belmiro de Azevedo também acumulou vitórias: alargou a intervenção da Sonae na indústria, ao retalho e à grande distribuição, às telecomunicações, aos media; pôs a empresa na bolsa; transformou-a num dos maiores empregadores do país, levou-a para outras fronteiras. Construiu o seu próprio sucesso, ajudando ao da nossa economia. Foi assim até ao fim, porque mesmo no final daqueles 50 anos de carreira teve sucesso onde poucos conseguiram: acertar o tempo da saída, passar o testemunho numa empresa familiar.

2017 está a acabar e deixa-nos a olhar para trás. Entre outros, perdemos Mário Soares, Américo Amorim, Daniel Serrão, D. Manuel Martins e, agora, Belmiro de Azevedo. O melhor que podemos fazer é honrar o que nos deixaram e fazer o nosso melhor. Daqui do PÚBLICO, tencionamos fazê-lo da mesma forma que sempre. Usando da liberdade que nos deu, em defesa do interesse de todos.  

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