Crónica

Adeus, Belmiro

Belmiro de Azevedo nunca precisou de se pôr em bicos de pés: era um trabalhador no sentido mais nobre da palavra.

Falar da vida de Belmiro de Azevedo — da vida que trouxe, da vida que levou, da vida que deu — é falar de outras vidas que ele ajudou a construir e beneficiou, entre as quais a minha, entre milhares.

Só o vi de longe e só o conheci por outras pessoas que não o conheceram bem. Mas sempre apreciei a inteligência, a rectidão, a generosidade e a elegância dele. Via-o sozinho, sabendo que estava a ser atentamente observado por todos — e admirava a maneira muito digna como ele aceitava essa responsabilidade.

Falando da vida empolgante de Belmiro de Azevedo, cheia de ousadias e dificuldades, é impressionante como ele nunca usou esses êxitos para se engrandecer — e muito menos para diminuir os outros. Ele sabia que era uma pessoa excepcional e que não podia esperar que todos nós estivéssemos à altura dele. Não era condescendência: era realismo. Não era arrogância: era sensatez.

Belmiro de Azevedo nunca precisou de se pôr em bicos de pés: era um trabalhador no sentido mais nobre da palavra. Não só não era fútil como era invulnerável às futilidades sociais que preocupam e divertem tanta gente. Recusou-se sempre a ser a figura pública que poderia ter sido e que muitos queriam que fosse. Não entrou nesses jogos: protegeu-se e, com isso, respeitou os colaboradores, os empregados, os portugueses.

É pena que falando da vida de Belmiro de Azevedo não fique lugar para a tristeza da morte dele, chorada por quem o ama — e já está a sentir falta dele. É muito difícil e leva muito tempo a passar.