Também Judy Garland foi apalpada e assediada por homens poderosos de Hollywood

“Vou destruir-te”, disse-lhe um executivo de Hollywood quando ouviu um não. Além das ameaças, a actriz que morreu aos 47 anos, em 1969, foi também pressionada a perder peso e criticada pela sua imagem.

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Louis B. Mayer e Judy Garland ao lado da sua mãe no seu aniversário Bettmann

Há quase 20 anos, quando pesquisava um livro sobre Judy Garland, o biógrafo Gerald Clarke reparou numa velha coluna social em que se afirmava que a actriz estava a escrever as suas memórias para a editora Random House.

O rumor despertou a curiosidade de Clarke, disse mais tarde à Entertainment Weekly, porque não havia registo da publicação de tais memórias. Clarke enviou então o seu assistente de pesquisa à biblioteca da Universidade de Columbia, onde a editora guarda os seus arquivos, para descobrir se havia correspondência sobre o projecto. Encontrou nada menos que 30 cartas.

“Ah, e já agora”, disse o investigador, “há também uma autobiografia.”

Estava incompleta, 68 páginas apenas. Mas o que Clarke descobriu nessas páginas chocou-o: que Garland, uma das mais famosas actrizes do mundo, tinha sido repetidamente molestada/apalpada e assediada por Louis B. Mayer, o célebre produtor e co-fundador dos estúdios Metro-Goldwyn-Mayer.

Numa altura em que o mundo tem o olhar fixo e manifesta a sua repulsa pelas acusações de assédio sexual que actrizes e actores têm feito contra alguns dos maiores nomes de Hollywood – Harvey Weinstein, Kevin Spacey, Louis C.K., Dustin Hoffman –, é importante lembrar que este tipo de comportamento inaceitável foi tolerado desde que as primeiras luzes se acenderam no mundo do espectáculo.

Entre as vítimas ao longo do tempo contam-se Marilyn Monroe, Beverly Aadland, Joan Collins e até Shirley Temple – nas suas memórias, todas elas descreveram como foram molestadas e alvo de outros abusos.

“Toda a gente conhece os sofás de audições de Hollywood”, disse Clarke numa entrevista à ABC News, “mas ninguém sabia que Judy tinha sido sujeita a pressões sexuais por parte dos patrões da MGM.”

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O Feiticeiro de Oz

Tudo começou por volta da altura em que Garland interpretou Dorothy em O Feiticeiro de Oz. Tinha dezasseis anos.

“Ter sexo com as funcionárias femininas era considerado uma regalia do poder, e poucas mulheres escaparam aos caprichos de Mayer e dos seus subordinados”, afirma Gerald Clarke em Get Happy: The Life of Judy Garland, onde traça uma imagem dos abusos que dá a volta ao estômago:

“... entre os 16 e os 20 anos, Judy foi assediada sexualmente – uma e outra vez. ‘Não pensem que eles não tentaram todos’, chegou a dizer. No cimo da lista estava o próprio Mayer. Sempre que a elogiava pela sua voz – ela cantava com o coração, dizia –, Mayer punha invariavelmente a mão no seu seio esquerdo, só para mostrar onde ficava o seu coração. ‘Muitas vezes pensei que tinha sorte’, observou Judy, ‘por não cantar com outra parte do corpo.’ Essa situação, um elogio seguido por um apalpão, repetiu-se até Judy ter crescido e lhe ter posto fim. ‘Sr. Mayer, nunca mais volte a fazer isso’, teve finalmente a coragem de dizer. ‘Não irei tolerá-lo.’”

E como reagiu Mayer?

Chorou.

“Como és capaz de me dizer isso, a mim que te adoro?”, perguntou a Garland, que décadas mais tarde descreveu o seu desprezo por ele nas suas memórias não publicadas: “É espantoso como estes homens poderosos, que passaram a vida rodeados de mulheres sofisticadas, podem ser tão idiotas.”

Meyer era o mais persistente, mas não o mais perverso, relata Clarke:

“Um outro executivo – que Judy não nomeia – chamou-a ao seu gabinete, como antes chamara tantas outras ainda mais glamorosas estrelas da Metro. Dispensando qualquer pretensão de conversa banal, exigiu que também ela tivesse sexo com ele. ‘Sim ou não, aqui e agora – era o estilo dele’, recordou Judy. Quando ela recusou... ele começou aos gritos. ‘Ouve – antes de ires, quero dizer-te uma coisa. Posso e vou destruir-te. Vou acabar contigo nem que seja a última coisa que faça.’”

Além das ameaças e do assédio, Garland foi também pressionada a perder peso e criticada pela sua imagem. Afundou-se nas drogas e no álcool e morreu em 1969, vítima de uma overdose de barbitúricos aparentemente acidental. Tinha 47 anos.

A descoberta de Clarke sobre os abusos que Garland sofreu teve ainda um desenvolvimento irónico e perturbador.

Em 2009, cerca de dez anos após a publicação da biografia, a imprensa de Hollywood entrou em alvoroço com a notícia de que o livro iria ser transformado em filme – Garland, interpretada por Anne Hathaway, voltaria ao grande ecrã.

“É um projecto muito sensível”, disse Hathaway à BBC em 2010, “e têm circulado tantas histórias sobre a sua vida que queremos mesmo fazer as coisas bem feitas.”

O filme nunca chegou a ser produzido, e agora tal parece cada vez mais improvável.

O produtor? Harvey Weinstein.

Exclusivo PÚBLICO/ The Washington Post