Almada, o homem do olho de filmar

Museu Nacional Soares dos Reis mostra Almada: desenho em movimento, uma selecção de obras que tem o cinema e o desenho animado como enfoque especial. Para ver no Porto, até 18 de Março.

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Vidro pintado da obra La Tragedia de Doña Ajada Nelson Garrido
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Vidro pintado da obra La Tragedia de Doña Ajada,Vidro pintado da obra La Tragedia de Doña Ajada Nelson Garrido,Nelson Garrido
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Cartaz de A Canção de Lisboa Nelson Garrido
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Planificação de O Naufrágio da Ínsua Nelson Garrido
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Almada é autor de uma obra polimorfa Nelson Garrido
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Estudos para os trípticos da Gare Marítima da Rocha Conde de Óbidos Nelson Garrido
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O desenho e o cinema são os núcleos centrais da exposição Nelson Garrido

Ao entrarmos na sala das exposições temporárias do Museu Nacional Soares dos Reis, entrevemos os dois icónicos cartazes d’A Canção de Lisboa (José Cottinelli Telmo, 1933), o filme inaugural da comédia popular portuguesa. E a introduzir a visita, este excerto de uma conferência de Almada Negreiros (1893-1970), realizada em 1938, sobre o tema Desenhos animados, realidade imaginada: “Toda a razão de ser de uma arte, a sua independência, ainda que essa arte se chame cinema, está exactamente no desenho (…). A mãe de todas as artes chama-se desenho”.

E logo percebemos ao que vamos: José de Almada Negreiros: desenho em movimento, que esta quinta-feira abre ao público no museu nacional, não é uma mera repetição da exposição que na primeira metade deste ano mobilizou 135 mil visitas na Gulbenkian, em Lisboa, tornando-se numa das mostras mais procuradas na história da fundação.

A exposição do Museu Soares dos Reis, que reúne perto de um quarto das quase 400 peças exibidas em Lisboa, tem um propósito e um roteiro próprio, que a curadora Mariana Pinto dos Santos (a mesma da mostra na Gulbenkian) explica assim: trata-se de “propor um olhar sobre o carácter cinematográfico da linguagem artística da modernidade inequivocamente expresso na obra de Almada, mostrando como o artista dialogou com o cinema através do desenho”, escreve num texto que integrará um jornal ainda a editar no decurso da exposição, que vai poder ser visitada até 18 de Março de 2018.

O cinema, e em especial o cinema de animação, é pois o enfoque especial desta exposição, que assim ganha uma identidade e um valor próprios. Mais ainda quando também revela algumas novidades relativamente a Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno.

De entre elas, a revelação mais inesperada é a série de seis vidros com os desenhos que Almada fez em 1929, em Madrid, para acompanhar La Tragedia de Doña Ajada, uma composição musical de Salvador Bacarisse (1898-1963) e poemas de Manuel Abril (1884-1943), e que em Lisboa tinha sido apenas evocada com a reprodução dos desenhos. “A cor destes desenhos sobre o vidro é muito diferente da dos originais”, explicou esta quarta-feira Mariana Pinto dos Santos, na visita guiada para os jornalistas, revelando que os vidros foram levados à Gulbenkian por um coleccionador já durante a exposição de Lisboa. Além de mostrar os seis vidros pintados à mão, um dos quais já mesmo partido, o Soares dos Reis repete a projecção em lanterna mágica dessa sequência, tendo como banda sonora a música de Bacarisse, que entretanto foi tocada e gravada pela Orquestra Gulbenkian.

Em paralelo com esta versão “recuperada” de La Tragedia de Doña Ajada, é reexposto o story board do filme de animação O Naufrágio da Ínsua, “grande drama em forma de pic-nic”, que Almada mostrou no Cine Modelo, no Alto Minho, em 1934.

A reconstituição do friso para o Cine São Carlos, em Madrid, um desenho de Greta Garbo no filme O Beijo (Jacques Feyder, 1929) e vários retratos de mulheres com look “à Louise Brooks” são outras referências cinéfilas no percurso da exposição, que abre com uma sequência de “auto-retratos com o olho desmesurado, expressando simultaneamente admiração e voracidade pela descoberta”, como nota a curadora.

Se em José de Almada Negreiros: desenho em movimento é ainda possível ver outros inéditos relativamente à mostra da Gulbenkian – como uma sucessão de textos explicativos, um dos quais relativo ao filme-farol do Cinema Novo, Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963), os estudos para os trípticos da Gare Marítima da Rocha Conde de Óbidos e fotografias do painel duma casa de Cascais também só recentemente identificada –, é a reconstituição da polifonia e polimorfia da obra deste artista que marcou o modernismo português que é agora feita no museu do Porto. Sempre com o desenho como traço distintivo, seja na complexidade dos seus vitrais e tapeçarias, seja na simplicidade daquele barco definido em apenas três traços, e que fecha o percurso da visita.