Editorial

O ruído na comunicação deste Governo

Sim, o Governo tem um problema com a comunicação. Mas a sessão com o painel de cidadãos é o menor dos sintomas.

O Governo de António Costa quis comemorar o segundo aniversário com um painel de cidadãos que interpelou o executivo. A acção é parecida com a do ano passado, com a diferença de os cidadãos desta vez terem sido escolhidos por uma agência de comunicação e com o pormenor de ter custos quatro vezes mais elevados – a comunicação sobre este assunto não foi clara e voltou a expor a descoordenação do Governo em matérias de comunicação, que é um problema de fundo deste executivo que se tem vindo a agravar.

A crise dos incêndios foi o primeiro sinal de que algo estava mal. A frase infeliz do primeiro-ministro - “não me faça rir” - podia ter sido apenas fruto do cansaço e do stress, mas os meses que se seguiram confirmaram os sintomas. O caso de Tancos revelou a descoordenação absoluta no discurso e na ação política, com o ministro da Defesa a fazer as honras da casa do disparate. Mas rapidamente o problema voltou a subir na hierarquia, desta vez graças às redes sociais.

À imagem de outro líder político conhecido, também a gestão que é feita da conta de Twitter de António Costa deixa a desejar. E o caso do jantar no Panteão voltou a demonstrar demasiada pressa na resposta, demasiada emoção, reflexão de menos. Parece que a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa anda a deixar nervoso o primeiro-ministro, que se sente forçado a responder de improviso – poucas vezes bem, quase sempre mal.

O corolário foi na questão do Infarmed, em que se respondeu de sopetão a um acontecimento mais do que previsível. Não foi surpreendente o falhanço do Porto para acolher a Agência Europeia do Medicamento, mas já o foi o anúncio atabalhoado da mudança do Infarmed para o Porto – sem respeito pelos trabalhadores, pelos contratos internacionais e pelas obrigações deste organismo do Estado. E, enquanto para o público o discurso reforçava a ideia inabalável, para dentro do Instituto o ministro dizia que era apenas uma intenção. São erros a mais em tão poucos meses.

Até é possível que algumas destas sejam as questões que ocupam jornalistas e opinadores, deixando indiferentes os cidadãos. Mas, como sempre acontece, este problema não existe até que, de uma vez só, se transforma em avalanche - e quando se perde a opinião pública é quase impossível recuperá-la. Ninguém sabe se se esse zénite está a uma ou a dez gaffes de distância, mas o Governo faria bem em não arriscar.

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