"A Cornucópia acabou" e foi dado destino a todas as coisas

O Teatro da Cornucópia fechou portas no passado dia 17 de Dezembro de 2016, 43 anos após a sua fundação.

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Fabio Augusto

 O encenador e actor Luis Miguel Cintra, um dos fundadores do Teatro da Cornucópia, disse à agência Lusa que a companhia acabou e "todas as coisas" do acervo tiveram destino, do Museu do Teatro, à Universidade de Lisboa.

Cintra, que fundou o Teatro da Cornucópia, em 1973, com o também actor e encenador Jorge Silva Melo, afirmou: "A Cornucópia acabou, já saímos do sítio, e demos destino a todas as coisas que lá estavam, da maneira que nos foi possível".

Segundo Luis Miguel Cintra, "algumas coisas vão para o Museu do Teatro [e da Dança], outras, relacionadas com arquivo, para o Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras [da Universidade de Lisboa], outras coisas, a gente vendeu ou ofereceu, seleccionando caso a caso", e houve ainda outras peças que foram entregues ao Museu do Design.

Sobre o desfecho da companhia, Cintra disse: "O que me fez um bocadinho de impressão foi não se ter conseguido, da parte do Ministério da Cultura, uma vontade de utilizar aquilo que a gente tinha utilizado durante quarenta e tal anos e que podia servir de instrumento de trabalho para outras pessoas".

"Não terem aproveitado tal como a gente o fez. Houve um primeiro interesse que, depois, se esboroou e que não teve realização prática. Gostaria que aquilo que a gente fez, a transformação daquilo numa sala de teatro, com muito equipamento lá dentro, tivesse servido, não, para uma companhia em especial, mas para quem quisesse", disse, referindo que "achava que se devia ter aberto um concurso".

O imóvel que acolheu o Teatro da Cornucópia desde 1975, o seu segundo ano de actividade — o Teatro do Bairro Alto, na rua Tenente Raul Cascais, em Lisboa — volta para os seus proprietários.

Fazendo um balanço da Cornucópia, Luis Miguel Cintra afirmou: "Tudo foi feito de acordo como nós éramos, na altura em que fizemos".

"Não sofro horrores por não haver Cornucópia já", disse, referindo que tem "um bocadinho de saudade", mas valoriza principalmente, a consciência que tem, do que foi ter construído uma espaço à medida da companhia, "que é uma diferença muito grande de estar sem espaço".

O Teatro da Cornucópia fechou portas no passado dia 17 de Dezembro de 2016, 43 anos após a sua fundação. Nesse dia, um sábado, a companhia realizou um último espectáculo de despedida, com um Recital de Apollinaire e o lançamento do livro Teatro da Cornucópia - Espectáculos de 2002 a 2016, o segundo volume da história da sua actividade.

Luís Miguel Cintra, que em 2015 se afastou dos palcos por motivos de saúde, dividia a direcção artística com a cenógrafa Cristina Reis. A decisão de encerrar não foi tomada repentinamente, e tinha até já equacionada por Cintra, em 2013, numa entrevista à Lusa, pelos 40 anos da companhia.

Um dos motivos para o fecho foi a sequência de sucessivos cortes nos subsídios, por parte do Estado, que asseguravam o funcionamento da companhia, com mais de uma dezena de funcionários.

A preocupação dos responsáveis, porém, foi não decepcionar o público. Consideraram por isso que não havia condições para continuar a apresentar espectáculos, mantendo o nível a que habituaram os espectadores.

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