Crítica

Os rapazes do R&B que se seguem

Sofisticados criadores de música de interiores, os dvsn são a nova aposta da super-editora OVO Sound.

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Existem aqui ideias e momentos bastantes para acreditar que o melhor está para vir

Uma das curiosidades da dupla canadiana formada por Daniel Daley e Nineteen85 reside no facto de importar um “modelo” orgânico caro a um género (o rap) e a uma década (a de 90) com o qual mantêm relações estreitas (não tanto musicalmente, antes pelo facto de estarem assinados pela OVO Sound, mas a isso já lá iremos). De um lado, a voz de Daley (cantor, em vez de rapper), do outro, o produtor, Nineteen 85 (embora existam aqui colaborações adicionais, caso de Noah “40” Shebib, o grande artificie sonoro de Drake), tal e qual as históricas duplas do rap americano como Pete Rock & CL Smooth (que ainda há pouco tempo tocaram no Porto), EPMD ou Erick B & Rakim.

Não sendo este um modelo comum no terreno do R&B em que os dvsn (lê-se “division”) se movem (outro caso, que abaixo citamos amiúde, são os Majid Jordan), é ele que lhes garante, logo à partida, uma linha identitária clara. E se, musicalmente falando, os dvsn se encontram afastados do rap, já não o estão da década atrás referida, mais concretamente o R&B de finais dos anos 90/primórdios dos 2000, numa linha de renovação actual extensível a outros nomes (caso de alguém como Brent Faiyaz ou, numa linha mais soulful, Daniel Caesar), e que só prova como o género (R&B) permanece, de facto, extraordinariamente rico e inventivo (por alguma razão é que, ao contrário do rock, do punk ou do rap, nunca se ouviu a ninguém “R&B is dead”).

Algo veiculado pelo modo subtil como vão fazendo sobressair esse sabor reminiscente pelo meio de canções que, estruturalmente, até estão sintonizadas com o R&B de roupagem electrónica e “atmosférico” que predomina actualmente, sobretudo nas primeiras cinco canções do alinhamento. Isso é visível, desde logo, na proeminência concedida às linhas de guitarra, sempre com um pé a escorregar para o corny (o solo no final de Mood, P.O.V., Morning After, Can’t Wait, Claim), no próprio balanço da batida em Claim ou P.O.V. (nos BPM, sim, mas também na recusa daquele quebramento da tarola característico do trap actual) ou, até, nas teclas (Body Smile, aqui talvez até mais devedoras dos eighties).

Tanto o seu EP anterior (SEPT. 5TH, 2016) como o novo disco têm o selo da OVO Sound, a super-editora independente de Toronto co-fundada por Drake e uma das mais estimulantes no actual panorama da música negra, desde logo porque sintetiza, através do seu cardápio artístico (Majid Jordan, PartyNextDoor, Roy Woods), uma ideia contemporânea fundamental (como acontece, se bem que não de modo tão flagrante, com a TDE ou a Dreamville, editoras ligadas a Kendrick Lamar e J. Cole, respectivamente): a de que, hoje, o rap (e o sub-género do trap), o R&B, a soul, a pop e, genericamente, a música de dança não mais andam separados, congregação estética que tem correspondência no seu consumo geográfica e geracionalmente transversal (que Drake, goste-se mais ou menos, é um dos grandes visionários e fomentadores deste estado das coisas, eis o que a História se encarregará de carimbar).

Os dvsn surgem, então, precisamente neste carreiro estético, partilhando o ultra-romantismo (basta olhar ao título do disco…) dos seus colegas de editora Majid Jordan (os grandes pontas de lança, de par, claro, com o próprio Drake), se bem que numa toada bem menos dançante, menos nocturna e “drogada”, e mais devedora da balada, da love song clássica do tal R&B dos late nineties (Babyface, Sisqo, Joe, por aí). Na estreia em formato longa duração, a soberba Mood, canção tão clássica quanto moderna, e interpretada integralmente em falsete por Daley (talvez o elemento mais dotado vocalmente de todo o cluster da OVO, ecoando não raras vezes Maxwell ou D’Angelo), constitui-se, involuntariamente, quase num marco “meta-referencial” do disco. De facto, se, até esse momento, o registo é pouco mais do que morno, mediano, desinteressante, Mood crava, exactamente a meio do disco, uma mudança de rumo, de “humor”, de... mood, dessa forma abrindo espaço para momentos altos, a espaços excelentes, quase sempre irresistíveis. Diga-se, desde já, que tudo aqui é amor: sedução, desejo, obsessão, compromisso, é disso que falam rigorosamente todas as 13 canções do álbum.

Tudo é, também, interior, quatro paredes, sejam as de um quarto ou de um clube nocturno, em ambos os casos os olhares se cruzando a meia-luz, nos bastidores (não é por acaso que o videoclip de Mood se passa todo dentro de um apartamento). O ouvinte encontra aqui a mesma omnipresente melancolia dos Majid Jordan, com a essencial diferença de que, onde estes carregam na escuridão e nos néones, os dvsn pintam o mundo em tons pastel e rosáceos (condizentes, aliás, com a capa do álbum), sem que isso diminua, porém, o pathos global. Oiça-se, por exemplo, Morning After (espantoso trabalho de percussão no refrão), cocktail de sucesso garantido para o club mas cuja vibração dançante não diminui o sentido de trágico presente (aguçado com a incorporação do violino): “The world is safer when we’re both inside...”. Conversations in a Diner (o tipo de canção que alguém como John Legend arruinaria) encerra o disco em grande, curiosamente uma canção que fala também sobre o “encerramento” de relações amorosas e de como estas se constituem numa cápsula-refúgio de mundo, para o bem e... para o mal — e é como se víssemos este casal num diner do cinema americano (de Jarmusch a Scorsese, de Tarantino a Coppola) a discutir, entre longos silêncios, pela noite fora. Este não será, ainda, o grande álbum dos dvsn (aliás, é o primeiro), mas existem aqui ideias e momentos bastantes para acreditar que o melhor está para vir.