Torne-se perito

“Quero que a minha obra seja um poema musicado por um pintor”

Joan Miró foi amigo e admirador de Varèse, Cage ou Stockhausen, mas a influência crucial da música na sua obra nunca fora sublinhada. Miró & Music, que o neto do pintor apresentou em Serralves, preenche essa lacuna.

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Joan Punyet Miró Manuel Roberto
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Durante vinte anos, Joan Punyet Miró, neto do pintor catalão e administrador das fundações Miró em Barcelona, Palma de Maiorca e Mont-Roig, investigou as relações do seu avô com a música, catalogando e estudando a sua colecção de discos, percorrendo a sua correspondência, entrevistando compositores, maestros, coreógrafos e instrumentistas que trabalharam com o pintor. O resultado é o livro Miró & Music, que apresentou esta quarta-feira em Serralves.

O volume termina com um minucioso catálogo da discoteca de Miró, uma colecção de pouco mais de 200 discos, que nestes tempos de Spotify e afins parecerá diminuta, mas que era bastante difícil de reunir na época. “O meu avô estava sempre a escrever para França e para a América, a pedir que lhe enviassem discos”, explica ao PÚBLICO Joan Punyet Miró. Alguma dessa correspondência está transcrita no livro, como a carta que o artista enviou em 1953 ao negociante de arte Pierre Matisse, filho do pintor Henri Matisse. “Tenho neste momento uma grande necessidade – para trabalhar numa certa atmosfera – de reunir uma colecção de belos discos”, diz, acrescentando que toma a liberdade de enviar uma lista de pedidos, na qual elenca uma prioridade absoluta: “O disco que preciso mesmo de ter em casa logo que o consiga arranjar é o de Varèse, os seus ruídos bruts interessam-me imenso”.

O compositor americano Edgard Varèse (1883-1965) é um dos autores mais bem representados na escolhida discoteca de Miró, que vai dos clássicos – em particular Bach, Mozart e Beethoven – até Debussy e Satie, Bartok e Stravinski, John Cage e Stockhausen. O crítico de arte George Raillard conta que quando Miró viu que Stockhausen usava conchas, pedras e ramos de árvores para criar novos sons, comentou: “Este jovem trabalha como eu!”

Joan Punyet Miró lembra-se de ter dez anos e de ver o avô, muito concentrado, a ouvir música. Mas só muito mais tarde, em 1997, quando esteve a catalogar a biblioteca do pintor e descobriu que este tinha também “uma colecção de discos impecavelmente organizada por ordem cronológica”, teve uma primeira intuição da centralidade da música na criação artística de Miró. “Há uma frase do meu avô que é uma síntese magnífica da sua arte: ‘Quero que a minha obra seja um poema musicado por um pintor’”.

Punyet Miró observa que “toda a gente fala da influência da poesia surrealista, na obra de Miró, mas ninguém falou da música”. Uma influência que abarcava o flamenco, com o seu duende, ou o jazz, com a importância da improvisação, géneros dos quais se sentia próximo, porque ele próprio, lembra o neto, “dizia que trabalhava numa constante alucinação”.

“É isto que eu faço”

Ilustrado com numerosas pinturas de Miró nas quais são feitas alusões expressas à música, a par de reproduções das capas que o artista fez para discos de Poulenc ou Varèse, ou dos seus trabalhos para vários coreógrafos, o livro documenta a importância da música para o artista desde os seus anos de formação na academia de Francesc Galí — que punha os alunos a ler poesia e a ouvir música —, passando pelo contacto com as vanguardas internacionais em Paris ou pelo seu envolvimento na associação catalã ADLAN (Amigos da Arte Nova), que conseguiu manter pontes com a criação internacional mais inovadora durante as primeiras décadas do franquismo.

As obras de Miró com referências à música, como a célebre Dançarina ouvindo tocar órgão numa catedral gótica (1945), resultado directo da sua experiência de ouvir Bach na catedral de Maiorca, são apenas a face mais visível de uma influência que, acredita o neto do artista, atravessa toda a sua obra. Quando falou com o compositor e maestro Diego Masson, filho de um grande amigo de Miró, o pintor surrealista André Masson, este garantiu-lhe: “Joan, eu ouço música quando olho para as Constelações”. Tratava-se de uma afirmação literal, como Punyet Miró percebeu quando Masson começou a “trautear” as pinturas, como se estivesse a ler uma pauta.

Espantado, o seu interlocutor confessou que não ouvia nada, e Masson replicou: “Isso é porque és muito ignorante e não sentes a música”. Ainda hoje, vinte anos depois de ter começado a investigar o assunto, Punyet Miró admite que continua a “ser difícil escutar essa música silenciosa dentro da pintura”, mas não duvida de que ela está lá. E não deixa de ser curioso que esta epifania tenha ocorrido justamente com as Constelações, uma série de 23 guaches sobre papel que Miró realizou entre 1939 e 1941, em circunstâncias dramáticas, quando desceu do norte de França até Espanha, acompanhado da mulher e de uma filha (futura mãe de Joan Punyet Miró), em comboios cheios de soldados feridos, ameaçados pelos bombardeios nazis.

“Foi um pesadelo, mas acabou por ter muita sorte”, conta o neto. “Espanha tinha acabado de sair da guerra civil e havia uma lista na fronteira com os nomes dos opositores políticos, mas embora o meu avô tivesse colaborado com Picasso e Alexander Calder no pavilhão da República Espanhola para a Exposição Internacional de Paris, em 1937, o nome dele felizmente não constava, ou podia bem ter sido fuzilado”.

Na sua intervenção em Serralves, o neto do artista catalão sublinhou que o seu avô, que morreria aos noventa anos, em 1983, foi um inovador e um iconoclasta até ao fim. Num dos excertos de filmes que projectou durante a sessão, vê-se Miró, quase octogenário, a esfaquear e incendiar as suas célebres “telas queimadas” (uma delas está em Serralves). Não admira que, no final da vida, quando um dos seus netos o obrigou a ver na televisão um concerto de Jimi Hendrix em que o músico queimava a guitarra em palco, tenha comentado com entusiasmo: “Mas isto é o que eu faço!”

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