Editorial

A luta (quase) impossível de Mário Centeno

As contas de Centeno na corrida ao Eurogrupo parecem mais frágeis do que as do seu Orçamento. Mas uma vitória seria um inequívoco sinal de mudança da UE.

A ambição de Mário Centeno já nem é disfarçada: ele quer ser o próximo presidente do Eurogrupo. Mas a luta do português pelo lugar mais central da decisão política da UE é uma missão (quase) impossível.

Desde logo no plano interno. Nestes dois anos de governo, este ministro ganhou indiscutível peso político. As contas bateram certo, o rating começou a subir, os juros deslizaram para mínimos. A obra de Centeno foi a de convencer os investidores de que a “geringonça” trazia estabilidade. Dentro do género, conseguiu.

Mas o sucesso de Centeno é, neste quadro, um potencial problema. Se fosse eleito presidente do Eurogrupo, Centeno deixaria de falar como português — seria o árbitro de um jogo com obrigação de imparcialidade. Com isso, diminuiria a sua liberdade para defender Portugal. E arriscaria a aparecer, mês a mês, a dar a cara por políticas mais ortodoxas do que as que defende cá dentro (cenário pouco atraente para a estabilidade da maioria). Para António Costa, a solução ideal era que Centeno vencesse, sim, mas assumindo o cargo em exclusividade — um cenário que só deve acontecer lá para 2019.

Mas o vento europeu também não é favorável. Os socialistas continuaram a perder eleições na Europa; os liberais, que ganham peso nos governos, são tão “ortodoxos” na economia como os populares; e o plano de alargamento do euro a leste, assumido por Jean-Claude Juncker, dá mais força a candidatos daquela geografia do que aos do Sul da Europa. Na verdade, até o impasse na formação do governo alemão deixa um território desconhecido.

A uma semana da decisão, as contas à diplomacia fazem-se assim: há oito ministros PPE e dois liberais no Eurogrupo, o que desde logo dá uma maioria. Mas há também dois independentes que jogam à direita, tornando o jogo ainda mais difícil. Em 19 votos, as contas de Centeno parecem mais frágeis do que as do seu Orçamento — mesmo no pressuposto que os socialistas se juntam, que a Grécia e França o apoiam e que Espanha lhe dará mais um voto (por troca com o apoio a De Guindos, para o lugar de Constâncio no BCE).

O Governo português tem dito e repetido que a candidatura está ligada a um programa de mudança da linha política do Eurogrupo. Neste contexto, a derrota é provável e uma vitória seria um inequívoco sinal de mudança.

P.S. — Apesar de todos os contras, a verdade é que nesta UE os portugueses só têm hipóteses quando há um impasse entre outros. Foi assim com Durão Barroso. Talvez seja por isso que Centeno ainda não deitou a toalha ao chão.

david.dinis@publico.pt

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