Greve dos árbitros adiada. Fernando Gomes conversou com Vieira e Pinto da Costa

Os árbitros da primeira categoria vão estar nos jogos deste fim-de-semana, mas querem mudanças de comportamento e de regulamentos. Fernando Gomes já teve conversas em separado com presidentes de vários clubes, incluindo Vieira e Pinto da Costa.

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Os árbitros querem mudanças na atitude dos clubes LUSA/FERNANDO VELUDO

Neste fim-de-semana, não será preciso andar à procura de árbitros nas bancadas para dirigir os jogos da I e II Ligas. Depois de vários árbitros da primeira categoria terem entregue pedidos de dispensa para os jogos desta jornada nas competições profissionais, a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) comunicou nesta quinta-feira que essa greve estará suspensa durante 20 dias, prazo previsto pelos regulamentos para a efectivação dos pedidos de dispensa que os todos os 22 árbitros da primeira categoria entregaram. Mas a APAF deixa o aviso: a greve dos árbitros só será mesmo cancelada se, durante esses 20 dias, se verificar uma “total ausência de insinuações, da parte de clubes e agentes desportivos, que coloquem em causa a honra e o bom nome dos árbitros”.

Em termos práticos, este pedido de dispensa a 20 dias significa que é garantido que não haverá greve nas próximas três jornadas nas duas competições profissionais, até à 14.ª jornada na I Liga e até à 17.ª ronda na II Liga, sendo que os jogos dos oitavos-de-final da Taça de Portugal já (que se realizam a 13 de Dezembro, para lá do tal prazo de 20 dias) não estavam em risco, porque não é uma competição profissional. Ou seja, o FC Porto-Benfica, da 13.ª ronda que está agendado para 1 de Dezembro no Dragão, terá garantidamente um árbitro de primeira categoria e não está, para já, em risco de ser adiado.

Esta tomada de posição surge após uma reunião na última quarta-feira, em Fátima, entre a grande maioria dos juízes e representantes do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, e é a segunda vez que os árbitros recuam nas intenções de fazerem greve, depois de terem ameaçado com a paralisação para os jogos da Taça da Liga. Mas este não é um recuo incondicional, ou melhor, é um adiamento à condição em forma de ultimato. Segundo o comunicado, estão abrangidos pela exigência, dentro dos clubes, “dirigentes, treinadores, jogadores e demais funcionários, os meios de comunicação próprios e aqueles que promovem nas redes sociais”.

E por insinuações, acrescentam os árbitros, entenda-se por “acusar os árbitros de errarem de forma propositada […], de prejudicarem sempre o mesmo clube”, referências a “qualquer acto não provado de corrupção”, ou de associar os árbitros a “expressões como ‘polvo’, ‘padre’, ‘diácono’ ou ‘apito dourado’, entre outras […] utilizadas por diversos clubes já esta época”. No mesmo comunicado, a o organismo liderado por Luciano Gonçalves anunciou a criação de um gabinete jurídico para monitorizar “todas as declarações públicas nos diversos órgãos de comunicação social, de forma a responsabilizar civil e criminalmente toda e qualquer pessoa que coloque em causa a honra e o bom nome de qualquer agente de arbitragem”.

Outra das exigências dos árbitros são a realização de reuniões com a direcção da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) para a aprovação de “um corpo regulamentar que reforce a punição de quem não cumpre as normas éticas e disciplinares a que estão obrigados todos os agentes”, estabelecendo o dia 31 de Dezembro como data limite para a aprovação deste regulamento na Assembleia Geral da LPFP. “Se muita coisa não mudar nos próximos 20 dias”, acrescenta o organismo, “os árbitros não continuarão disponíveis para aceitar que a sua honra e bom nome continuem a ser sistematicamente postos em causa”.

Em comunicado, a LPFP mostrou-se disponível para trabalhar com os árbitros “para acolher propostas de alteração regulamentar dos parceiros, entidades e organismos que actuam e desempenham um papel relevante no futebol profissional”. O organismo liderado por Pedro Proença, um ex-árbitro, salientou ainda que o sector da arbitragem tem sido uma das suas prioridades em todas as suas vertentes, “não só os que estão agora a ser motivo de protesto […], mas todos os que estão relacionados com as remunerações e as condições de trabalho”.

Da parte da FPF, há já um esforço de sensibilização vindo de cima e dirigidos às direcções dos clubes. A informação foi avançada durante esta quinta-feira por vários meios e confirmada pelo PÚBLICO de que Fernando Gomes, presidente da FPF, tem tido conversas em separado com os presidentes dos clubes, tendo já reunido com Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, Jorge Nuno Pinto da Costa (FC Porto) - o líder portista veio, entretanto, dizer que falou com Fernando Gomes mas não sobre arbitragem -, António Salvador (Sp. Braga) e Júlio Mendes (V. Guimarães), entre outros – Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, ainda não teve esta reunião com Gomes por estar a cumprir uma suspensão de três meses decretado pelo Conselho de Disciplina da FPF.

Dois boicotes

Nas últimas décadas, não houve nenhuma greve geral de árbitros no futebol português, mas houve duas situações de boicote selectivo e ambas a envolver o Sporting. Primeiro, na época 1998-99, depois de três empates nas sete primeiras jornadas com muitas queixas dos “leões” à arbitragem nesses jogos, chegou-se à oitava jornada com Paulo Costa, árbitro da AF Porto, a recusar-se a dirigir um Farense-Sporting no São Luís. Das bancadas viria o algarvio Andrelino Pena, que dirigiu esse jogo que terminou numa vitória do Sporting por 3-1.

Treze anos depois, no inicio da época 2011-12, também numa altura de grande contestação sportinguista à arbitragem, João Ferreira, da AF Setúbal, recusou-se a dirigir um Beira-Mar-Sporting, e outros árbitros de primeira categoria também não quiseram ir a Aveiro. Foi um árbitro local da segunda categoria, Fernando Idalécio Martins, a dirigir esse encontro que terminaria num empate sem golos.