E se um assassino nos oferecer flores? Eis uma ópera pouco comum

Inspirados num conto de Rubem Fonseca, o compositor Tiago Cabrita criou uma ópera e o poeta António Carlos Cortez escreveu o libreto. O Jardim estreia-se este sábado na Escola Superior de Música de Lisboa, às 17h.

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Ensaio de O Jardim CARLOS MARECOS
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Ensaio de O Jardim CARLOS MARECOS

O tema é antigo, mas é pouco comum um assassino em série protagonizar uma ópera. O Jardim, de Tiago Cabrita, com libreto de António Carlos Cortez, introduz a “novidade” num tempo de enganos; e a ópera, já escrita há sete anos mas até agora inédita, vai ser encenada e estreada na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML), em Benfica. A estreia, aberta ao público, está marcada para este sábado, 25 de Novembro, às 17h.

Ora no jardim mora um monstro. Um monstro “normal”, como tantos que a humanidade já conheceu. No conto do escritor brasileiro Rubem Fonseca, Henri (o protagonista que cultiva um jardim ao qual atrai mulheres para, seduzindo-as, as matar e esquartejar) é “homem simples, sóbrio, tranquilo; olhos de um homem honesto; boca de um homem sensível, um intelectual talvez; educado, respeitável e pontual.” E, em simultâneo, um terrível assassino. Não por acaso, a escritora e professora brasileira Cristiane Cardaretti chamou a Rubem Fonseca, num ensaio, “o maior criador de monstros de carne e osso” da literatura brasileira. Mas Fonseca não inventou Henri. Charles Perrault já havia, em 1697, publicado, também num livro de contos, O Barba Azul, só que este era repulsivo e Henri não. Henri é mais aparentado com um outro Henri, francês, de apelido Landru, um assassino em série de mulheres, que acabou guilhotinado em 1922. Charlie Chaplin, com o seu impiedoso olhar clínico sobre a sociedade e os seus males, havia de levar à tela um personagem semelhante, Monsieur Verdoux, no ainda atribulado ano de 1947.

“Um murro no estômago”

Nascido em Lisboa, em 1985, Tiago Cabrita já apresentou em público duas óperas de sua autoria: A Vida Inteira (2012, com libreto de António Carlos Cortez), encenada por Luis Miguel Cintra no Teatro Nacional de São Carlos; e O Deus do Vulcão (2015, com libreto de António Pacheco), estreada também no São Carlos, mas no Festival ao Largo. O Jardim, escrito em 2010, foi o seu primeiro trabalho, num contexto académico. “Foi a obra com que terminei a licenciatura”, diz ele ao PÚBLICO. “Como não havia na altura meios para a produzir, ficou à espera de um dia ser feita. A oportunidade surgiu agora, no contexto de um projecto do Instituto Politécnico de óperas contemporâneas.” Quanto ao tema, diz, foi António Carlos Cortez que se lembrou. “E eu achei muito interessante, porque não é comum em óperas haver um personagem como este, um serial killer.”

Poeta, ensaísta e crítico literário, nascido também em Lisboa mas em 1976, António Carlos Cortez recorda ao PÚBLICO como tudo começou: “O Tiago, que é meu colega [são ambos professores, a par da escrita e da música], falou comigo e eu lembrei-me de explorar esse tema. Não só o da violência, mas o do serial killer, que tem duas coisas muito curiosas: à superfície é alguém que não identificamos, é um tipo normal, e arrasta consigo uma lógica depredatória. E eu, de alguma maneira, relaciono-a com a própria poesia e a literatura, como uma linguagem depredatória que é em si mesma violenta. O Lorca tem um texto muito interessante em que diz: ‘todo o poema é uma caçada.’ Isso está inerente a muita da poesia que eu escrevo e este libreto não foge à regra.”  

O libreto segue, de algum modo, um traço já existente na obra de António Cortez. “Um pouco na linha de algumas coisas que eu tenho escrito, na poesia, há aqui uma espécie de inquirição da violência. É uma coisa um pouco obsessiva, minha, e eu acho que na língua portuguesa um dos autores que de modo mais genial tem tratado essa violência é o Rubem Fonseca. Quando li, há muitos anos, o conto Henri, fiquei incomodado no bom sentido. É um murro no estômago. E eu transpus isso para dois registos: um longo poema em prosa que nunca cheguei a publicar, mas cujo universo deu origem a um livro recente que publiquei agora no Brasil, há duas semanas; e este outro, para a ópera.”

Paralelo com a actualidade

Tiago Cabrita recorda os passos que conduziram à ópera: “Houve uma primeira versão do libreto que surgiu até quase em prosa. Mas depois foi totalmente reestruturado para uma linguagem mais poética. Aqui houve um trabalho em conjunto, seguindo-se depois ligeiríssimas alterações pontuais de acordo com a música que estava a ser feita.”

Ao revê-la, ainda hesitou: “Houve um ligeiro conflito, porque vermo-nos confrontados, sete anos depois, com uma obra que já escrevemos, isso dá-nos uma certa distância. Há determinadas passagens desta obra que eu hoje escreveria de maneira diferente, e tenho essa noção. Mas optei por deixá-la praticamente como estava porque achei que fazia sentido assim. Gosto da ideia que esta ópera fique tal como a escrevi na altura.”

E ficou, embora tenha acabado por fazer pequeníssimas alterações por causa das vozes: “Na altura, escrevi-a a pensar num género de voz mas em nenhum cantor em particular. Agora, fiz ligeiras alterações, porque cada cantor tem as duas especificidades.” Em palco, na estreia, com o Ensemble ClusterLAB XL da ESML sob a direcção de Carlos Marecos, estarão a soprano Joana Alves e o barítono Francisco Henriques. A encenação e direcção musical e artística são de Sílvia Mateus e os figurinos de Ana Duarte.

Como olhar para uma ópera assim, na actualidade? Tiago Cabrita arrisca uma leitura: “A personagem principal seduz mulheres de meia-idade para se aproveitar delas e depois as assassinar. Num certo sentido, há aqui um paralelo com a actualidade. Porque somos bombardeados, até politicamente, com mensagens e ideias que nos são vendidas como positivas e que depois, sem que disso demos conta, se podem revelar prejudiciais. Pode ser uma leitura interessante, pensar nesta ópera com esse paralelo.”