Opinião

As escolhas difíceis

"Grave é que não se vislumbre em Portugal, em nenhum partido, qualquer racionalidade ou reflexão sobre estes temas. Não há ninguém na classe política capaz de discutir estes assuntos com propriedade e nem parece sequer que exista quem tenha vontade de os entender."

Sempre existiram discussões mais ou menos especulativas sobre o futuro. A diferença é que hoje o futuro chega mais rápido e as mudanças sociais provocadas pelas inovações tecnológicas são muito perturbadoras. Discutir as implicações da ciência e tecnologia na sociedade não é só decidir quantas bolsas de pós-doutoramento se atribuem, é também ser capaz de tomar decisões com consciência das suas implicações a longo prazo. E isto é algo que em Portugal quase não existe.

Não há, por exemplo, um discurso político associado à inteligência artificial, que é uma realidade cada vez mais presente. A União Europeia até pode estar a desenvolver algum pensamento estratégico sobre o tema, pensamento esse que pode ser determinante para as nossas opções. Mas nem esse pensamento consegue disfarçar o risco imenso que é ter o Velho Continente arredado da liderança nesta indústria. As dez maiores empresas no campo da inteligência artificial são americanas ou chinesas e, por muito boa que seja a legislação europeia, a inteligência artificial vai obrigar à tomada de opções éticas e geoestratégicas que terão consequências absolutamente determinantes para a sociedade que queremos ter.

E há mais questões em aberto. Muitas mais. O que vamos fazer à multidão de desempregados que vai nascer com a robotização da economia? Vamos taxar esse processo económico ou vamos encontrar outra forma de sustentar o nosso modelo social? Vamos todos trabalhar menos tempo por dia, trabalhar mais anos ou ambas? Vamos ter um rendimento básico universal? Vamos alterar o nosso modelo de ensino e formação? Como é que preparamos as nossas cidades para uma população envelhecida e ociosa? E quando é que começamos a fazer qualquer uma destas coisas?

Grave é que não se vislumbre em Portugal qualquer racionalidade ou reflexão sobre estes temas, excepto no PCP. Não há ninguém na classe política capaz de discutir estes assuntos com propriedade e nem parece sequer que exista quem tenha vontade de os entender. São discussões complexas, sobre temas novos, com opções difíceis. São inversas às que estamos habituados a fazer: não podem ser mantidas no Facebook, têm implicações de longo prazo que vão muito para lá do ciclo eleitoral e não se sujeitam a análises de focus groups. Mas têm de ser tidas. É legítimo discutir e optar por um dos vários caminhos disponíveis. Não é aceitável ignorar o que aí vem, sob pena de hipotecar a nossa independência e capacidade de decisão.

 

P.S.: Já depois da publicação deste artigo, foi-me feito chegar o registo vídeo de uma sessão pública que o PCP promoveu em Abril sobre este tema. É um exemplo a seguir, e que justifica a correção que fiz no texto acima, criando uma excepção para o PCP.

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