João Ricardo (1964-2017), "um acrobata em palco"

O actor lisboeta, conhecido pelos papéis em televisão, cinema e pelo seu trabalho no teatro, morreu esta quinta-feira aos 53 anos.

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João Ricardo dr

O actor e encenador João Ricardo morreu esta quinta-feira aos 53 anos. Estava internado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Em Outubro de 2016, fora operado a um tumor no cérebro, o que o levou a abandonar Rainha das Flores, telenovela da SIC na qual era actor e durante cujas rodagens descobriu ter cancro.

Já recuperado, este ano tinha feito parte do elenco de Espelho d’Água, mas acabou por abandonar o programa em Julho, quando o estado de saúde se agravou. Esta quinta-feira tinha dado entrada no Hospital de Santa Maria. O velório realiza-se esta sexta-feira, às 17h, na Basílica da Estrela, em Lisboa. O funeral está marcado para sábado, às 11 da manhã, no Cemitério dos Prazeres.

Nascido a 27 de Maio de 1964, João Ricardo foi um dos primeiros alunos da escola de circo e de artes de espectáculo do Chapitô, no início dos anos 1980. Em jovem, apaixonou-se pelo mundo da representação e do circo, inspirado por um visionamento de O Destino Marca a Hora, com Tony de Matos, e pelas idas ao circo no Coliseu de Lisboa. Aos 16 anos, passou seis meses a viver na rua e a fazer mímica na Rua Augusta para ganhar dinheiro.

O actor estreou-se em palco em 1990, a substituir um actor em O Baile, uma adaptação que Hélder Costa fez do musical homónimo de Ettore Scola, uma produção do Teatro A Barraca, tendo depois feito parte do elenco de Margarida do Monte, também encenada por Costa, e peças da mesma companhia, como Uma Floresta de EnganosPlay It Again, Sam ou A Cantora Careca. Foi também director artístico do Teatro de Carnide, sítio onde começou a carreira de forma amadora e que o homenageou ainda este mês com um espectáculo chamado Carrossel de Histórias!. Trabalhou também com o Teatro D. Maria II, onde encenou peças de William Shakespeare como Sonho de Uma Noite de Verão, em 2004 e A Ilha Encantada, no ano seguinte, tendo feito também parte do elenco de espectáculos escritos pelo mesmo autor como Ricardo II, em 2005, e Hamlet, em 2007.

Na televisão, desde a estreia, em 1989, em Caixa Alta, da RTP, fez parte do elenco de telenovelas e séries como Todo o Tempo do Mundo, Coração Malandro, Mundo Meu ,Tempo de Viver, Deixa-me Amar, Morangos com Açúcar ou Equador, da TVI, Cruzamentos, Bocage e Voo Directo, da mesma RTP onde se tinha estreado, e, por fim, Podia Acabar o Mundo, Perfeito Coração, Laços de Sangue, Rosa Fogo, Dancin’ Days, Sol de Inverno, Mar Salgado ou Coração d’Ouro, da SIC, estação na qual também participou em reality shows e concursos de celebridades como Splash! ou Toca a Mexer e apresentou, de 2013 a 2016, o programa de apanhados Não Há Crise, ao lado de Rita Andrade.

Como palhaço, fez várias missões humanitárias na Guatemala, e trabalhou também em teatro para crianças. Ainda nas obras para o público infantil, lançou, em 2013, um livro chamado Queres Namorar Comigo?, com ilustrações de Ana Sofia Gonçalves.

No cinema, trabalhou com João Botelho em A Corte do Norte, de 2008, Filme do Desassossego, de 2010 e em Corrupção, filme que o realizador renegou, de 2007. Trabalhou também com Margarida Cardoso, em A Costa dos Murmúrios, de 2004 e Luís Filipe Rocha, em A Passagem da Noite, de 2003.

Em declarações ao PÚBLICO, Carla Maciel, actriz que trabalhou com João Ricardo em Delírios Dell'Arte - Versão Doutor, peça do Teatro Meridional em cena no ano 2000 cujo texto tinha como base a improvisação dos actores, usa o nome da peça para caracterizar o trabalho do actor: "Estava sempre em pleno delírio. Foi revigorante trabalhar com ele.

Os dois actores, ele com mais experiência e ela, nas suas palavras, "verdinha", tinham acabado de fazer workshops de commedia dell'arte. Maciel na Gulbenkian, com Ferruccio Soleri, e Ricardo em Itália, com o rival de Soleri, Antonio Fave. "Não conhecia o João, foi a minha estreia no Meridional, e ele vinha ao rubro de criatividade", recorda. Diz ainda que o actor era "uma pessoa extremamente insatisfeita", que estava "constantemente a criar". "Eu ia ao encontro do que ele fazia, sempre levada pelo balanço dele", conta. "Ele acabava uma improvisação que era excelente e no dia a seguir já vinha com outra diferente para substituir. Tinha dificuldade em focar-se e escolher o que fazia nas improvisações."

"Foi um processo maravilhoso. Ri-me às gargalhadas. Ele fazia rir. Mais do que isso, com todas as pessoas que fazem rir, tinha as suas inseguranças. Ele achava que não estava a fazer bem, e eu sempre admirada com o trabalho", conta. "Era um acrobata em palco, tinha uma elasticidade fantástica. Era uma pessoa forte, mas atirava-se para o chão e levantava-se, fazia piruetas. Foi mesmo um delírio."

Resume o actor como "uma pessoa fascinante". "Era um pequeno rapaz, era bastante criança, tinha sempre a criança dentro dele, o humor". E gaba o talento: "Vi-o no Merlim, do Teatro o Bando, antes da peça que fizemos, e ele era um actor fantástico", explica. 

Anos depois, cruzaram-se em Laços de Sangue, a telenovela da SIC. "É engraçado, acho que esse espectáculo o marcou. Ele disse que tínhamos de voltar a fazer aquilo e a ideia ficou pendurada cada vez que nos víamos. Entretanto afastei-me da televisão e ele continuou na SIC, mas sempre que nos víamos ele dizia que tínhamos de voltar a fazê-lo." A actriz fala ainda de um marcador de livros que ainda hoje usa e guarda como recordação do espectáculo. "Não tenho muita informação sobre a peça, mas tenho esse marcador que tem o João comigo e com a máscara do zanni  [um tipo de personagem da commedia dell'arte], que ele fazia como ninguém", conta.

A actriz chegou a visitá-lo no hospital. "Ainda conseguiu recordar-se de mim, porque houve uma fase em que ele, já bastante debilitado, não estava a reconhecer as pessoas. Ainda se lembrava e falámos do espectáculo. 'Pá, ainda temos de fazer'."

João Botelho, que o dirigiu em três filmes, diz que, "mais do que a capacidade e versatilidade de pessoa que se dispõe a tudo e era um actor maravilhoso", a "impressão maior" que lhe fica de João Ricardo é pessoal: "Ele vivia por cima do meu escritório no Príncipe Real, era quase meu vizinho, e tinha uma relação maravilhosa com o filho. Passeava de mão dada ali à minha frente, e era dos momentos mais enternecedores vê-los, o filho era muito pequenino, era uma coisa de partir o coração de alegria."

Quanto ao talento, o realizador diz não haver muito mais a adicionar: "Toda a gente sabe que ele era muito bom actor, fazia telenovelas, fazia melodrama, fazia tragédia, fazia comédia e muito bem." Prefere, contudo, "falar desse lado pessoal, recordo mais isso do que o trabalho de cinema que não interessa nada para mim".

Ainda este ano estava a treinar para cumprir um objectivo antigo, mencionado ao longo dos tempos: atravessar o estreito de Gibraltar a nado.